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Breno Lopes revela que 'não se iludiu' quando soube de interesse do Palmeiras: 'Estava calejado com Atlético-MG, Bahia, Sport...'

Apresentado em 16 de novembro como reforço do Palmeiras, o atacante Breno Lopes chegou a ficar descrente que seria de fato contratado pelo Verdão.

A confissão foi feita pelo atacante, em longa entrevista à ESPN concedida na última sexta-feira, na qual o ex-Juventude contou diversas histórias de sua vida e carreira.

Breno, que vinha se destacando na equipe gaúcha na Série B, relatou que tudo ocorreu "muito rápido" no acerto para que ele reforçasse o clube do Palestra Itália.

No entanto, devido às muitas especulações envolvendo seu nome no mercado da bola, ele admite que ficou em dúvida se a contratação iria se concretizar de fato.

"Com o Palmeiras foi tudo muito rápido. Vários times demonstraram interesse em mim, mas eram propostas de empréstimo. E o Juventude não queria me liberar por empréstimo, porque eu estava sendo fundamental na campanha da Série B. Eles têm esse sonho em subir pra Série A e contavam comigo. Enquanto isso, meu emprésario sempre me ligava dizendo: 'Não deixe essas coisas fora de campo te atrapalharem! Fique focado!'. Deixei isso na mão dele e continuei focado apenas em campo", contou.

Tudo mudou, porém, depois da vitória por 1 a 0 do Juventude sobre o CRB, em 11 de novembro.

"Logo depois da partida contra o CRB, em Alagoas, chegamos em Porto Alegre e meu empresário me ligou: 'Breno, o Palmeiras tem interesse em você!'. Só que eu já estava tão calejado com essas coisas... Tinha ouvido conversa de Atlético-MG, Sport, Bahia... Pensei: 'Se for da vontade de Deus, ótimo'. Mas a verdade é que eu nem estava me iludindo mais (risos). Fiquei focado e pensei: 'O que for pra ser, será'", relatou.

"Só que aí meu empresário me ligou de novo dias depois e contou que o Palmeiras havia mandado o contrato! Foi só aí que eu vi que iria acontecer, mesmo! Ficamos a semana toda na correria e assinamos o contrato. Foi a realização de um sonho de infância", exaltou.

Pelo reforço, o Alviverde paulista pagou R$ 7,5 milhões por 50% dos direitos.

Breno revela, que, na sequência, conversou com Anderson Barros, diretor de futebol do Verdão, e assegurou que estava pronto para o maior desafio de sua vida.

"O Anderson me ligou perguntando se eu estava preparado para aquele desafio, pois a camisa do Palmeiras é pesada. Eu respondi que sim, pois era um sonho de criança defender um clube como o Palmeiras. Falei até que, se pudesse, chegaria no dia seguinte (risos)!", brincou.

Sua estreia, inclusive, foi "apressada", e o atleta entrou em campo pela 1ª vez pela nova equipe antes mesmo de ser apresentado à imprensa, já que o elenco palestrino estava extremamente desfalcado por lesões e pela COVID-19. Com isso, ele foi a campo na vitória por 2 a 0 sobre o Fluminense, em 14 de novembro.

"Cheguei numa quinta de manhã, fiz os exames médicos no dia e o Palmeiras já contava comigo para o jogo de sábado, contra o Fluminense! Para você ver como o futebol é uma loucura. Na sexta, também fiz exames e, umas 15h, fui treinar. Tinha ficado a semana toda sem treinar, porque estava resolvendo os documentos da transferência. Chegou sábado e entrei contra o Flu. Fiz minha estreia ao lado de jogadores que eu só via pela televisão! Para melhorar, vencemos o jogo, então foi tudo muito legal", celebrou.

O atacante está novamente à disposição da comissão técnica para o clássico contra o Santos, neste sábado, às 17h (de Brasília), pela 24ª rodada da Série A.

Logo após sua estreia contra o Flu, porém, ele acabou testando positivo para COVID-19 e desfalcou o Verdão na Conmebol Libertadores. Breno acabou voltando na vitória por 3 a 0 sobre o Athletico-PR, pelo Brasileirão, no último final de semana.

"Eu peguei COVID e foi bem difícil, porque eu estava muito bem fisicamente no Juventude, e, quando você para por 10 dias, perde um pouco do preparo e desanima. Eu ia para o jogo contra o Delfín, na Libertadores, mas fui cortado. Fiquei bastante triste. Estou trabalhando bastante agora para recuperar e ficar bem. Tive só dois dias de sintomas, com dor de cabeça e dor de garganta, mas já passou tudo", salientou.

Sobre a recepção no Palmeiras, Breno Lopes diz que ela foi melhor do que a encomenda.

"Nosso time está muito fechado e o elenco é muito bom. O professor Abel é muito bacana e conversa bastante com a gente. Gosta de brincar com o grupo, que está muito solto. É por isso que o Palmeiras vive um grande momento", explicou.

"É algo muito bom chegar em um time grande num momento assim. A gente sabe a responsabilidade que é vestir essa camisa, mas você tem mais confiança para fazer as coisas. Estamos vivos nas três grandes competições, e nosso elenco é muito bom. Tenho certeza que vamos chegar fortes nas três", garantiu.

"O Willian 'Bigode' é um cara fantástico. Eu já era muito fã dele desde os tempos de Cruzeiro, e agora mais ainda. Ele conversa muito comigo e me dá muitas dicas. O elenco inteiro é muito bom, ninguém tem vaidade e todos torcem pelo sucesso de todos. É isso que tem me ajudado muito", completou.

INFÂNCIA COMPLICADA

Como mostrou reportagem da ESPN publicada em 13 de novembro, Breno superou uma infância muito difícil antes de brilhar no futebol.

"Eu perdi muitos amigos de infância que foram para o mundo do crime. Alguns morreram, outros estão presos... Mas minha família sempre me incentivou a seguir pelo caminho certo, ao lado dos meus irmãos", contou.

"Meu pai não me deixava trabalhar em emprego normal e sempre me ajudou. Minha mãe até queria que eu trabalhasse, por medo de que eu fosse para o caminho errado na vida. Mas meu pai sempre me falou que, até certa idade, ele iria me bancar, e que eu não podia desistir dos meus sonhos", relatou.

"Minha infância teve muitas dificuldades. Muitas vezez meu pai deixava de comprar alguma coisa para a casa para ter dinheiro pra comprar minha passagem para eu ir treinar. Eu tive uma infância muito humilde, e levo tudo isso como lição até hoje. Minha família sempre fala para não deixar o sucesso subir à cabeça agora que estou em um time grande", observou.

Mineiro de Belo Horizonte, o atacante iniciou sua trajetória no futebol no Cruzeiro.

"Comecei na escolinha do Cruzeiro aos 11 anos. Treinei com nomes como Mayke [hoje seu companheiro no Palmeiras], Lucas Silva [hoje no Grêmio] e Thiago Lopes [hoje no Vitória]. Quando eu ainda era moleque, recebi uma proposta para ir para o Benfica, de Portugal, mas o patrão do meu pai, que gerenciava minha carreira, falou que eu era muito novo e que ainda não era a hora certa, porque as coisas poderiam não ser da forma como a gente esperava", lembrou.

"Talvez tenha sido o maior erro que a gente cometeu, porque um amigo meu, o Thiago, foi e de fato tudo o que o Benfica tinha prometido era verdade. Na época, o patrão do meu pai prometeu dar um carro para a gente para eu não ir. Imagina falar para um garoto de 11 anos isso... Hoje, a gente sabe que foi um erro, pois, se tivéssemos ido, talvez eu voltasse mais valorizado", observou.

"Depois, eu tive uma lesão e, quando me recuperei, já não tinha mais o espaço de antes. Começaram a chegar jogadores de vários lugares diferentes, e eu comecei a ver o futebol como ele realmente é. Antes, eu era o artilheiro de todas as categorias juvenis da base. Um dia, fui mandado embora e foi um baque, nem queria mais jogar futebol. Naquele momento, meu pai foi muito importante, porque ele não me deixou desistir", relatou.

Com isso, Breno Lopes "completou" sua formação numa das mais tradicionais escolas do futebol brasileiro: o futebol de várzea.

"Fiz minha formação no juvenil, fui para a base e aí fui liberado. Foi uma frustração muito grande, pois meu nome sempre foi bem falado no Cruzeiro. Fiquei parado por um ano e meio, pensei em desistir e aí fui jogar no futebol amador. Era o futebol raiz, no meio dos jogadores mais velhos, aquele que não tem certas faltas (risos)... Foi bom para o meu amadurecimento ter passado por aqui. Quando cheguei ao profissional, já estava mais calejado e não tinha medo de ir para cima de ninguém", afirmou.

Após quase desistir, porém, o futebol sorriu para o atacante, que deslanchou de vez.

"Meus pais seguiram me incentivando e, por meio de um amigo meu, fui para o São José de Porto Alegre, pois ele estava jogando lá e me chamou. Eu nem queria, ia começando a trabalhar normal, mas resolvi tentar pela última vez, muito por causa do meu pai, que sempre foi meu grande incentivador. Passei no teste do São José, fiz um Gaúcho muito bom e fui para o Joinville, em 2014. Joguei a Copa São Paulo, me destaquei bastante e subi para o time de cima. Foi aí meu começo de carreira profissional", rememorou.

ESTILO POLIVALENTE

Breno Lopes é conhecido por poder atuar em várias posições no ataque, seja pelos lados ou mais centralizado.

Durante a carreira, porém, ele já chegou a jogar até como lateral, mostrando sua polivalência.

"Eu sempre fui atacante desde a base, mas, quando subi para os profissionais, cheguei a jogar como lateral, volante e meia, porque o Joinville estava com muitos problemas de lesão. Sempre quis ajudar o grupo da maneira que fosse. Sou um jogador polivalente. Atuando em outras posições, evoluí bastante na marcação e na parte de recomposição. No Juventude eu também atuava assim, pois é um time que gosta de jogadores que voltam para fechar a linha", explicou.

O atacante também lembra que, no início, sua timidez chegou a atrapalhar um pouco seu início no Joinville. Com o tempo, ele foi se soltando e emplacou de vez.

"Foi uma alegria muito grande subir tão rápido da base para o profissional no Joinville, mas, no meu 1º ano, tive poucas oportunidades e fui emprestado ao Juventus-SC. Quando voltei, o treinador do Joinville era o mesmo que tinha me comandado no sub-20. Com isso, eu fiz meu melhor ano no Joinville. Ele já me conhecia e me dava confiança, e foi aí que tive a ascensão na minha carreira", lembrou.

"No Joinville, eu era muito quieto no começo, mas, com o passar do tempo, fui me soltando. Hoje em dia, a gente é obrigado a se comunicar bem e conversar. Tive muitas experiências com vários caras mais conhecidos do futebol, que conversaram muito comigo e me explicaram como as coisas funcionavam no futebol. Acho que evoluí muito também neste aspecto ao longo dos anos", reconheceu.

"Quem me ajudou muito foi o (ex-meia) Lúcio Flávio e o (ex-volante) Renan, que foi campeão mundial pelo São Paulo. São caras com quem tenho contato até hoje e que me ajudaram muito dentro de campo, com posicionamento, e também fora. No Juventude, o Paulo Sérgio, ex-Flamengo, também me orientava muito. Todos eles me deram muitos alertas, e são lições que vou levar para sempre", salientou.

Na sequênciada carreira, Breno foi subindo degrau a degrau até chegar ao Palmeiras, seu time atual.

"No Joinville, foram quatro anos e uma experiência fantástica. Aí, em 2019, eu fui para o Juventude, no qual tive a melhor chance da minha vida até ali, pois conseguimos o acesso para a Série B. Depois, fui emprestado ao Figueirense e ajudamos a salvar o clube do rebaixamento para a Série C, que parecia certo. Fizemos uma série invicta de 12 jogos que foi sensacional. Aí, no começo de 2020, fui para o Athletico-PR, disputei o Paranaense com o time de aspirantes e fui campeão", recordou.

No Athletico, aliás, o atacante teve sua primeira chance de disputar jogos internacionais.

"O Athletico-PR me chamou para jogar pelo sub-23 e disputar o Paranaense. Mas foi curioso que, assim que cheguei, o Rony foi para o Palmeiras, e a equipe principal ficou sem a referência do ataque. Então, fui para o elenco principal e me acolheram muito bem, foi uma experiência muito bacana", relatou.

"O Dorival Jr. gostou muito de mim nos treinos e me levou para o torneio amistoso contra Boca Juniors e Racing. Fui para a Argentina com o grupo de vários jogadores de nome, que tinham vencido a Copa Sul-Americana e a Copa do Brasil. Eu pensava: 'Onde é que eu estou?'. Fomos para San Juan e jogamos contra o Boca no estádio lotado. Não foi na Bombonera, mas também era impressionante. Entrei no 2º tempo e joguei 45 minutos. Depois, contra o Racing, atuei por mais 20", resumiu.

"Futebol contra os estrangeiros é outro nível de jogo, com muita intensidade. Aí, veio a pandemia, e o Athletico achou melhor eu retornar ao Juventude. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Fiz um primeiro turno de Série B excelente e acabei eleito o melhor jogador de setembro, quando fiz nove gols. Dois meses depois, fui contratado pelo Palmeiras", encerrou.