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Abuso na infância, drogas e clínica de reabilitação: Dele Alli abre o jogo e revela dramas que atrapalharam vida e carreira

O meio-campista Dele Alli, agora no Everton (ING) durante entrevista ao ex-jogador Gary Neville no canal de Youtube 'The Overlap' Reprodução/Youtube @TheOverlap | Michael Regan - UEFA/UEFA via Getty Images)

Dele Alli, meio-campista do Everton, revelou nesta quinta-feira (13) que passou seis semanas em uma clínica de reabilitação nos Estados Unidos para tratamento de vícios, saúde mental e traumas.

Em uma entrevista reveladora ao The Overlap, canal no YouTube do ex-jogador Gary Neville, o atleta contou pela primeira vez que se tornou viciado em remédios para dormir como uma forma de lidar com traumas de sua infância.

Dele Alli afirmou ter sido abusado sexualmente com apenas seis anos de idade por um amigo da família.

O meia voltou ao Everton depois de passar a última temporada emprestado ao Besiktas, da Turquia, onde disputou 15 partidas.

No entanto, ao saber que precisaria passar por outra cirurgia, Alli revelou que se viu diante de um novo ciclo negativo começando, e decidiu procurar ajuda.

“Acho que com coisas assim [uma internação], ninguém pode dizer para você ir até lá. Acho que você tem que saber [que precisa] e tem que tomar a decisão sozinho, caso contrário não vai funcionar. Para ser honesto, fiquei preso em um ciclo ruim. Estava preso em coisas que estavam me fazendo mal”, disse Alli.

“Acordava todos os dias e estava ganhando a luta, indo aos treinos, sorrindo, mostrando que estava feliz. Então me disseram que eu precisava de cirurgia, pude sentir aquela sensação de quando um ciclo ruim está para começar. Não queria que isso acontecesse mais”.

O atleta de 27 anos disse que deixou as instalações há três semanas, acrescentando que está compartilhando sua história agora para ajudar outras pessoas.

“Quero ajudar outras pessoas a saberem que não estão sozinhas nos seus sentimentos, que você pode conversar com as pessoas. Buscar ajuda não ter torna fraco ou vulnerável. Estou feliz em poder compartilhar minha história”.

Alli detalhou os traumas que viveu durante a infância, que incluem ter sido abusado aos seis anos por uma amiga de sua mãe, o começo do contato com o cigarro aos sete e a venda de drogas aos oito anos. Segundo o jogador, isso aconteceu antes de ser adotado por uma família “incrível e solidária” aos 11 anos.

“Quer dizer [meus problemas] acontecem há muito tempo. E sem que eu percebesse as coisas que estava fazendo para entorpecer os sentimentos que eu tinha”.

“Eu não sabia que estava fazendo com esse propósito, seja beber ou qualquer outra coisa. As coisas que muitas pessoas fazem, na verdade não estão fazendo por prazer, mas para tentar atingir algo e esconder alguma coisa. Obviamente pode te prejudicar muito”.

Dele Alli disse que escondeu seu vício de sua família adotiva e de companheiros que tentaram ajudar, e que considerou se aposentar do futebol profissional aos 24 anos.

“É difícil apontar um momento exato [quando comecei a sentir que as coisas não estavam bem]. Provavelmente o momento mais triste para mim, foi quando [José] Mourinho era treinador, acho que tinha 24 anos. Lembro que teve uma manhã em que acordei e precisava ir treinar. Foi quando ele parou de me colocar para jogar. Eu estava em um momento ruim”.

“Parece dramático, mas lembro de estar literalmente olhando no espelho e me perguntando se poderia me aposentar ali, aos 24 anos, fazendo o que amo. Partiu meu coração considerar me aposentar aos 24 anos. Isso me machucou muito, foi outra coisa que eu tive que carregar”.

Alli se destacou na Premier League defendendo o Tottenham, tornando-se parte crucial da equipe de Mauricio Pochettino que chegou à final da Champions League de 2019. O jogador ainda fez parte da seleção da Inglaterra na disputa da Copa do Mundo de 2018, na Rússia.

No entanto, ele sofreu um declínio acentuado. O meia caiu em desgraça no Spurs e se mudou para o Everton em janeiro de 2022, mas fez apenas 13 jogos na Premier League pelo clube.

Ele disse que agora está pronto para lutar por uma vaga na equipe de Sean Dyche nesta temporada, e garantiu está mentalmente “melhor do que nunca esteve”.

“Tenho orgulho de quem sou hoje e não culpo ninguém. Agradeço a muita gente”, acrescentou Alli.

“Agradeço a muitas pessoas pelos momentos difíceis que criaram para mim, porque acho que isso me tornou uma pessoa mais forte, mais corajoso e me permitiu superar desafios que, se tivessem sido criados por mim, talvez eu não fosse capaz de lidar.

“Tenho muitas pessoas a quem agradecer porque me ajudaram a me dar a fome e a paixão para continuar e continuar lutando e provar que estavam errados”.

“Acho que o principal para mim é que quero provar que estou certo, porque sei o quão bom posso ser como jogador e como pessoa. É importante para mim esta batalha contra mim mesmo. Eu estava certo sobre todas essas coisas”.

Vários jogadores enviaram mensagens de apoio a Dele Alli durante as declarações, incluindo Harry Kane, capitão do Tottenham e da seleção da Inglaterra.