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Por que Solskjaer, técnico do Manchester United, ligou a TV para ver jogo do Osasco Audax?

Nesta quarta-feira, o Manchester United recebe o Barcelona, pelo jogo de ida das quartas da Uefa Champions League, às 16h (de Brasília), em Old Trafford.

E para conseguir um bom resultado em casa, os Red Devils se apoiam na mística do técnico Ole Gunnar Solskjaer, que, desde que assumiu a vaga de José Mourinho, tem números espetaculares: 21 jogos, 15 vitórias, 2 empates e 4 derrotas - um aproveitamento de 71,4%.

Seu ótimo desempenho, aliás, já lhe garantiu um contrato de três temporadas à frente do 3º clube mais rico do mundo.

Como jogador, Solskjaer fez história em Manchester, faturando 12 títulos pelo United, como seis Premier Leagues, uma Champions e um Mundial de Clubes, entre outros. Como treinador, porém, ele ainda dá seus passos iniciais, e ainda não é possível teorizar muito sobre seu estilo de jogo.

Por isso, a ESPN foi atrás de quem viu o norueguês "nascer" para o cargo de técnico, no Molde-NOR, entre 2010 e 2014. Dessa forma, encontramos o meia-atacante brasileiro Agnaldo, que passou pelas bases de Flamengo e Desportivo Brasil antes de partir para se aventurar na Europa.

Agnaldo foi emprestado pelo Desportivo Brasil ao Molde em 2012, no meio da gestão Solskjaer. Imediatamente, o brasileiro ficou impressionado com a receptividade do treinador, que o acolheu como se fossem amigos há anos.

"Um dia, ele me chamou para saber se eu estava gostando da Noruega, o que estava sentindo por estar distante do Brasil e perguntou se eu iria ficar mesmo no Molde, pois estava emprestado. Quando eu estava negociando minha transferência permanente, o Ole me chamou pra jantar na casa dele com toda a família, esposa, filhos, etc. Não foi nem para discutir valores, nem nada. Ele só queria que eu me sentisse em casa", contou o jogador de 25 anos, que atualmente defende o RoPS, da Finlândia.

"Ficamos batendo papo por horas. E esse carinho dele foi um dos pontos que pesou para que eu ficasse lá de vez. O Solskjaer sempre quis que eu me sentisse bem-vindo ao país dele desde o início, e não é qualquer treinador que faz isso. Ninguém te chama para jantar com a família toda assim, como se fosse algo natural", exaltou.

E a visita à casa da família de Solskjaer não parou por aí.

"Depois, fomos dar uma volta de barco, porque eles moravam perto do mar. Foi um dia sensacional, do começo ao fim. Acabou que nem falamos muito de futebol naquele dia, foi mais sobre a vida dele. Depois, em um outro jantar, nós conversamos sobre como seria o time, como ele queria que eu jogasse e tudo mais", recordou.

"Eu já tinha decidido que ia ficar no Molde desde nosso primeiro encontro, porque ele me fez sentir bem. Parecia que éramos amigos que se conheciam há anos. Esse esforço dele significou demais para mim, porque ele não precisava ter feito nada disso", afirmou.

"Mas já dava para ver que o Ole não queria ser apenas mais um treinador. Ele queria ser um manager, como foi o Alex Ferguson, que participava ativamente da vida do jogador, ia até buscar no aeroporto", ressaltou.

AMOR PELO FUTEBOL BRASILEIRO

De acordo com Agnaldo, Ole Gunnar Solskjaer tem verdadeira adoração pelo futebol brasileiro.

O norueuguês faz questão de acompanhar partidas disputadas no Brasil, inclusive de times que disputam categorias e divisões inferiores, tanto para estudar os jogos quando para observar possíveis reforços.

"Ele ama o futebol brasileiro, ainda mais quando há algum jogador em que ele está interessado. Ele sempre via partidas do Brasil, falava muito comigo sobre jogadores. Na casa dele, tinha uma TV com todos os canais, nos quais ele assistia Libertadores também, para estudar as novidades. Nessa TV tinha todos os canais que você pode imaginar, nunca vi algo igual (risos)", brincou.

Solskjaer chegou até mesmo a acompanhar partidas do pequeno Audax, de Osasco-SP, por causa de um atleta em que estava interessado.

"Eu lembro certinho que ele me falou várias vezes de um Patrick, do Audax. O Ole me falava: 'Agnaldo, esse Patrick é bom, fez isso, fez aquilo' (risos). Sempre que ele falava de futebol comigo, falava de um jeito diferente, por conta da paixão que o brasileiro tem pelo futebol. Foi o técnico que mais me deu moral até hoje", exaltou.

'ELE GOSTA DE TRAZER TODOS PARA PERTO DELE'

Agnaldo vê a maneira carinhosa como Solskjaer trata os jogadores como principal fator da reação do Manchester United na temporada.

Atletas que vinham muito abaixo com José Mourinho, como Romelu Lukaku, Paul Pogba e Marcus Rashford, por exemplo, viram seu futebol voltar a florescer após a contratação do norueguês, primeiro como interino, e agora como treinador principal.

"O Ole gosta de tratar todos muito bem. Ele viu que o Pogba estava um pouco perdido, querendo sair do clube, chegou nele e conversou olho no olho. Abraçou, brincou, acalmou o cara. Ele gosta de trazer os jogadores para perto dele. Não é do estilo dele aquela coisa de 'quem manda aqui sou eu'. Ele sempre fala que está lá para ajudar os jogadores, e que os atletas são as verdadeiras estrelas", contou.

"Na minha época no Molde, ele sempre perguntava aos jogadores no que ele podia melhorar. Não é um cara que quer só mandar. Ele pergunta muito, o tempo todo, várias vezes reúne a turma e pede opiniões. Claro que ele tem as ideias dele, mas acha bom perguntar e conversas antes, e não só mandar todo mundo fazer o que ele acha que é certo", completou.

O brasileiro também viu muitas mudanças no estilo de jogo dos Red Devils na transição entre Mourinho e Solskjaer.

"Se teve essa reação, foi por causa do Ole. Com algum outro técnico podia ter melhorado também, mas duvido que seria da água para o vinho como foi com ele", bradou.

"Ele sempre gostou do futebol ofensivo. Na Noruega, nós sempre jogamos sem dar chutão. Nossa equipe sempre tinha o camisa 10 clássico, que ele gostava que andasse com a bola. Nos treinos, trabalhávamos o um contra um e chutes de fora da área. Se alguém tocasse para trás, logo ele gritava: 'É para frente!'. Ficava p*** com recuadas, pois ele gosta de jogar para frente, desse estilo de jogo", relatou.

"Como ele foi atacante, gosta de ofensividade. No meu tempo no Molde, ele sempre estava procurando atacantes para reforçar o elenco. Quando ele passou pelo Cardiff, porém, ficou triste, porque não podia colocar a equipe para frente, devido às limitações do elenco. No entanto, a característica dele é essa, e creio que não vai mudar, independentemente do clube que ele estava dirigindo", salientou.

REGRAS DE COMPORTAMENTO

Agnaldo ainda conta que o treinador impõe algumas regras de comportamento ao plantel.

"Ele não deixava a gente descer do ônibus do time usando fones de ouvido, porque se alguma pessoa tenta falar com você, ele queria que você desse 'oi' e prestasse atenção no que a pessoa falou", rememorou.

"Celular ele deixava só usar antes do jogo também, depois tinha que colocar em modo avião, para que os atletas fossem incentivados a olhar a partida e conversar sobre ela. Acho que faz toda a diferença, porque você fica completamente focado no jogo", explicou.

"O Ole não era bravo, mas, se alguma regra era estabelecida, ele gostava que fosse cumprida à risca. Na questão do vestuário, por exemplo, ele exigia que todos os atletas estivessem vestidos de maneira igual, não tinha essa de cada um ficar usando uma roupa", exemplificou.

'DE CHINELO PARA COMER SALGADO OU CAVIAR'

O brasileiro também é só elogios à humildade e simplicidade de Solskjaer.

"Como treinador eu já o acho um cara fora do comum, mas o ser humano que ele é me impressiona ainda mais. Muitas coisas que ele passava no treino a gente via situação real no jogo. Mas ele é excepcional porque ganhou tudo no futebol, também faturou um bom dinheiro, mas é uma pessoa normal, parece que não tem nada", salientou.

"Ele conversa com qualquer pessoa normalmente, é muito simpático. É daquelas pessoas que jamais vai se achar melhor do que ninguém, sabe? Eu o via andando de chinelo na rua tanto para comer um salgado quanto caviar da mesma forma. E sempre faz questão de tratar todos de maneira igual e com respeito e cavalheirismo sempre", aplaudiu.

Durante os jogos do Molde, fossem dentro ou fora de casa, Ole Gunnar também era exaltado por todos os torcedores.

"Dentro da Noruega, ele é um dos maiores da história, se não for o maior. Em qualquer lugar que a gente fosse, logo formava uma fila de gente querendo tirar foto. Muitas vezes a torcida do time rival ia esperá-lo no aeroporto quando a gente ia jogar fora, acredita? Ele chamava mais a atenção que qualquer jogador", finalizou.