Eu tirei uma semana de folga e fui para Recife ver a final da Conmebol Libertadores com meus pais e irmãos pela televisão. Quando vi o gol do Breno Lopes, passou um filme na minha cabeça. Há quase nove anos era eu quem estava lá sendo o herói do título da Copa do Brasil de 2012. Foi uma história muito parecida, porque foi um gol de cabeça feito por um jogador improvável. Se fizessem uma pesquisa sobre quem faria o gol do título, ninguém votaria nele.
Ele também chegou ao Palmeiras poucos meses antes da final como um desconhecido, assim como eu cheguei. Ele ficará marcado na história do clube e será lembrado por toda a vida por esse gol, como eu sou até hoje!
Alguns jogadores passam a vida em um clube e não fazem gols assim. Breno e eu conseguimos isso. Quando falarem dos títulos, terão que falar da gente. O Breno foi iluminado, é um moleque guerreiro e batalhador. Ele ainda dará muitos frutos aos Palmeiras.
*
Comecei a carreira na base do Náutico e me profissionalizei com apenas 16 anos. Depois, passei por Gil Vicente-POR, Marília, São Caetano, Fortaleza e Coritiba, até chegar ao Vila Nova-GO, em 2011. Marquei muitos gols por lá, mas tinha problemas extracampo.
Assim que joguei o Paulistão pelo São Caetano, eu tinha uma proposta da Arábia Saudita, Mas aí chegou uma oferta do Palmeiras. Era um contrato curto, mas falei com meu empresário: "Vamos aceitar esse desafio e ver no que vai dar. Depois, resolveremos as nossas vidas".
Foi a melhor coisa que poderia ter feito.
Teve um episódio engraçado assim que cheguei ao Palmeiras. O Felipão me falou: "Você já era para estar aqui desde o ano passado, mas queria quebrar Goiânia em dois pedaços (risos)". Eu estava saindo muito à noite, mas em 2012 dei uma melhorada na cabeça e fui ao Palmeiras.
Era um garoto em um clube muito grande e havia bastante desconfiança. A torcida esperava um jogador de renome, mas chegou o Betinho que ninguém conhecia (risos). Pouco tempo depois estreei, mas já tive muita personalidade para ajudar ao time.
No primeiro jogo da final da Copa do Brasil contra o Coritiba, em casa, eu iria ficar no banco de reservas, mas o Barcos teve uma apendicite de última hora. Lembro que o Felipão avisou que eu iria jogar. Foi uma perda muito grande para a equipe, mas deu tudo certo. Fiz uma bela partida e até sofri pênalti, que saiu o gol do Valdívia.
Na partida de volta, eu já fui mais preparado. A gente sempre treinava muito as jogadas de faltas e escanteios, porque o Marcos Assunção era um excelente cobrador. Eu percebi que naquele jogo o Marcos estava cobrando todas as faltas no primeiro pau. Eu me posicionei lá para desviar a bola, e deu certo.
Quando eu fiz o gol na hora do jogo, não percebi o tamanho do que tinha acontecido. Foi só depois de uma semana das comemorações é que a ficha foi caindo. Eu passei a receber um carinho muito grande dos palmeirenses nas ruas.
Já fiz muito gols e ganhei vários títulos, mas esse foi o principal. Quando você é criança, sonha em ser profissional e não sabe onde vai chegar.
*
Saí do Palmeiras no ano seguinte e passei por Avaí, Santa Cruz e Paysandu, antes de ter uma queda na minha carreira por causa de problemas familiares. Tive uma separação e fiquei bastante deprimido. Para piorar, tomei calotes em vários times. Entre 2018 e o fim de 2019, eu passei uns dez meses parado em casa. Não queria mais jogar profissionalmente, só batia uma pelada com os amigos.
Um dia estava em casa sozinho e comecei a ver alguns vídeos com meus gols de títulos, principalmente aquele pelo Palmeiras. Aquilo me motivou e fiquei com vontade de jogar outra vez. Vi o carinho das pessoas nas redes sociais me pedindo para voltar a jogar. Aquele gol salvou a minha carreira (risos). Senti a emoção e a adrenalina de novo.
Contei com a ajuda dos meus familiares para colocar a cabeça no lugar e voltei a jogar. Recebi um convite no ano passado do Altos-PI, que me abriu as portas. E deu tudo certo. Conseguimos o acesso para a Série C do Brasileiro, a vaga na Copa do Nordeste e fiz muitos gols. Renovei contrato por mais uma temporada e tenho certeza que será maravilhoso.
Tenho muita alegria e vontade de trabalhar. Ainda quero jogar mais uns seis anos.
Estou com a cabeça boa. Quem sabe não volto ao cenário nacional? Quem sabe...
* Depoimento ao repórter Vladimir Bianchini | Edição: Antônio Strini e Fabio Chiorino
