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Victor Sapo, ex-Santos e Palmeiras, hoje tem hamburgueria e joga no Santo André ao mesmo tempo

Victor Luís Romano, de 27 anos, leva uma vida dupla: ao mesmo tempo, é jogador de futebol profissional e dono de uma hamburgueria, onde atende os clientes no balcão e inclusive serve os lanches nas mesas.

Mais conhecido como Victor Sapo, o centroavante é um dos destaques da boa campanha do Santo André na Copa Paulista, mas tem que se desdobrar para treinar, jogar e cuidar de seu empreendimento.

"Não é fácil. É bem cansativo. Eu treino de manhã, chego em casa e descanso um pouco. Depois, vou trabalhar na hamburgueria até tarde. No outro dia, acordo cedo e começa tudo de novo", contou, em entrevista à ESPN.

"Tem que estar com a cabeça muito boa para poder se dividir. Eu não sabia quase nada do ramo, só conhecia de frequentar, mesmo. Mas está indo bem! Temos muitos clientes e o pessoal está gostando", comemorou.

A hamburgueria fica em São Caetano, também no ABC paulista, e depende do esforço de Victor Sapo para funcionar bem.

"É uma hamburgueria artesanal e tocamos rock, pop e MPB. Curioso que não tem nada a ver com os estilos de música que eu gosto, que são moda de viola e sertanejo (risos). No final de semana temos garçons, mas durante a semana eu fico lá na frente anotando pedidos e servindo os clientes nas mesas. É importante, pois o pessoal gosta de ver que o dono está presente e atendendo", ensinou.

Para o atacante, cuidar do estabelecimento está sendo uma diversão e também um aprendizado.

"Você aprende muita coisa nova, principalmente na parte financeira. Cada centavo ganha valor. E eu gosto dessa correria de ir ao mercado, buscar pão, ter que comprar as coisas. É correria, mas é legal", exaltou.

Mas será que ele é reconhecido pelos torcedores do Ramalhão que vão à hamburgueria?

"Olha, eu não falo para ninguém que sou jogador... Não gosto de ficar falando. Mas muita gente sabe que estou lá e vai por isso. Os torcedores do Santo André vão direto para comer, e eu acho isso muito legal", festejou.

PARÇA DE NEYMAR NO SANTOS

Victor Sapo nasceu em Taguaí, município do interior paulista a 340 km da capital São Paulo.

Aos 13 anos, foi se aventurar no mundo do futebol e passou em um teste no Santos. Na equipe da Baixada, fez amizade com o craque Neymar, hoje astro da seleção brasileira e do Paris Saint-Germain.

"Fiquei dois anos no Santos. Joguei com o Neymar, já que temos a mesma idade, e ficamos muito amigos nessa época. Ele não era tão famosos e não tinha tanto dinheiro, mas já era f***! Jogava demais e sempre teve um tratamento diferenciado por causa disso", contou.

A amizade se fortaleceu com disputadas partidas de videogame na casa da família de Neymar.

"Eu sempre ficava em Santos aos finais de semana e íamos em turma na casa do Neymar. Naquela época, ele ainda morava na Praia Grande, e passávamos o final de semana todo lá. A gente brincava muito, jogava bastante videogame. Ele ficava bravo demais quando perdia, até ficava sem falar com a gente (risos). Os pais dele sempre estavam juntos também, eram muito gente boa", elogiou.

Foi também nos tempos de Baixada que Victor ganhou o apelido que lhe acompanha até hoje, e inclusive virou seu "nome profissional".

"Um dia eu acordei doente, com a garganta toda inchada e um papo enorme. Os médicos não sabiam o que era e me mandaram amarrar um pano na cabeça, com medo que fosse caxumba (risos). Aí cheguei no clube e um colega da base começou a me chamar de 'sapo'. No dia seguinte, minha garganta melhorou, mas o apelido ficou, né? Na hora fiquei bravo, mas depois passei a gostar, porque tem poucos apelidos no futebol hoje em dia", constatou.

TEMPOS DE PALMEIRAS

Pelo Santos, Victor Sapo foi campeão em torneios sub-13 e sub-14. Sua evolução, no entanto, foi atrapalhada quando ele contraiu dengue e teve que ficar três meses afastado do esporte. Ao retornar, acabou cortado do Peixe e não subiu para sub-15.

Na sequência, foi para o São Caetano e se destacou, voltando a ser observado pelo Santos e também pelo Palmeiras, que acabou lhe contratando.

"Em 2009, o Palmeiras e o Santos me queria, mas como eu tinha uma certa mágoa do Santos, acabei indo para o Palmeiras, em 2010. Inclusive, fui o artilheiro do time no Paulista sub-20 de 2011", lembra o artilheiro, com memória afiada - ele fez cinco gols na competição.

Na hora de subir para o profissional, porém, Victor acabou barrado por conta de uma briga feia entre o técnico Luiz Felipe Scolari e o grupo DIS - o então treinador chegou a falar em "agiotagem" e "roubo" quando o grupo orientou o atacante Vinícius, de quem também gerenciavam a carreira, a não aceitar uma proposta de 1,5 milhão de euros da Udinese.

"Era para eu ter subido para o profissional do Palmeiras, mas infelizmente o Felipão teve uma briga com o DIS e, como eu pertencia a eles, não aconteceu. Fiquei sem espaço por causa disso. Acabei emprestado ao River Plate de Sergipe e não deu certo, até porque eu era muito moleque", lamentou.

"Minha geração tinha Patrick Vieira, Caio Mancha, Renatinho, Luiz Gustavo, Nadson e outros caras... Ao todo, fiquei quatro anos no Palmeiras, atuando no sub-20 e no Palmeiras B. Depois, fui emprestado ao Nacional-SP por três anos, joguei a Série B e a Série A3 do Paulista com eles e me destaquei. Fui em seguida ao ABC de Natal, fomos campeões estaduais e conquistamos o acesso à Série B do Brasileiro", rememorou.

Na sequência, o atacante foi campeão paraibano pelo Botafogo-PB e passou por Itabaiana, Rio Claro, Juazeirense e Novo Horizonte antes de acertar com o Santo André, no início de 2019.

SANTO ANDRÉ E HAMBURGUERIA

Logo que chegou ao Ramalhão, Victor Sapo ajudou a equipe a ser campeã da Série A2 do Paulista, recolocando o clube na elite estadual.

"Nosso elenco foi montado com muitos jogadores desconhecidos e com salários baixos, por causa da situação financeira do Santo André. Mas nós nos transformamos num grupo forte porque brigamos juntos por todas as bolas. Com o tempo, o time foi se encaixando e terminamos campeões", celebrou.

Foi nesta mesma época que começou a surgir a ideia de empreender em um negócio próprio.

"Logo na fase final da Série A2, a tia da minha esposa arrumou um ponto para montar uma loja de bolos caseiros e doces, mas não virou. Ela me chamou para entrar em sociedade e nós tentamos. Reformamos o lugar e colocamos nossa ideia, que era uma hamburgueria", relatou.

"Assim que acabou a Série A2 e meu contrato se encerrou, recebi propostas de outros Estados para jogar futebol. Mas eu não queria ficar longe do negócio, porque tínhamos acabado de montar. Já tinha colocado na minha cabeça que não iria para longe, porque no ano que vem quero tentar jogar algum Estadual e tocar a hamburgueria", planejou.

"Passei três meses desempregado do futebol, até que fui chamado de volta pelo Santo André para jogar a Copa Paulista, quase de graça. Mas foi importante, porque continuo mantendo minha forma e o ritmo de jogo, ao mesmo tempo que dou assistência ao meu negócio", finalizou o atacante e "dublê" de atendente e garçom.