Como é assistir a um jogo de Copa do Mundo no meio dos sérvios e ainda 'torcer contra' o Brasil

Torcida da Sérvia em foto tirada a minutos do início da partida contra o Brasil na estreia da Copa do Mundo, em Lusail, Qatar Lars Baron/Getty Images

A missão da noite era assistir à estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo do Qatar. Mas de um jeito diferente.


O ato de 'torcer contra' o Brasil precisa ser melhor explicado logo no começo deste texto. Se 'torci contra', foi com o dedo cruzado dentro da jaqueta durante os 90 minutos. Eu juro. O lado bom é que parece que consegui levar um pouco de azar aos sérvios. Não que a seleção de Tite precisasse, claro.

A missão da noite era assistir à estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo do Qatar. Mas de um jeito diferente.

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A largada começou em Musherib, bairro de Doha onde a equipe da ESPN está hospedada. A ideia era fazer todo o trajeto de metrô para sentir o clima de Copa desde o início.

Cheguei ao Lusail, um dos estádios mais fáceis de se acessar via transporte público, ao lado de sérvios e brasileiros. O verde e amarelo, claro, em maior quantidade. E também mais barulhento.

Ao entrar no palco da partida, fui direto para a área mais próxima do campo e comecei a procurar por sérvios. Apesar de a ampla maioria ser brasileira, logo avistei pontos vermelhos na arquibancada.

Decidi, então, me instalar com a turma que estava atrás do gol defendido pela Sérvia no primeiro tempo. Cheguei e logo pedi um cachecol da seleção deles emprestado. Era só disso que eu precisava para me 'camuflar' 100% entre os torcedores. Um perfeito sérvio.

Surpreso com a escalação do professor Dragan Stojkovic, perguntei ao meu amigo do cachecol o motivo pelo qual Dusan Vlahovic, grande artilheiro da Juventus, estava no banco.

Ele foi direto: "O Aleksandar Mitrovic joga melhor e consegue fazer mais gols", respondeu. Questionável. Mas confiei no meu colega de arquibancada.

Durante o anúncio dos titulares, comecei a entender o motivo da escolha do treinador. Mitrovic, que joga no Fulham, foi o jogador mais celebrado pelos torcedores ao meu redor. Assim como Stojkovic, responsável pela escalação.

Na hora do hino, muita emoção. Fanáticos próximos a mim na arquibancada choravam em sinal de extremo respeito à pátria. Um deles, inclusive, chegou a fazer o gesto da cruz e parou por alguns segundos para olhar para cima e orar. Toda fé é válida numa Copa do Mundo.

O jogo começa, e os sérvios passam a apoiar com vontade. Neymar é o primeiro alvo. A cada desarme ou chegada mais dura em cima do camisa 10 da seleção brasileira, uma sonora comemoração no Lusail por parte dos europeus.

No campo de ataque, destaque para Dusan Tadic. Um dos melhores da geração atual do país, o astro do Ajax empolgava os sérvios a cada lance de efeito pelo lado do campo.

Os 15 minutos iniciais foram intensos atrás do gol defendido pelo arqueiro Vanja Milinkovic-Savic. O zagueiro pela esquerda da equipe, Strahinja Pavlovic, foi quem mais ouviu gritos de apoio no primeiro tempo.

Amarelado no começo da partida, Pavlovic sofreu bastante para marcar Raphinha na lateral do campo, mas, a cada vitória no 1x1 contra o brasileiro, os sérvios iam à loucura.

"Bravo! Bravo! Bravo!", gritavam os torcedores, enlouquecidos com a determinação dos atletas durante o jogo contra uma das melhores seleções do planeta. A raça para marcar era com certeza mais celebrada que os ataques. O vigoroso futebol sérvio em sua essência.

A paixão da torcida da Sérvia seria posta à prova no segundo tempo. Isso porque Richarlison não demoraria para abrir o placar após rebote do goleiro Milinkovic-Savic. O camisa 9 precisou apenas empurrar para dentro.

O gol brasileiro deixou a torcida adversária calada por alguns minutos. Mas o silêncio não durou muito. Vi de perto como os sérvios logo se levantaram a começaram a apoiar uns aos outros para que se mantivessem em pé e confiantes.

Atrás do gol, o grito "Serbia! Serbia! Serbia!" recolocou os torcedores de volta no jogo. O apoio incondicional, no entanto, seria substituído pela lamentação profunda poucos minutos depois. Culpa de novo de Richarlison, que fez a maioria verde e amarelo do estádio Lusail explodir com uma pintura de voleio.

A frustração tomou conta das camisas vermelhas nas arquibancadas. 99% dos sérvios ao meu lado entregaram os pontos a partir dos 35 minutos, quando a seleção brasileira já passara a administrar a vantagem no placar.

Mas uma solitária guerreira não desistiu. Sozinha, talvez tenha ficado sem voz após a derrota por 2 a 0. Isso porque ela fez questão de apoiar até o fim e vaiar todos os toques na bola do Brasil. Um exemplo de paixão pela nação apesar das circunstâncias que o futebol pode proporcionar.

Com apito final, veio a festa brasileira no estádio. A Sérvia, no entanto, não saiu de mãos abanando. Após a derrota, os jogadores da seleção foram até os pontos tomados por seus fãs e agradeceram pelo apoio. Na arquibancada, o gesto foi retribuído com aplausos.

Na Copa do Mundo, não existe tempo para lamentar. E os torcedores sabem disso. Meu amigo do cachecol logo me disse: "O Brasil era muito forte, infelizmente. Joga em um nível diferente. Mas podemos passar em segundo lugar. Somos melhores que a Suíça".

A Sérvia, de fato, deu trabalho ao Brasil com o seu futebol vigoroso e de forte marcação. Para avançar, vai precisar vencer Camarões na segunda rodada e torcer contra os suíços. Na última rodada, 'vida ou morte'. A Copa do Mundo começou.