<
>

Brasileiro revela que maior frustração da carreira de José Mourinho foi não ter conseguido 'salvar' Adriano 'Imperador'

Roma de Mourinho tenta conquistar o título da Conference League nesta quarta-feira (25), às 16h (de Brasília), com transmissão pela ESPN no Star+


Nesta quarta-feira, a Roma enfrenta o Feyenoord na grande final da Uefa Conference League, às 16h (de Brasília), com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.

Para conquistar o torneio europeu, a equipe italiana conta com a expertise do técnico José Mourinho, que possui diversas taças continentais em seu armário: ele ganhou Champions League e Copa da Uefa com o Porto, outra Champions com a Inter de Milão e ainda uma Europa League com o Manchester United.

As muitas vitórias do Special One em torneios Uefa se devem a vários fatores, como suas estratégias em campo e os famosos mind games em entrevistas coletivas pré-jogo. O sucesso de "Mou", porém, também está diretamente relacionado a vários jogadores decisivos que ele comandou ao longo dos anos.

Um dos que mais lhe ajudaram foi o atacante Derlei, que foi comandado pelo treinador no União de Leiria e depois no Porto, fazendo parte da dinastia de taças de José no Estádio do Dragão.

Em entrevista ao ESPN.com.br, o hoje ex-centroavante relembrou seu início de trabalho com o Special One, que rapidamente conquistou os jogadores com seus treinamentos diferenciados e com a atitude vencedora.

"Eu conheci o Mourinho no União de Leiria, em 2001. Desde o primeiro dia, formamos uma ligação muito legal de respeito e amizade", recordou Derlei.

"Algo curioso que ele mudou desde quando foi apresentado: o futebol português nessa época era muito físico, e os gramados ficavam pesados no inverno, porque chovia muito. Quando ele chegou, na pré-temporada já fez algo muito diferente. Eu achei que ia me matar de correr em volta do campo para aprimorar forma física, mas não foi nada disso. Desde o primeiro treino já foi com bola, mesmo na parte física. Aquilo era muito diferente do que todos estávamos acostumados. Mas, com ele, não tinha isso. Até fazia umas sessões de treino físico sem bola, mas era raro. E dava para ver nos olhos dos jogadores a alegria de trabalhar com um técnico que estava revolucionando tudo", relembrou.

Derlei aponta que José Mourinho sempre acreditou que suas convicções sobre futebol eram as corretas.

"Ele sempre foi muito tranquilo, mas, na hora de trabalhar, era bastante sério. O Mou era muito convicto das coisas que acreditava e achava que era o correto a fazer pela equipe. Essa confiança no trabalho dele é algo que ele sempre passou aos jogadores. E a gente sentia, executava e dava certo. É um cara que tem o dom de passar as ideias com tranquilidade e facilidade", explicou.

O ótimo trabalho do Special One em sua primeira (e única) temporada pelo União de Leiria rapidamente despertou a cobiça dos gigantes de Portugal, que sabiam que ali estava o próximo grande técnico do país.

"No meio da temporada no Leiria, o Benfica já veio atrás dele para contratá-lo, mas ele fez algumas exigências. O Mou falou que até iria, desde que mudassem algumas pessoas da comissão técnica do clube com quem ele não queria trabalhar junto. Disse que só iria se pudesse levar a comissão dele. O Benfica ficou de pensar e demorou alguns dias. Nisso, o Porto, que não estava bem na liga, deu o chapéu e conseguiu contratá-lo na frente do Benfica. Foi uma grande polêmica na época, mas ficou na história (risos)", brincou.

'Ele passa esse ar de arrogância'

Ao deixar o União de Leiria para suceder Octávio Machado no Porto, Mourinho deu um recado claro aos seus jogadores.

"Quando ele foi se despedir da gente, disse: 'Rapazes, vou lhes dizer uma coisa... Se nosso União de Leiria usasse a camisa de algum dos grandes aqui de Portugal, seríamos campeões nesta temporada. Mas, como estamos no Leiria, nunca vão nos deixar ser campeões. Infelizmente, não posso levar todos vocês para o Porto... Mas um ou dois vou levar comigo, podem ter certeza'", relembrou Derlei.

José de fato cumpriu sua promessa: em 2002/03, sua primeira janela pelos Dragões, o treinador "capturou" três jogadores de seu ex-time. Por pouco mais de 1 milhão de euros, ele comprou Derlei, seu atacante de confiança, além do lateral-esquerdo Nuno Valente e o volante Tiago, que se tornariam atletas importantíssimos em seu projeto para o Porto.

No comando da equipe portista, Mou ganhou dois Campeonatos Portugueses com o pé nas costas, mas se caracterizou especialmente pelas grandes vitórias em torneios mata-matas, principalmente os europeus.

Segundo Derlei, a atitude do Special One antes dos jogos internacionais, não importando qual fosse o adversário, contagiava os jogadores.

"Ele sempre teve essa confiança de que seria vencedor. Passa até um ar de arrogância para quem vê de fora, mas é pura confiança, e ele transmite isso aos atletas. É só ver hoje o que ele faz com a Roma, consegue que os jogadores se motivem e briguem até o fim por algo. A personalidade do Mourinho é única", exaltou.

"Nos jogos de mata-mata em casa, ele sempre falava: temos que resolver aqui na nossa casa, e depois, na casa deles, trazer o empate. Mas a gente também nunca jogava pelo empate fora (risos)!", divertiu-se.

Um dos confrontos mais memoráveis da campanha do título da Copa da Uefa 2002/03 foi contra o Panathinaikos, da Grécia, pelas quartas de final.

Na ocasião, os gregos arrancaram uma inesperada vitória por 1 a 0 no jogo de ida, no Estádio do Dragão, deixando a equipe de Mourinho em situação incômoda. Derlei lembra até hoje como o treinador conseguiu reverter tudo com jogos mentais.

"Nas quartas, perdemos por 1 a 0 para o Panathinaikos com um gol no final do jogo. Chutamos um milhão de bolas, mas ela não queria entrar. Depois do jogo, ele foi para a entrevista e disse para os torcedores ficarem tranquilos, que a gente tinha toda a condição de buscar a vitória fora", recordou.

"Só que os gregos já estavam eufóricos, porque eles não perdiam em casa de jeito nenhum. A gente deu uma desanimada, mas no vestiário ele reuniu todo mundo e falou: 'Rapazes, fiquem tranquilos e descansem. Essa série não acabou aqui. Só precisamos fazer nosso jogo. Vamos ganhar de 1 a 0 no tempo normal e depois levar na prorrogação'. Parece que ele previu o futuro, porque foi exatamente o que aconteceu", relatou Derlei, autor dos dois gols da classificação portista, com ar de espanto.

"Foi o jogo mais difícil da nossa campanha até a final. Depois, passamos até com certa facilidade sobre a Lazio, que era a grande favorita ao título, e fomos campeões em um jogaço contra o Celtic do Larsson", rememorou.

"O Mourinho prometeu aos torcedores que seria campeão e cumpriu a palavra dele com sobras. Ganhou dois Portugueses, ganhou Taça de Portugal, ganhou Copa da Uefa e depois faturou a Champions League. É um monstro!", exclamou.

'Vocês f*** meu treino hoje'

Apesar da seriedade e da cara de malvado, Mourinho também sempre soube lidar muito bem com seus atletas desde o início da carreira, mesmo depois de algumas aprontadas.

O próprio Derlei confessa ter participado de uma "bagunça" com colegas do Porto que teve que ser contornada pelo Special One.

"No começo de 2002, estávamos em pré-temporada com o Porto. Treinamos de manhã e tivemos algumas horas de folga, mas tinha treino depois de tarde. Lembro que o pessoal mais velho do clube falou para a gente almoçar juntos em um restaurante, aí fomos todos", iniciou.

"Começamos a comer e, depois do almoço, tomamos alguns calices do famoso vinho do Porto. Os brasileiros do elenco também pediram umas cervejas, mas tinha treino às 16h! Ficamos lá bebendo até que saímos todos em cima da hora e fomos nos trocar", recordou.

"Entramos no campo e estava o Mourinho nos esperando. O gramado parecia uma pista de aeroporto, cheia de cones pequenos, tudo montado pra um treino bem importante. Ele falou pra gente alongar e fazer um bobinho para tocar a bola e aquecer. Quando começou o treino de fato e a bola rolou, uns quatro jogadores mal conseguiam parar em pé, enquanto outros estavam em situação bem difícil (risos)", gargalhou.

"E o Mourinho não é besta... O bafo da rapaziada já entregou tudo (risos). Ele viu que vários não estavam bem. Depois de uns 10 minutos, ele entrou no meio e falou: 'Acabou o treino! Vão tomar banho e amanhã a gente volta. Vocês f*** meu treino hoje... Amanhã vou fazer vocês compensarem (risos)", sorriu.

Com seus famosos mind games, mais uma vez o comandante conquistou o plantel.

"Ele tinha tudo planejado. No outro dia, fez o treino montado novamente e todo mundo se doou ao máximo, trabalhamos 200%. Foi ali que começou nossa parceria. Ao invés dele ficar xingando ou falando mal, teve a maturidade de contornar a situação e ganhou o grupo", citou.

"Os atletas perceberam que o Mou estava com cada um deles, não importando a situação. Esse momento foi muito marcante e acabou sendo um dos grandes pilares das nossas conquistas nessa e na temporada seguinte", salientou.

De brigar para não cair de divisão ao título da Champions

Derlei fez parte de todo o ciclo vitorioso do início da carreira de Mourinho, trabalhando com o treinador no pequeno União de Leiria e depois sendo o homem dos gols decisivos nos vários títulos conquistados pelo Special One nas temporadas seguintes.

O ex-atacante diz que até hoje se espanta com o poder do treinador.

"Não conheço outro técnico que estava em um clube brigando para não cair de divisão e, menos de dois anos depois, estava com troféus de Copa da Uefa e Champions League em anos consecutivos. É algo incrível, não sei se vai se repetir nunca mais. Estava claro que ele seria um dos grandes, o que se comprovou nas passagens dele por Chelsea, Inter de Milão e Real Madrid. É claro que é impossível se manter em alto nível por tantos anos, até por causa do desgaste mental, mas sempre que o Mou tem equipes qualificadas, ele briga pelas taças", ressaltou.

De acordo com o brasileiro, a conquista da Copa da Uefa de 2002/03 preparou bem o Porto para a temporada seguinte, e José dizia o tempo todo aos seus atletas que os Dragões seriam os campeões da Champions, mesmo tendo que enfrentar as maiores equipes da Europa na fase de grupos e nos mata-matas.

"O fato da gente ter vencido a Copa da Uefa deixou o time 90% pronto para a Liga dos Campeões do ano seguinte. Quando chegamos na final da Copa da Uefa, para muitos era a primeira decisão europeia, acho que só o (goleiro) Vítor Baía tinha jogado uma pelo Barcelona. A gente chegou com confiança, mas com muita ansiedade. No hotel, porém, ele já nos tranquilizou e disse que não tinha o que temer, porque a gente ia vencer. Ele nos passava muita confiança, e logo nós, jogadores, vimos que a gente não tinha que ter medo de nada", bradou.

"No ano seguinte, já na Champions, entramos bem mais tranquilos. Começamos mal, empatando com o Partizan e depois perdendo para o Real Madrid, mas ele nos reuniu e disse para ficarmos tranquilos, pois a gente tinha quatro jogos ainda. Vencemos três e classificamos em 2º lugar. A gente enfrentava qualquer equipe sem medo, em casa ou fora", exaltou.

Durante a campanha do título continental, Derlei se lesionou nas fases decisivas. Sem seu homem de confiança, Mou mostrou seu olhar apurado e mandou a diretoria buscar um outro brasileiro para acertar seu time: uma jovem revelação do Fluminense chamada Carlos Alberto.

"Eu lesionei o joelho e ele veio ao Brasil buscar o Carlos Alberto, que me substituiu na parte final da campanha. Era outra peça, mas o time jogava da mesma forma. A equipe estava leve, solta, e a gente sentia isso. Nosso grupo tinha uma amizade que eu nunca mais vi em outro clube", relatou.

"A gente saía sempre juntos para comer, todos brincavam com todos. Nunca ninguém ficava de lado. Era uma família, e nenhum jogador reclamava de nada ou falava algo. Não existia qualquer racha naquele nosso grupo", assegurou.

Na grande final, o Porto, que havia eliminado os favoritos Manchester United, Lyon e Deportivo La Coruña, passou o carro no surpreendente Monaco. Derlei, já recuperado, foi titular.

"As coisas foram acontecendo e a gente ganhou muita confiança ao derrubar os favoritos. Claro que o placar final de 3 a 0 não reflete 100% do que foi a final contra o Monaco na primeira parte, mas acredito que fomos campeões de forma muito merecida. Nosso título foi fruto da montagem de uma equipe que, já no ano anterior, tinha sido preparada e moldada para ser campeã da Europa", argumentou.

A tentativa de salvar Adriano 'Imperador'

Mourinho, aliás, sempre se deu muito bem com jogadores brasileiros, desde quando ainda era um desconhecido auxiliar-técnico no início da carreira.

"Ele sempre falou para a gente que, quando pudia, vinha ao Brasil ver jogos e observar jogadores. No Barcelona, ele trabalhou com várias feras no tempo que foi auxiliar do Bobby Robson e do Louis van Gaal. Trabalhou com Ronaldo 'Fenômeno', Rivaldo, outros craques excepcionais", lembrou.

"Ele me falava: 'Derlei, eu via o que esses caras faziam todo dia no treino, não só nos jogos'. Por isso ele vinha ao Brasil observar reforços, porque ele sabia que nós temos uma capacidade técnica acima da média. Ele sabia que só precisava ensinar para a gente a parte tática, de resto a gente resolvia. O Mou tem um conhecimento enorme de futebol brasileiro, e sempre soube extrair o que tem de melhor aqui", salientou.

Segundo Derlei, aliás, uma das maiores lamentações da carreira do amigo Mourinho é não ter conseguido "salvar" o centroavante Adriano "Imperador".

Quando o Special One chegou à Inter de Milão, em 2008, o atacante já vivia o ocaso de sua carreira, tendo entrado em uma forte espiral de depressão depois da morte de seu pai, em 2004.

Segundo contou José, Adriano ainda tinha toda a capacidade física e técnica para ser um dos grandes, mas sua mente não estava mais no futebol.

"Ele me contou certa vez do tempo da Inter: 'Derlei, um dos caras mais incríveis que já tive a oportunidade de trabalhar junto foi o 'Imperador'. Só que, infelizmente, ele já estava num processo praticamente irreversível de desistir do futebol'", revelou.

"Ele falou que via o Adriano e sabia que ele ainda tinha um potencial enorme para continuar no mais alto nível e até tentou ajudá-lo de várias formas, mas, infelizmente, o Adriano já estava com as decisões feitas na cabeça e optou por não querer dar continuidade a jogar em alto nível na Europa", finalizou Derlei.