<
>

OPINIÃO - O método Augusto Melo: corintiano, escolha como prefere ser enrolado

Augusto Melo em sua posse como presidente do Corinthians Jose Manoel Idalgo/Corinthians

Imagine por um instante que, desde que venceu as eleições e pôs fim a uma dinastia política no Corinthians, a diretoria representada por Augusto Melo tivesse apenas um discurso: o da recuperação administrativa do clube, em busca de uma condição em que o massivo potencial de receita pudesse, enfim, ser utilizado para qualificar o time de futebol. Imagine que este discurso mencionasse Palmeiras e Flamengo como exemplos do caminho a ser seguido no território das boas práticas, mesmo que isto significasse um pedido de paciência ao torcedor dotado de um mínimo de razoabilidade.

Imagine que, ao assinar o que se apresenta como o contrato de patrocínio de camisa mais valioso do continente sul-americano, esta mesma diretoria viesse a público para reforçar o discurso, mas com a mensagem otimista de que, com mais dinheiro disponível, a obrigatória reestruturação do departamento de futebol poderia ser levada a cabo num período menor. E que, enquanto aciona os melhores quadros humanos do mercado para coordenar uma tarefa da qual a sustentabilidade do clube depende, o investimento na equipe seria feito de maneira gradual, respeitando os processos internos que hoje são prioritários.

Agora tente conciliar esse exercício quase utópico com o que se ouviu da parte dessa diretoria sobre todos os temas abordados em entrevistas e notas oficiais nas últimas semanas. A promessa de que o período de protagonismo de Palmeiras e Flamengo terminou, a contratação de um executivo de futebol, a negociação avançada por Gabriel Barbosa, a permanência de Lucas Veríssimo, a chegada de Matheuzinho... a lista tem mais itens e poderia ocupar mais linhas, mas não é necessário. O que se nota, alguém poderá dizer, é uma conduta que fica na fronteira entre o amadorismo e a chanchada, sem qualquer preocupação com a imagem da instituição que não lhes pertence, apenas empresta um cartão de visitas e um passageiro ar de relevância. Mas não é isso, é muito pior.

Há um método - não é bom, mas existe - por trás desse tipo de comportamento em nome de dezenas de milhões de torcedores em que há toda sorte de reações a palavras ao vento, promessas vazias e constrangimentos em geral. De cheerleaders de cartolas a tolos úteis que confundem a camisa que amam com os dirigentes da vez, a massa de fieis quer acreditar, espera há tempos por dias mais leves e um futuro no qual o time a faça sonhar. Sim, é um dos aspectos mais belos do futebol, e exatamente por isso é uma ferramenta usada por quem pretende vender histórias que não pode entregar, porque, como avisou Churchill, a mentira dá meia volta ao mundo antes da verdade vestir as calças.

Uma recente prova do método foi revelada em reportagem do Globo Esporte sobre o pagamento da multa pela rescisão do contrato com a empresa de apostas que dará lugar a uma concorrente. Melo, inflado por números superlativos e habituado ao tapinha nas próprias costas, disse, há duas semanas, que o novo patrocinador arcaria com a conta de R$ 20 milhões. Incorreto. É o clube que vai pagar, o que logicamente impõe um recálculo do valor do contrato. Exposto aos fatos, o Corinthians respondeu, via assessoria, que seu presidente “se confundiu”. A quem quer crer, cabe a pergunta: por que a correção só foi feita agora? Até ingênuos têm obrigação de saber a resposta.

O buraco é tão profundo que deixa o torcedor que tem senso crítico numa posição desconfortável: a de escolher como prefere ser ludibriado. Seria realmente tranquilizador se a diretoria de Augusto Melo se comprometesse com a saúde orçamentária do Corinthians, mesmo que fossem necessárias outras gestões igualmente comprometidas para que o clube fosse resgatado. Ocorre que o exercício aqui proposto não fica em pé. O currículo de trapalhadas acumuladas até agora recomenda que, se o discurso fosse esse, ninguém deveria acreditar.