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OPINIÃO: Ao deixar Mano sozinho, Melo pode ter falado muito sem dizer uma palavra

Augusto Melo, presidente do Corinthians Divulgação/Corinthians

Em se tratando de dirigentes tão apegados aos holofotes desde que alcançaram os minutos de fama, é surpreendente que Augusto Melo e Rubens Gomes não tenham se apresentado aos microfones na noite de terça-feira (30), quando o São Paulo enterrou o tabu em Itaquera. A ocasião não era prazerosa como os dias seguintes à vitória na eleição ou a divulgação de um milionário contrato de patrocínio, mas a audiência, sempre significativa, merecia algum tipo de consideração. Encerrou-se, afinal, um período de invencibilidade em casa diante de um rival, algo que o corintiano cultivava com uma combinação de orgulho e bom humor. Ninguém tem nada a dizer? Curioso.

A entrevista fácil, as promessas espontâneas, até mesmo a megalomania constrangedora, são características identificáveis. Como se leu aqui, compõem um método, uma conduta planejada, mesmo que garantam a exposição ao ridículo. Aparecer nos momentos sensíveis, para baixar a temperatura, exige mais do que um boné sempre pronto para as câmeras ou uma frase de efeito na ponta da língua. Como presidente do clube e gerador de expectativas impossíveis, Melo tinha a obrigação de estar ao lado de Mano Menezes na sala de entrevistas. E Gomes, o Rubão, deveria ter dado o ar de sua graça na zona mista, nem que fosse para não dizer coisa com coisa, como é hábito.

Não é difícil entender por que nenhum deles foi visto ou ouvido na noite em que o tabu caiu e o Corinthians terminou o jogo com gente da base em metade do time, garotos sem os quais o banco de reservas - como se deu nas rodadas anteriores - não estaria completo. Haveria perguntas incômodas sobre o resultado, a terceira derrota seguida, a situação do elenco, a ausência de jogadores... um contexto que demanda postura, habilidades e capacidade de comunicação. E havia a necessidade de transmitir suporte ao técnico e aos futebolistas que tiveram de explicar ao torcedor por que o Corinthians se assemelha a um carro cujo ano de fabricação é 2024, mas o modelo é 2023. Essa responsabilidade é de quem toma as decisões.

É preciso admitir que o Corinthians mudou mesmo. Perdeu pela primeira vez em Itu e para o São Paulo - muito superior como equipe - em casa. Vagas para inscrição de atletas no Campeonato Paulista continuam à disposição, mas não há nomes para preenchê-las, enquanto Wesley, Kayke e Arthur Sousa formam o trio de ataque que termina um clássico diante de 43 mil pessoas. Nas palavras do técnico, os dirigentes que empreenderam uma reforma no grupo de jogadores e disseram que o Corinthians seria protagonista em todos os campeonatos que disputasse “continuam sonhando”. O tempo se encarregará de dizer se isso é bom ou ruim.

Esse barulho que você está ouvindo são os burburinhos que reverberam, aqui e ali, sobre Mano Menezes. Sim, não duvide. As caixas de ressonância de sempre já aumentaram o volume, o que é bastante característico. Lembram, convenientemente, da reação do candidato Melo quando a diretoria anterior contratou Mano com compromisso até o final de 2025. Ignoram, por óbvio, que o Corinthians não tem um time. Mano soou como um treinador resignado, embora tenha demonstrado esperanças, numa entrevista em que a realidade do clube ficou evidente até para quem não presta atenção. Ao deixá-lo só para explicar uma derrota simbólica, é preciso considerar a possibilidade de Melo, pela primeira vez, ter falado muito sem dizer uma palavra.