‘Kaiser’ (imperador, em alemão) é de fato o apelido mais adequado para se referir a Franz Beckenbauer, que morreu neste domingo aos 78 anos. Afinal, foi alguém soberano na terra dos zagueiros.
Em um dos países mais tradicionais da história do futebol, com quatro títulos mundiais e diferentes gerações históricas, ele conseguiu ser o nome mais emblemático, mesmo sem ser meia ou atacante. Da mesma forma foi assim com o Bayern de Munique.
Com o talento de um jogador ofensivo, Beckenbauer foi o maior ponto de ruptura para que zagueiros não fossem apenas defensores, uma qualidade que acabou identificada com o nome de líbero. É dessa forma que ele virou um ponto crucial na mudança da história do jogo.
“Beckenbauer foi tão essencial para o desenvolvimento da Alemanha Ocidental quanto Cruyff tinha sido para a Holanda”, diz trecho do livro “A Pirâmide Invertida: A História da Tática no Futebol”, de Jonathan Wilson. “Beckenbauer sempre insistiu que seu estilo ofensivo era resultado de suas atuações como meio-campista pela seleção, na qual Willi Schulz era o líbero – por isso, ele não sentia o desconforto que era comum aos defensores quando avançavam com a bola”.
Não bastasse “só” este aspecto técnico, a ideia de um revolucionário no futebol vai também pelos seus troféus. O Kaiser foi protagonista em um momento em que o Bayern de Munique muda de realidade na história do futebol. Antes dele, os bávaros tinham conquistado apenas um Campeonato Alemão; com ele, foram quatro Bundesligas, o início da hegemonia que dura até hoje e o estabelecimento entre um dos dez maiores clubes do mundo.
A equipe ainda conquistaria seu primeiro título da Copa dos Campeões da Europa (antigo formato da Champions League), sendo inclusive tricampeã em 1974, 1975 e 1976. Os títulos também se estendem com a Alemanha, faturando a Eurocopa de 1972 e a Copa do Mundo de 1974 como jogador e o Mundial de 1990 como técnico – só ele, Zagallo e Didier Deschamps foram campeões mundiais nas duas funções.
Em cinco Copas do Mundo, três como jogador e duas como técnico, Beckenbauer nunca ficou de fora do pódio, sendo campeão e vice como atleta e treinador, além de um terceiro lugar em 1970, torneio em que ficou imortalizado pela imagem atuando com um braço imobilizado após uma lesão na clavícula na semifinal contra a Itália.
Com um jogo tão particular e um currículo cheio de taças, não é de surpreender que o Kaiser seja até hoje o único defensor a ter conquistado duas Bolas de Ouro (1972 e 1976), além de ter ficado em segundo lugar em outras duas oportunidades (1974 e 1975) e mais uma em terceiro (1966).
Mesmo longe dos gramados, seja dentro ou à beira dele, Beckenbauer também contribuiria em outro momento histórico da seleção de seu país. Ele foi chefe do Comitê Organizador da Copa de 2006, um momento que ficou marcado pela reestruturação que a Alemanha precisava passar e que culminaria no título de 2014. Na ocasião, Beckenbauer chegou a ser investigado por suspeita de corrupção, mas o processo foi arquivado.
O imperador parte, mas seu império segue vivo em cada zagueiro com refino técnico em campo, em cada taça que o Bayern levanta e em duas das quatro estrelas estampadas na camisa da seleção alemã.
