Pioneiros, recordes e artilheiros: o raio-x de como brasileiros fizeram da Premier League '2ª casa' na Europa

Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Pois duvido que alguém lendo este texto tenha, na ponta da língua, a primeira vez que um brasileiro atuou na Premier League, campeonato que o planeta aplaude de pé hoje em dia, mas que foi, em um passado nem tão distante assim, um terreno inóspito para jogadores nascidos no país pentacampeão mundial.

Era 23 de agosto de 1995 quando a história do Brasil na nova liga da Inglaterra, inaugurada três anos antes, começou a ser escrita. Isaías, atacante de 32 anos que tinha feito sucesso pelo Benfica, abriu as portas da Premier League fardado com a camisa 8 do Coventry City, um modesto time da parte central do país que enfrentaria naquela tarde de quarta-feira, sem chuva, o pobre Manchester City – muito distante do poderoso campeão de tudo de hoje em dia.

Isaías quase anotou um belo gol de fora da área, em chute que passou raspando a trave direita do City, mas no fim não contribuiu efetivamente para a vitória do Coventry por 2 a 1, diante de 16,5 mil pessoas no Highfield Road, estádio demolido em 2006. Seu primeiro gol saiu uma semana depois, no empate em 2 a 2 com o Chelsea. Eram outros tempos, aqueles em que brasileiro atuando na Terra da Rainha soava até estranho.

Isso passou. Pela porta que Isaías abriu, e os renomados Juninho Paulista e Branco ajudaram a escancarar ainda na temporada 1995/96, dezenas de brasileiros entraram. Uma porção virou lenda, vários guardaram lembranças saborosas e diversos saíram sem saudade alguma. Mas todos, é verdade, fizeram da Inglaterra o lugar mais cobiçado para quem atua no exterior.

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No ano passado, nada menos do que 35 brasileiros, já excluindo os naturalizados, dividiram os tapetes da Premier League e fizeram do país o mais representado da liga – sem contar, óbvio, a própria Inglaterra.

Um recorde que a atual edição, que começa nesta sexta-feira (11) com a transmissão do primeiro dos 380 jogos ao vivo pela ESPN no Star+, deve ficar perto de bater. E, mesmo se o recorde não for superado, pouco importa.

Entre as principais competições da Europa, a Premier League só perde para Portugal no contingente de brasileiros (106 a 33 em números atualizados e que podem sofrer mudanças no restinho da janela de transferências).

Ligas como as de Espanha, Itália, França e Alemanha, que se abriram bem antes a talentos do Brasil, já ficaram para trás há tempos.

Isso é espantoso se voltarmos os olhos para aquele agosto de 1995. Quando Isaías estreou pelo Coventry, a dupla do tetra Bebeto e Romário já havia empilhado gols em LaLiga. Raí, ídolo do São Paulo, era o 10 do Paris Saint-Germain, onde atuou com Ricardo Gomes, Valdo e Leonardo. A Itália já estava aos pés de Aldair, sem contar Taffarel e André Cruz, e até a Alemanha, com o sucesso de Dunga, Jorginho e Elber, adorava um brasileiro.

A fronteira da Inglaterra foi sendo quebrada aos poucos, e por clubes que há tempos figuram bem longe da badalada Premier League de hoje. O Coventry de Isaías, por exemplo, caiu em 2000/01 para nunca mais voltar. Já o Middlesbrough, clube que apostou em Juninho e manteve a relação com o Brasil ao contratar depois Branco, Doriva, Emerson e Fábio Rochemback, está longe da elite desde 2017, quando foi rebaixado com a segunda pior campanha.

Se as equipes menores foram as pioneiras da história do Brasil com o futebol inglês, o grupo dos grandes aprendeu aos poucos que precisava entrar neste bonde. Quem tomou a iniciativa foi o Arsenal, que, em junho de 1999, pagou 4 milhões de libras, o equivalente a R$ 10 milhões à época, para tirar o lateral-esquerdo Silvinho (com I mesmo, antes de adotar o Y) do Corinthians.

"É essencial que continuemos a adicionar jogadores de qualidade ao nosso elenco. Silvinho é um defensor experiente, que tem grande habilidade e vai oferecer profundidade ao nosso elenco para os desafios que a próxima temporada promete", anunciou Arsène Wenger, técnico dos Gunners que sempre ostentou e comprovou a fama de visionário.

Wenger começou, os outros foram atrás. Seis meses depois, o Chelsea buscou o zagueiro Emerson Thomé, do Sheffield United, pela soma de 2,7 milhões de libras. Anos se passaram até que em 2003 o Manchester United, grande clube da Inglaterra na época, decidiu apostar pela primeira vez em um jogador brasileiro. O escolhido foi Kleberson, volante da seleção campeã do mundo em 2002 e que não viveu momentos tão bons em Old Trafford.

"A minha comunicação com o (Alex) Ferguson era bem complicada no começo. Ainda bem que o clube ajudava. Eles faziam o que podiam, disponibilizaram casa, carro, escola, médico e intérprete", lembrou o hoje ex-jogador, apresentado pelo United ao lado de um tal Cristiano Ronaldo, em entrevista ao ESPN.com.br em 2019. "Eu tive muitas chances, mas não tive sequência, por conta de lesões. Além disso, a concorrência no meu setor era muito grande. Isso me dificultou".

No primeiro ano de Kleberson, o campeão foi o Arsenal, já sem Silvinho, mas com Gilberto Silva e Edu revezando-se no meio-campo dos Invencibles, máquina de jogar bola montada por Wenger e até hoje a única equipe a conquistar a Premier League sem perder um jogo sequer. O futebol brasileiro já tinha conseguido entrar, mas não possuía um espaço de destaque, a ponto de só cinco dos 20 clubes da liga contarem com atletas do país.

Realidade que hoje está é invertida. Na temporada que está prestes a começar, 16 equipes largam com ao menos brasileiro em seus elencos, exceções feitas a Luton Town, Sheffield United, Brentford e Everton. Dos demais, destaque para Arsenal e Fulham, times mais verde e amarelo, com quatro representantes: o meia Andreas Pereira e os atacantes Willian, Rodrigo Muniz e Carlos Vinícius em Craven Cottage, mais Gabriel Magalhães, Gabriel Jesus, Gabriel Martinelli e Marquinhos no Emirates Stadium.

"Sou suspeito a falar, mas aqui é especial. É a melhor liga do mundo", babou Willian, de contrato renovado com o Fulham até 2024, em entrevista à edição de julho da revista Placar. "Aprendi a amar esse país e é aqui que quero viver depois de me aposentar", completou o atacante, que se sente tão em casa na Inglaterra, sobretudo Londres, que completou até o processo de cidadania britânica.

Willian é um dos representantes da etapa mais recente da "invasão brasileira" na Premier League. Da mesma geração de craques do quilate de Fernandinho e Philippe Coutinho, o atacante se tornou, assim como os outros dois, uma estrela no país, por mais que, aí sim ao contrário dos amigos, tenha atuado em mais de um clube.

Comprado pelo Chelsea, depois de um chapéu sobre o Tottenham que virou história na Inglaterra, Willian fez imenso sucesso em Stamford Bridge ao longo de sete temporadas. Topou o desafio de atuar em um rival e mudou-se para o Arsenal em 2020, mas passou apenas um ano no Emirates antes de retornar ao Brasil, para uma breve passagem pelo Corinthians. Agora, depois de se desiludir com a violência no país-natal, vai para sua segunda campanha no Fulham.

Não à toa, é dele o recorde de jogos entre os brasileiros da Premier League, com 286 atuações, seguido por três que já não estão mais no país (Fernandinho, Roberto Firmino e Lucas Leiva). O único que o ameaça, ainda que de longe, é Ederson, o representante brasileiro no Manchester City, campeão em cinco das últimas seis temporadas e atual vencedor da Uefa Champions League, numa época bem diferente daquele agosto de 1995 em Coventry.

Por falar em Firmino, é ele quem lidera outras duas estatísticas bastante relevantes. O camisa 9 é quem mais gols fez entre os muitos brasileiros que passaram pelo Campeonato Inglês e também é o líder de assistências, uma prova do sucesso absurdo que atingiu com a camisa do Liverpool, onde chegou em 2015, atuou por oito anos e decidiu sair ao fim da temporada passada para viver novas experiências no mundo da bola.

Com a 9 de uma das camisas mais pesadas da Inglaterra, Firmino marcou época não pelo instinto goleador, embora a artilharia entre os brasileiros seja uma prova irrefutável, mas pela inteligência com que flutuava pela área e abria caminho para Mohamed Salah e Sadio Mané, no trio histórico que jamais sairá das lembranças de Anfield. Tamanha elegância rendeu suspiros de quem o viu de perto.

"Bobby, meu Deus, como eu amo esse cara!", falou Jürgen Klopp, em discurso durante a despedida do atacante. "Nos treinos, você era sempre o jogador que pegava primeiro o exercício. Você assiste uma vez e, ok, vamos lá. Isso te faz o jogador especial que você, com um cérebro incrível".

Firmino, com toda sua qualidade, é uma das baixas da trupe brasileira da Premier League. Assim como Fabinho, volante que seguiu o companheiro em busca da independência financeira na Arábia Saudita, e Lucas Moura, de volta ao São Paulo por empréstimo após muitos anos com a camisa do Tottenham. Mas há também o sentido contrário, de novidades aparecendo. É o caso do zagueiro Igor Júlio, novo contratado do Brighton, e também de Matheus França, que faz o Crystal Palace ter um brasileiro de novo após quatro anos.

Isso só comprova que a história dos pentacampeões na terra que inventou o esporte está longe de acabar. Ederson continua atrás de troféus após a Tríplice Coroa com o Manchester City, que será desafiado de perto pelo Arsenal e seu trio de Gabrieis (entre eles Jesus, o provável sucessor de Firmino na tabela dos artilheiros) e também pelo Liverpool, novamente com Alisson no gol e repaginado após um ano de insucesso.

Casemiro e Antony seguem como intocáveis no elenco do Manchester United, de volta à Uefa Champions League, onde o Chelsea de Thiago Silva – e possivelmente Andrey Santos – e o Tottenham com Emerson Royal e Richarlison almejam estar na próxima temporada. Isso sem contar o Newcastle de Bruno Guimarães e Joelinton, o West Ham de Lucas Paquetá, o Nottingham Forest de Danilo, o Aston Villa liderado por Douglas Luiz e companhia, João Gomes no Wolverhampton...

Hoje, dá para dizer que quem prova o tempero do jogador brasileiro na Inglaterra não abandona mais a receita. Se o que Isaías fez em 1995 foi histórico, e como, a trajetória verde e amarela é mais um caso de extremo sucesso dentro do campeonato mais exitoso do mundo. Palmas a quem apostou lá atrás que isso daria certo, a quem segue abrindo portas e aos que, cedo ou tarde, farão parte dessa bela história.

Veja todos os brasileiros da Premier League:

  1. Alisson - goleiro do Liverpool

  2. Andreas Pereira - meia do Fulham

  3. Andrey Santos - volante do Chelsea

  4. Antony - atacante do Manchester United

  5. Bruno Guimarães - volante do Newcastle

  6. Carlos Vinicius - atacante do Fulham

  7. Casemiro - volante do Manchester United

  8. Danilo - volante do Nottingham Forest

  9. Diego Carlos - zagueiro do Aston Villa

  10. Douglas Luiz - volante do Aston Villa

  11. Ederson - goleiro do Manchester City

  12. Emerson Royal - lateral do Tottenham

  13. Felipe - zagueiro do Nottingham Forest

  14. Fred - volante do Manchester United

  15. Gabriel Jesus - atacante do Arsenal

  16. Gabriel Magalhães - zagueiro do Arsenal

  17. Gabriel Martinelli - atacante do Arsenal

  18. Gustavo Scarpa - meia do Nottingham Forest

  19. Igor Julio - zagueiro do Brighton

  20. João Gomes - volante do Wolverhampton

  21. João Pedro - atacante do Brighton

  22. Joelinton - volante do Newcastle

  23. Lucas Paquetá - meia do West Ham

  24. Marquinhos - atacante do Arsenal

  25. Matheus Cunha - atacante do Wolverhampton

  26. Matheus França - atacante do Crystal Palace

  27. Neto - goleiro do Bournemouth

  28. Philippe Coutinho - atacante do Aston Villa

  29. Richarlison - atacante do Tottenham

  30. Rodrigo Muniz - atacante do Fulham

  31. Thiago Silva - zagueiro do Chelsea

  32. Vitinho - lateral do Burnley

  33. Willian - atacante do Fulham