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O legado de Vadão: treinador moldou dois melhores do mundo, era 'homem de palavra' e destemido

Morreu nesta segunda-feira o técnico Oswaldo Alvarez, o Vadão, aos 63 anos.

O comandante teve uma longa e pródiga carreira, iniciada no começo da década de 90 e que durou quase três décadas, até o final de sua passagem pela seleção brasileira feminina, em 2019.

Durante estes muitos anos, Vadão se notabilizou por treinar grandes clubes, como Corinthians, São Paulo e Athletico-PR, e também diversos times tradicionais, como Guarani, Ponte Preta, Sport, Portuguesa, Bahia e Vitória, entre muitos outros.

O treinador ganhou troféus nacionais, regionais e estaduais, mas se notabilizou por lançar diversos jogadores ao estrelato.

Os principais casos foram o meia-atacante Rivaldo, no Mogi Mirim, em 1992, e o meia Kaká, no São Paulo, em 2001.

Ambos viriam a se tornar melhores do mundo pela Fifa: Rivaldo ganhou a honraria em 1999, pelo Barcelona, enquanto Kaká faturou o prêmio em 2007, pelo Milan.

RIVALDO E O CARROSSEL

Rivaldo iniciou sua carreira profissional no Santa Cruz, em 1990, mas foi nas mãos de Vadão, a partir de 1992, no Mogi Mirim, que ele se transformaria em uma estrela.

No interior paulista, o treinador montou um time extremamente ofensivo, com nomes como Rivaldo, Válber e Leto, e que se caracterizava pelas constantes trocas de posições entre os jogadores.

Por causa disso, o time foi apelidado de "Carrossel Caipira", em referência ao "Carrossel Holandês" da Holanda, na Copa do Mundo de 1974, sob o comando de Rinus Michels.

Do Mogi Mirim, Rivaldo sairia para o Corinthians, mas sem se firmar. Ele explodiria de vez a partir de 1994, no Palmeiras, indo depois para a Europa e transformado-se em uma lenda.

Em 1999, comeu a bola no Barcelona e foi eleito como melhor do mundo pela Fifa, ficando à frente de nomes como Beckham, Batistuta, Zidane, Vieri, Figo, Shevchenko e Raúl.

Por meio de seu Instagram, o camisa 10 do Brasil na conquista do Penta lamentou a partida de Vadão e reconheceu a importância do técnico em sua carreira.

"O futebol brasileiro perde um grande profissional e grande homem que me ajudou muito no início da minha carreira. Eu aprendi bastante com ele. Que Deus conforte os familiares neste momento tão difícil", postou.

A ENTRADA DE KAKÁ

Formado nas categorias de base do São Paulo, Kaká recebeu sua primeira chance no time titular justamente sob a tutela de Vadão, em 2001.

À época ainda conhecido como Cacá, ele tornou-se o herói da conquista do Torneio Rio-São Paulo, em cima do Botafogo, mesmo ainda muito jovem.

Na partida de volta da decisão, no Morumbi, o Tricolor perdia por 1 a 0 e via os cariocas pressionarem. Foi então que Vadão fez sua aposta: tirou Fabiano e colocou Cacá.

O meia, que ingressou aos 14 minutos do 2º tempo, correspondeu fazendo dois gols, aos 35 e aos 37, e ratificou a conquista do título pelo São Paulo.

Depois disso, Cacá transformou-se em Kaká e explodiu de vez, conquistando inclusive uma vaga no elenco que foi Pentacampeão do mundo com o Brasil, na Copa de 2002.

Em 2003, o craque foi vendido ao Milan, time pelo qual enfileirou taças e ganhou o prêmio de melhor do mundo da Fifa, em 2007, à frente de Messi, Cristiano Ronaldo, Drogba e Ronaldinho Gaúcho.

Nas redes sociais, Kaká foi mais um a lamentar o falecimento de Vadão e aproveitou para agradecer o ex-treinador.

"Minha eterna gratidão por você ter aberto as portas pra um garoto que ninguém conhecia e poucos acreditavam. Mas você acreditou, me ensinou, me deu oportunidades pra que eu pudesse voar. Hoje o dia é de muita tristeza, mas as lembranças que guardo no meu coração são de muitas alegrias! Descanse em paz, meu amigo", escreveu.

'ERA HOMEM DE PALAVRA'

Durante a carreira, Vadão comandou centenas de atletas, e era extremamente querido pela grande maioria.

A ESPN ouviu ex-comandados e todos foram unânimes ao enumeras suas principais qualidades, como a coragem e o fato de ser um homem de palavra.

O ex-meia Harison, que trabalhou com o comandante no São Paulo, tinha um carinho enorme pelo "professor".

"Ele chamava as pessoas de quem ele gostava mais de 'companheiro'. Espero que meu 'companheiro' chegue bem lá no céu e que um dia a gente possa se encontrar de novo", disse Harison, emocionado.

"O Vadão era um treinador destemido. Ele foi muito corajoso em 2001 ao colocar os meninos que disputaram a Copa São Paulo para jogar, como Kaká, Oliveira, Renatinho, Fábio Simplício e Júlio Baptista. Também foi o treinador que me deu a primeira chance de ser titular do São Paulo. Sempre confiou muito no meu trabalho, e, depois, vivi com ele, na Ponte Preta, o melhor momento da minha carreira", exaltou.

"Em 2009, quando eu voltei da Arábia, ele me ligou e me pediu ajuda para subirmos o Guarani de divisão. Juntos, nós conseguimos colocar o Bugre na Série A. Éramos muito amigos e tínhamos grande afinidade. A gente sempre conversava por telefone", relatou.

"Vadão tem uma família maravilhosa, só de pessoas do bem. Ele sempre soube montar bons grupos sem dinheiro, porque era um cara que reunir as melhores características para dar certo", completou.

Já Fabiano, que foi o atleta substituído por Kaká na final de 2001, exaltou o olho tático do treinador.

"Lembro da primeira vez que conversamos. Ele disse que o São Paulo estava sem dinheiro para contratar, e fez uma reformulação grande no elenco. Eu era um dos poucos remanscentes de 2000, e ele me falou que eu seria um dos pilares do time, pois gostava muito de mim. Era um cara de palavra. Tinha aquele jeitão tímido, do interior, mas com convicções bacanas", elogiou.

"Ele era um treinador moderno, gostava que o time rodasse muito e tivesse velocidade e aproximação entre os jogadores. Naquele Rio-São Paulo, revelamos grandes jogadores para o mundo, como o Kaká. Lembro que o (auxiliar Milton Cruz) sempre gostou do Kaká e falava muito dele para o Vadão, que resolveu apostar também", lembrou.

"O Kaká treinava com a gente no profissional, mas tinha poucas oportunidades. Ele teve que ter paciência, porque viu colegas de base dele terem chances antes e entrarem mais vezes. Mas, naquela final, o Vadão levou o Kaká para o banco. O jogo estava complicado, e a gente corria o risco de perder o título em casa. Nisso, o Vadão mostrou a coragem dele e colocou o Kaká no meu lugar, deixando o time mais ofensivo", contou.

"Eu estava bem no jogo, e minha saída foi até uma surpresa para mim. Mas aí eu vi que ele estava certo. O Vadão era muito ousado, gostava que os volantes pisassem na área. No momento certo, ele colocou o Kaká. Isso é o olho do treinador que sabe das coisas", salientou.

"No começo, lembro até que o Kaká errou alguns passes, mas depois ele se encontrou em campo e fez os gols do título. Nunca fiquei tão feliz em sair de um jogo (risos)", brincou.

Auxiliar do São Paulo por muitos anos, Milton Cruz também se lembra com carinho de Vadão, e contou como Kaká foi promovido.

"Eu já tinha falado de subir o Kaká para o profissional para alguns treinadores anteriores, mas geralmente eles preferiam trabalhar com jogadores mais experientes. Por isso, quando o Vadão chegou, a primeira coisa que falei para ele foi que tinha um menino dos juniores que eu gostava, e que gostaria que ele visse com carinho", rememorou.

"Nós fomos ver um jogo da 1ª fase da Copinha, contra o Santo André, no Bruno José Daniel. O Kaká estava no banco, mas entrou no 2º tempo. O Santo André ganhou, mas o São Paulo classificou. Depois disso, conversei com ele para chamar o Kaká para treinar nos profissionais e ele topou", revelou.

"Lembro que ele me disse depois do 1º treino: 'Esse menino leva jeito. Vamos deixá-lo aqui!'. E o Kaká ficou com a gente", recordou.

"Na final do Rio-São Paulo, ele levou o Kaká e lembro dele falar para mim no banco: 'Será que ele não vai tremer, porque é um jogo tão importante?'. Eu disse que não, que podia colocá-lo porque ele iria ajudar a gente. O Kaká entrou e errou os dois primeiros lances, e ele olhou para mim e perguntou: 'Será que ele vai tremer?'. Eu tranquilizei e falei que não, que ia dar certo", contou.

"Kaká entrou frio e sem ritmo, mas, quando esquentou no jogo, ele brilhou. Depois, o Vadão até me agradeceu por eu ter falado do Kaká para ele no início. Eu sempre senti que ele tinha muito orgulho de ter dado essa chance a ele. Como também deu para vários outros, como Júlio Baptista, Harison, Renatinho, Júlio Santos, Fábio Simplício, etc...", finalizou.