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Ídolo do Porto, Derlei 'flertou' com o Corinthians, foi campeão da Champions com Mourinho e quase foi parar no Chelsea

Derlei segura a taça da Champions League pelo Porto Etsuo Hara/Getty Images

Derlei teve um caminho bastante inusitado até virar ídolo do Porto, que enfrenta a Inter de Milão pelas oitavas de final da Champions League nesta terça-feira (14), às 17h (de Brasília). Depois de tentar a sorte em grandes clubes de São Paulo sem sucesso e ser reprovado em times mais modestos como São Bernardo, Santo André e São Caetano, era pouco provável imaginar que o atacante chegaria ao topo do futebol europeu.

Mesmo assim, ele contrariou qualquer possibilidade negativa. Após conseguir se profissionalizar pelo América-RN e passar pelo Desportivo-ES, o jogador viu sua carreira mudar quando chegou ao Grêmio Mauaense-SP, que era treinado por Biro-Biro, ídolo do Corinthians.

"Ele me ajudou muito porque fizemos alguns amistosos depois que não conseguimos subir na terceira divisão do Paulista (em 1997). Eu fui bem contra o Corinthians porque era o jogo da vida para a gente, mas para eles era só um treino. Eles ficaram interessados e iam acertar no fim da semana para fazer a documentação", disse Derlei, ao ESPN.com.br.

No entanto, a vida do atacante mudou após se destacar em um jogo contra o Guarani: "O Biro falou que eu estava indo ao Corinthians, mas o Guarani fez uma oferta. O Corinthians tinha uma equipe muito forte e eu não teria tantas chances como no Guarani. Optei por isso e acreditei neles", explicou.

Após jogar um tempo pelo Bugre, Derlei foi emprestado ao Madureira para jogar a segunda parte do Carioca de 1999 e não ficar parado.

"Fiz vários gols contra os grandes e surgiu interesse de Vasco e Fluminense. Voltei ao Guarani, e o treinador disse que eu teria chance, mas fui comprado pelo Madureira e emprestado para o União de Leiria, de Portugal".

Em duas temporadas na pequena equipe portuguesa, ele se destacou com muitos gols e fez amizade à época com um jovem técnico chamado José Mourinho, que pouco tempo depois mudou-se para o Porto.

"Algum tempo depois de chegar ao Porto, o Mourinho me ligou: 'Continua fazendo seu trabalho porque já falei com o presidente que quero você na próxima temporada. E também vem o Nuno Valente para trabalhar comigo'. Fiquei feliz e agradecido e sabia que iria levar um tempo. Em março, o presidente do Porto me chamou e disse que tinha acertado com o Leiria um acordo e faltava só a gente. Fui para lá porque foi o (empresário) Baidek que me levou para Portugal e também para o Porto".

"Nessa negociação foi até bastante complicada pela minha parte porque havia interesse de Sporting, Benfica, Sevilla e Betis. Eu estava numa crescente e era vice-artilheiro do campeonato em uma equipe pequena, perdendo para o Jardel, que não contava (risos). Naquele ano acho que ele fez 42 gols, foi o chuteira de ouro na Europa. Era um finalizador incrível", disse.

Derlei chegou ao Porto no meio de 2002 e logo na primeira temporada já fez sucesso.

"Eu sabia o que o Mourinho queria de mim no time. Eu tinha que mostrar um valor desde o começo para passar confiança. Fiz gols nos primeiros amistosos e isso me deu tranquilidade. Estava chegando a um clube grande e até na pré-temporada tinha torcedores cercando o ônibus, pedindo fotos e autógrafos. Minha vida mudou da noite para o dia", confessou.

O atacante fez grande amizade com o meia Deco, grande astro da equipe. "Ele era meu parceiro de concentração, me dava várias dicas e eu me espelhava nele porque era ídolo do clube. Isso facilitou muito a minha primeira temporada".

'Não tínhamos nada a perder'

Logo de cara, ele venceu Campeonato Português, Taça de Portugal e Copa da Uefa. Ele foi o grande herói na conquista continental ao anotar dois gols na suada vitória por 3 a 2 sobre o Celtic, na prorrogação.

"A final foi um dia mágico porque foi o primeiro time português a vencer a Uefa. Foi um dos melhores dias da minha carreira e um jogo muito difícil mesmo. Para quase todo o elenco era a primeira final europeia. Quando chegamos na decisão, tinha uma ansiedade e uma confiança tremenda. No hotel já respirávamos o clima de tranquilidade que tudo daria certo", contou.

Na temporada seguinte, o Porto foi ainda melhor. Após começar a Champions League com risco de ser eliminado na fase de grupos, com um empate e uma derrota, a equipe portuguesa deslanchou na competição. Passou na segunda posição (atrás do Real Madrid), mas eliminou nos mata-matas Manchester United, Lyon e La Coruña antes de vencer a decisão contra o Monaco por 3 a 0.

"Não tínhamos medo de perder. Me machuquei na primeira fase e o Mourinho buscou o Carlos Alberto (no Fluminense). Nunca vi um grupo daquele jeito, nós saíamos juntos e brincávamos sempre, não tinha ninguém que ficava de fora. Era uma família mesmo, não havia reclamação e tinha parceria muito grande".

Derlei sofreu uma lesão no joelho ainda na primeira fase e só conseguiu retornar na semifinal, quando fez o gol que deu a vaga na final contra o Porto. Mesmo sem estar 100% fisicamente, ele foi titular na decisão.

"Chegamos à final contra um time que não havia vencido a Champions, o que nos deu ainda mais confiança. A vitória por 3 a 0 não refletiu o jogo, principalmente o primeiro tempo, mas foi fruto de uma equipe muito madura".

Além da Liga dos Campeões, o Porto faturou outra vez a Taça de Portugal e a Liga Portuguesa. No meio de 2004, Mourinho foi para o Chelsea e tentou contratar alguns dos seus ex-comandados.

"Ele conseguiu levar o Ricardo Carvalho e o Paulo Ferreira e queria levar o Deco. Nós chegamos a ter uma conversa, mas o Porto não vendia mais do que dois jogadores por temporada para não desmontar o time forte. Todos os atletas tinham propostas para sair e o clube não aceitava. Eu renovei contrato e não poderia ir para a Inglaterra porque não jogava na seleção e o passaporte português ainda não estava pronto. Quando ele ficou pronto, fui para o Dinamo de Moscou, da Rússia. Tivemos conversas, se tivesse pedido acho que teria ido, mas optei por outras coisas porque sei que o Mourinho não precisava de mim", disse Derlei.

Após duas temporadas na Rússia, Derlei jogou por Benfica, Sporting e Vitória antes de pendurar as chuteiras pelo Madureira, em 2010. Apesar de nunca mais ter jogado com Mourinho, o brasileiro teve seu valor reconhecido pelo Special One.

Em uma entrevista de 2014, o português declarou que Derlei talvez fosse o jogador mais especial em sua trajetória como treinador. Ambos saíram do quase anonimato no União Leiria até a consagração no Porto: "A gente saiu de um clube que lutava para não cair para sermos campeões portugueses e da Europa em dois anos. Foi algo quase impossível", finalizou o brasileiro.