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'Estavam condenados': como o Manchester City caiu para a 3ª divisão há 25 anos e se salvou de fechar as portas graças a um milagre

Talvez nem o mais otimista torcedor do Manchester City poderia sonhar há 25 anos que o clube um dia viraria uma das maiores potências da Europa e disputaria pela 2ª vez a final da Champions League. A equipe de Pep Guardiola enfrenta a Inter de Milão, neste sábado (10), em Istambul, na busca pelo primeiro título europeu.

Em maio de 1998, os Citizens alcançaram o ponto mais baixo de sua centenária história ao serem rebaixado para a 3ª divisão inglesa pela 1ª e única vez. Após cair na Premier League em 1996, o clube ficou quase o tempo todo na parte inferior da tabela da Championship durante a temporada 1997/98.

Então repórter freelancer, que participava à época da cobertura do "primo pobre de Manchester", Mark Ogden conta que o cenário caótico gerou a queda para a League One.

"O City havia virado uma espécie de piada na Inglaterra. Nada do que o clube fazia dava certo, e, para piorar, o United, rival da cidade, ainda era o time mais forte do país. Então, os rebaixamentos foram uma conjuntura de décadas de administrações ruins. O clube todo era uma bagunça, e todos tinham perfeita noção de que estavam indo para o caminho totalmente errado", disse o hoje repórter da ESPN na Inglaterra.

A crise era tão grande que o clube teve seis técnicos diferentes em apenas dois anos, o que deixou o elenco muito inchado, com aproximadamente 46 jogadores.

"Não contribuiu para um grande espírito de equipe. Não foi saudável", recordou Jamie Pollock, capitão do City no triste dia do rebaixamento, ao jornal Daily Mail.

Os Citizens chegaram à última rodada da Segundona na zona da degola, mas ainda com chances de salvação milagrosa: precisavam derrotar fora de casa o quase rebaixado Stoke City e torcer para que Portsmouth e Port Vale não vencessem seus jogos.

Um clima de tensão tomou conta do Britannia Stadium. Muitos torcedores viajaram de Manchester para o jogo fora de casa e brigaram com os fãs locais. A partida, que foi interrompida por duas vezes, teve invasão de campo e muitas confusões.

De acordo com o jornal Stoke Sentinel, cerca de 300 apoiadores do City foram expulsos do local.

"Houve 15 prisões - duas antes do jogo, 10 durante e três após o apito final", reportou o periódico.

O City fez uma grande partida e venceu por 5 a 2 o Stoke, que caiu. O problema é que os outros resultados não ajudaram, pois Portsmouth e Port Vale venceram seus respectivos jogos. A queda celeste para a 3ª divisão veio por apenas um ponto.

"Stoke e Manchester são separadas por apenas 45 minutos, então sempre houve rivalidade entre as torcidas e violência nessas ocasiões. Com o rebaixamento duplo daquele dia, você junta a frustração dos torcedores do City com a frustração da torcida do Stoke... Foi um dia muito ruim", lembrou Ogden.

Fundo do poço

Os torcedores azuis, que lotaram o Maine Road na reta final da Championship, começaram a perder a paciência na 3ª divisão. Era esperado que o acesso fosse conquistado com facilidade, mas a primeira parte do torneio foi desastrosa.

O clima era tão ruim que o elenco nem aquecia em campo, de tantas vaias da torcida no antigo estádio do City. Com exceção do goleiro Nicky Weaver, os jogadores se trocavam no vestiário, entravam no ônibus e iam até o centro de treinamento, que ficava a cinco minutos de distância. Eles só voltavam em cima da hora do jogo.

Ogden conta que ouviu uma história curiosa de Bernard Halford, antigo presidente do City, falecido em 2019, que trabalhava na diretoria do clube à época.

"O time foi jogar na época do Natal e perdeu para o York City, que foi rebaixado naquela temporada. O Bernard me disse que esse foi o fundo do poço da história do City. Eles estavam em 12º lugar na 3ª divisão e não havia qualquer promessa de que as coisas iam melhorar e o clube ia subir", rememorou.

"Após a derrota para o York, os dirigentes estavam na tribuna do estádio e ouviram um coral do 'Exército da Salvação' cantando canções natalinas, e todos começaram a dar risadas por causa da ironia", brincou.

O "Exército da Salvação" é uma instituição de caridade que ajuda pessoas sem-teto e em condição de extrema pobreza. Algo parecido com o que os Citizens viviam na época...

"Os dirigentes acharam que o City estava condenado a fechar as portas", ressaltou o jornalista.

No entanto, o clube celeste conseguiu uma reviravolta digna dos filmes de Natal.

Com uma arrancada na segunda parte do torneio, a equipe chegou ao jogo que valia o acesso pelos playoffs, em Wembley. Após sair atrás no placar por 2 a 0 para o Gillingham, empatou de forma dramática - com dois gols nos acréscimos - e venceu na disputa por pênaltis.

"Isso aconteceu quatro dias depois do Manchester United vencer a 'Tríplice Coroa' ganhando do Bayern de Munique na final da Champions, em Barcelona, com dois gols nos acréscimos. O United tinha feito um milagre no Camp Nou, e, quatro dias depois, o City fez outro em Wembley", comparou Ogden.

"E, para falar a verdade, se o City não tivesse conseguido subir naquela temporada, o clube poderia ter fechado as portas, porque eles precisavam muito se estabilizar financeiramente para conseguir assumir o City of Manchester Stadium, que hoje se chama Etihad Stadium, que havia sido construído para os Jogos da Comunidade Britânica. Então, o acesso foi algo importantíssimo. Não tinha como o time sobreviver se ficasse mais uma temporada na League One", complementou o jornalista da ESPN.

Anos depois, o clube de Manchester voltou à Premier League e sofreu mais um rebaixamento para a Championship antes de se firmar na elite inglesa com campanhas medianas e uma estrutura bem diferente da atual.

"Ao lado do campo do nosso CT, o pessoal ficava jogando rugby, e tinha até uns cavalos pastando, porque era tudo aberto (risos). Em volta era um alambrado aberto. Dava para enxergar tudo do lado de fora", recordou o ex-meia Elano, em entrevista à ESPN.

O brasileiro, que chegou à equipe azul de Manchester em 2007, foi protagonista de uma das poucas alegrias que os torcedores tiveram naquele período: as duas vitórias sobre o United pela temporada 2007/08, que acabou com um longe jejum no dérbi.

"Hoje, o poderio financeiro e estrutural do City é muito diferente de quando eu cheguei. Na minha época já era bom, mas a qualidade do elenco e tudo no time mudaram para melhor", disse o ex-meia.

O City ainda viveu outra grave crise financeira, quando Thaksin Shinawatra, dono do clube e então primeiro-ministro da Tailândia, teve seus ativos congelados.

Novo rico

A história começou a mudar em setembro de 2008, quando o time de Manchester foi adquirido por uma holding dos Emirados Árabes - controlada por Mansour bin Zayed Al Nahyan - e passou a investir pesado em reforços.

O atacante Jô, que estava no clube desde o meio daquele ano, lembra que os novos donos chegaram com muita ambição ao City.

"O Sheik Mansour disse que o projeto era grandioso e que iria transformar o clube em uma das maiores potências do mundo. Foi uma evolução muito grande", lembrou o brasileiro, que venceu a FA Cup de 2011, à ESPN.

Aos poucos, o City subiu de patamar dentro da Inglaterra até cumprir a promessa dos donos.

Desde então, foram sete títulos de Premier League, dois de Copa da Inglaterra e seis de Copa da Liga Inglesa. Além disso, contratou o badalado técnico Pep Guardiola e trouxe jogadores caríssimos.

"Acho que a mentalidade é sempre vencedora, de todo mundo que está dentro desse processo, é sempre fazer o melhor diariamente. O projeto em si é grandioso por conta disso: todo mundo se preocupa nos mínimos detalhes para que o jogador desempenhe o seu papel dentro de campo da melhor maneira possível. Parece clichê, mas na prática era assim que acontecia", disse o volante Fernandinho, que jogou entre 2013 e 2022 no clube e foi capitão com o técnico Pep Guardiola, à ESPN.

Apesar do enorme sucesso, parece que nem todas as mudanças foram aceitas por alguns fãs que viveram a época das "vacas magras".

"Muitos torcedores que conheço até hoje e que estavam nos jogos dos anos 90 contra equipes como York City, Macclesfield, Lincoln City, naqueles estádios velhos... Eles meio que sentem falta daqueles dias. Um amigo torcedor do City me disse que nem sabe o que vai pensar se o clube ganhar a Champions League", relatou Mark Ogden.

"A verdade é que os torcedores de times como Liverpool e United nunca estão satisfeitos de verdade. Eles ganham a Champions e querem ganhar de novo no ano seguinte. Os fãs do City só querem ganhar uma Champions. Eles só querem ganhar o que nunca passaram perto de conquistar há alguns anos", salientou.

"A torcida do City meio que não acredita que eles estão vivendo o que está acontecendo hoje, porque o time deles sempre foi conhecido por fazer tudo errado e que sequer era um dos times mais tradicionais da Inglaterra. Até era uma equipe grande, mas não histórica e com a tradição de Liverpool, United, Arsenal, até do Everton. Era um clube que, antes do Sheik Mansour, tinha vencido duas vezes a liga em 100 anos", observou.

"Não era um time de muitos troféus. Agora, os fãs têm um armário cheio de taças dos últimos anos, mas não sabem muito bem como se comportar ou comemorar isso. Então, eles estão à beira da 'Tríplice Coroa', mas ainda têm nostalgia dos dias em que o City era um lixo. Para mim, isso é muito estranho", finalizou Ogden.