Força dominante do futebol francês no início do século, o Lyon vem fazendo boa campanha na Ligue 1 2020/21 e disputa o título ponto a ponto com Lille e PSG. Um dos grandes nomes da boa campanha da equipe tricolor é o do meia Houssem Aouar, de 22 anos, que soma 6 gols e 4 assistências em 26 partidas pela equipe na atual temporada.
Principal destaque da ótima participação dos Gonnes na última Champions, o jovem atleta, de 22 anos, é um dos nomes mais cobiçados do futebol europeu no momento. Avaliado em 50 milhões de euros (R$ 333 milhões) pelo site especializado Transfermarkt, ele já foi "caçado" pelo Arsenal na última janela de transferências, mas acabou ficando na França.
Antes de se tornar titular absoluto do OL, porém, Aouar teve que levar um belo "puxão de orelha" de um treinador brasileiro para endireitar o rumo de sua carreira, já que era visto como pouco esforçado nos treinamentos.
Trata-se do ex-zagueiro Cris, que jogou por clubes como Corinthians, Cruzeiro, Vasco e Grêmio na carreira, além de ter representado a seleção brasileira e ser um dos maiores ídolos da história do próprio Lyon.
Atualmente trabalhando como técnico do GOAL FC, vice-líder do grupo C da Championnat National 2 (a 4ª divisão francesa), Cris concedeu entrevista ao ESPN.com.br e relembrou o trabalho que teve que fazer para mudar a mentalidade do meio-campista
"Eu trabalhei com o Aouar no time sub-19 e depois no time B do Lyon. Foi um jogador que pude acompanhar todo o processo final de maturação na base até a profissionalização. Desde sempre eu via muito talento nele, foi um atleta muito interessante de trabalhar junto", lembrou o ex-defensor.
"Aouar sempre teve talento desde pequeno, e hoje é um jogador mais maduro. Agora é que ele está entendendo melhor algumas coisas, pois ele é um atleta muito talentoso, mas que, por bastante tempo, só teve isso na cabeça dele", ressaltou.
"Ele achava que não precisaria fazer nenhum esforço em campo, porque poderia sempre decidir com o talento dele. E o meu trabalho com ele foi justamente esse: mostrar que talento é, sim, importante, mas que, no futebol moderno, você tem que fazer um esforço a mais em prol do coletivo", explicou.
Cris relata que o garoto francês de origem argelina ouviu atentamente suas broncas e foi melhorando cada vez mais até se tornar um dos grandes nomes do Lyon com o passar dos anos.
"O Aouar melhorou muito com o tempo, como todos podem ver. Na última Champions e nessa atual temporada ele já mostrou que está mais maduro e pronto para assumir um papel de líder, ou até mesmo de já atuar em algum grande clube da Europa", opinou.
"Ele sempre decidiu os jogos desde os tempos da base e do time B, mas não trabalhava muito duro. Isso a gente teve que mudar nele. Dentro de campo, porém, é um meio-campista diferenciado, como ele demonstra a cada partida", complementou.
O ex-zagueiro da seleção brasileira ainda destaca que, com o passar dos anos, Aouar foi mudando de posição no campo até achar o espaço em que se sente mais confortável.
"No Lyon atual, ele joga mais do lado esquerdo no esquema com três atacantes. Antes, era um ponta-esquerda que entrava com o pé direito. Mas ele gosta mesmo é de jogar como meia-armador, que comanda o meio-campo e ajuda a organizar", afirmou Cris, destacando também o papel importante que Juninho Pernambucano, atual diretor de futebol do Lyon, teve na maturação de Aouar.
"O Juninho sempre conversa muito com ele. Na minha visão, o Aouar melhorou muito depois da chegada do Juninho ao clube e das orientações que ele recebeu dele. Afinal, o Juninho é um dos maiores ídolos e um dos nomes mais respeitados da história do Lyon", salientou.
A CARREIRA DE TÉCNICO
Cris conta que tomou gosto pela ideia de ser técnico já na reta final de sua carreira.
"Quando eu estava nos últimso anos da minha passagem pelo Lyon, em 2010 ou 2011, comecei a pensar nisso. Parei de jogar em 2013, pelo Vasco. Como eu tive vários treinadores de alto nível na carreira, como Felipão, Vanderlei Luxemburgo e Gérard Houllier, foi algo que me incentivou. Eu já gostava de analisar os jogos, veu meus scouts e vídeos das partidas", relatou.
O Lyon, time pelo qual ele foi tetracampeão da Ligue 1 (entre outras taças) foi quem lhe abriu as portas para começar.
"Eu vim para a França em 2014 passar férias e surgiu a chance de fazer o curso de licença B da Uefa. Comecei a fazer e depois fui treinador do sub-15, do sub-17 e do sub-19 do Lyon. Acabei sendo promovido em seguida para a equipe reserva, que é como o time de aspirantes no Brasil", recordou.
"Depois, fiz o curso de licença A da Uefa e agora estou tirando o Uefa Pro, que é para poder treinar em qualquer país que eu quiser depois", acrescentou.
No comando do GOAL FC desde 2019, Cris vem sofrendo com as dificuldades impostas pela pandemia de COVID-19 no futebol francês.
"A gente disputa a 4ª divisão da França. Ao mesmo tempo que eu treino o clube, estou tirando meu diploma de técnico da Uefa. Faltam três meses para terminar", contou.
"Estamos brigando pelo acesso à 3ª divisão, mas o formato do campeonato mudou e termos jogos a menos por causa do coronavírus, já que o campeonato foi suspenso", seguiu.
"As três primeiras divisões da França são profissionais, e não pararam, mas a 4ª divisão é semi-profissional, então ela parou. Os atletas têm contratos semiprofissionais, ou seja, muitos têm outras atividades além do futebol. Vários clubes treinam de noite, porque os jogadores trabalham na parte da manhã e da tarde", explicou.
Buscando o acesso com o GOAL FC, o brasileiro diz ainda não saber quais serão seus próximos passos como treinador.
"Meu objetivo é ser técnico de time profissional. Se isso será na França ou em outro país, ainda está em aberto para mim", ressaltou.
"Minha vida sempre foi uma etenra mudança. Sempre viajei muito e conheci vários países. Eu e minha família estamos sempre prontos para outras mudanças. A vida de jogador e de treinador é feita disso, não tem jeito", finalizou.
