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Agente de ex-Corinthians relata caos na Ucrânia e faz apelo a governo brasileiro: 'Pior situação da minha vida'

Em entrevista ao ESPN.com.br, empresário do meia-atacante Pedrinho, do Shakhtar Donetsk, relatou a atual situação na Ucrânia


Destino de inúmeros atletas brasileiros nos últimos anos, a Ucrânia vive um período de tensão e medo. Na madrugada de quarta (23) para quinta-feira (24), a Rússia realizou os primeiros ataques a bomba contra alvos militares em Kiev (capital), Kharkiv e outras cidades próximas.

Neste momento, 41 atletas nascidos no Brasil atuam no futebol ucraniano e 20 deles estão com suas famílias em um hotel na cidade de Kiev, de onde gravaram um vídeo de apelo às autoridades brasileiras para que consigam ajudá-los a sair do país.

O ESPN.com.br conversou com Will Dantas, empresário de Pedrinho, meia-atacante revelado pelo Corinthians, com passagem no Benfica e atualmente no Shakhtar Donetsk. O agente está no Brasil, mas em contato direto por telefone com o atleta, e relatou o drama vivido na Ucrânia neste momento.

"Falei com ele agora há pouco, temos conversado bastante para que ele se acalme, mas ele está muito tenso e apreensivo. O hotel que eles estão tem abrigo anti-aéreo, isso me deixa mais calmo. A gente está aqui sem ter o que fazer, queria pedir que o governo brasileiro interceda e encontre uma maneira de retirar essas pessoas de lá. Está difícil", disse o empresário.

"Até agora o Shakhtar não nos disse nada, a única pessoa que consegui falar foi com o Pedrinho e estou com medo que eles cortem a internet", afirmou Will, que relatou ainda quais são as condições estruturais de Kiev após os bombardeios russos na região.

"Está um caos na cidade. Não tem gasolina. O tráfego está parado, todas as fronteiras fechadas, espaço aéreo fechado e estamos de mãos atadas, sem ter o que fazer. Acho que é a pior situação que eu passei na minha vida."

A Embaixada do Brasil na Ucrânia emitiu um comunicado oficial pela última vez na manhã de quarta (23), alertando para que ninguém se dirigisse a Kiev e Luhansk. Além disso, aconselhou os brasileiros que residem nesta região a deixarem o local o mais rápido possível.

"Com relação aos desdobramentos dos últimos dois dias, a Embaixada reforça sua recomendação de atenção e para que sejam evitadas visitas às províncias ucranianas de Donetsk e Luhansk. Aconselha-se aos cidadãos que já estejam nessas regiões que considerem deixá-las sem demora." O ESPN.com.br entrou em contato com a Embaixada pedindo uma atualização da situação, mas ainda não teve resposta.

Will voltou a fazer um apelo às autoridades brasileiras para que sejam rápidas e atuem pelos atletas brasileiros que estão na Ucrânia. "Estamos esperando uma posição do governo brasileiro, estou tentando por todas as vias para saber se existe uma solução que o ajude a sair de lá."

Segundo apuração da ESPN, há um clima de tensão e expectativa entre os jogadores e suas famílias a respeito dos próximos passos. O desejo é de que o governo do Brasil, através da Embaixada na Ucrânia, consiga viabilizar a saída do país.

A reportagem também procurou na manhã desta quinta-feira o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), em Brasília, e a secretária informou, por telefone, que todos os assessores estavam em reunião e pediu para que um e-mail fosse enviado, o que foi feito com três questionamentos.

A resposta veio, de forma genérica, por meio de duas notas oficiais publicadas no site da pasta. Veja ambas, na íntegra, abaixo:

Situação na Ucrânia
"O Governo brasileiro acompanha com grave preocupação a deflagração de operações militares pela Federação da Rússia contra alvos no território da Ucrânia.

O Brasil apela à suspensão imediata das hostilidades e ao início de negociações conducentes a uma solução diplomática para a questão, com base nos Acordos de Minsk e que leve em conta os legítimos interesses de segurança de todas as partes envolvidas e a proteção da população civil.

Como membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o Brasil permanece engajado nas discussões multilaterais com vistas a uma solução pacífica, em linha com a tradição diplomática brasileira e na defesa de soluções orientadas pela Carta das Nações Unidas e pelo direito internacional, sobretudo os princípios da não intervenção, da soberania e integridade territorial dos Estados e da solução pacífica das controvérsias."

Brasileiros na Ucrânia
A Embaixada do Brasil em Kiev permanece aberta e dedicada, com prioridade, desde o agravamento das tensões, à proteção dos cerca de 500 cidadãos brasileiros na Ucrânia. A Embaixada vem renovando o cadastramento dos brasileiros e tem-lhes transmitido orientações, por meio de mensagens em seu site (kiev.itamaraty.gov.br), em sua página no Facebook (https://www.facebook.com/Brasil.Ukraine) e em grupo do aplicativo Telegram (https://t.me/s/embaixadabrasilkiev).

Solicita-se aos cidadãos brasileiros em território ucraniano, em particular aos que se encontrem no leste do país e outras regiões em condições de conflito, que mantenham contato diário com a Embaixada. Caso necessitem de auxílio para deixar a Ucrânia, devem seguir as orientações da Embaixada e, no caso dos residentes no leste, deslocar-se para Kiev assim que as condições de segurança o permitam.

O Itamaraty disponibiliza, ainda, para casos de emergência consular de brasileiros na Ucrânia e seus familiares, o número de telefone de plantão consular +55 61 98260-0610.

Ainda não houve a confirmação sobre um contato oficial do órgão com os atletas, que estão em um hotel na capital Kiev e apenas se manifestaram por vídeo por enquanto.

"Fala, galera. Aqui estamos todos reunidos, jogadores do Dínamo e do Shakhtar, com as nossas famílias, hospedado aqui no hotel devido a toda situação. A gente está aqui pedindo ajuda de vocês, devido à falta de condição que existe na cidade, fronteira fechada, espaço aéreo fechado. Não tem como a gente sair. A gente pede muito apoio ao governo do Brasil, que possa nos ajudar", falou o zagueiro Marlon Santos, ex-Fluminense.

"Nós mulheres estamos com nossos filhos, nossas crianças, e nos sentindo um pouco abandonados. Não sabemos o que fazer, nada chega até nós. A gente faz um apelo a vocês, até por causa das crianças. Cada um saiu de casa correndo para vir para o hotel", disse uma das brasileiras.

Ao todo, 31 jogadores brasileiros atuam apenas na primeira divisão no futebol ucraniano. A maioria, 13 deles, defende o Shakhtar Donetsk. Mais atletas disputam outras ligas, como os atacantes Matheus Peixoto e Paulinho Bóia, do Metalist Kharkiv, da segunda divisão.

Veja abaixo a lista de brasileiros que atuam na Ucrânia

SHAKHTAR DONETSK

Marlon Santos (zagueiro), Vitão (zagueiro), Dodô (lateral), Vinicius Tobias (lateral), Ismailly (lateral), Marcos Antônio (meio-campista), Maycon (meio-campista), Alan Patrick (meio-campista), David Neres (atacante), Tetê (atacante), Pedrinho (atacante), Fernando (atacante) e Júnior Moraes (atacante)

DYNAMO DE KIEV

Vitinho (atacante)

DNIPRO

Gabriel Busanello (lateral), Felipe Pires (atacante) e Bill (atacante)

ZORYA LUHANSK

Juninho (lateral), Guilherme Smith (atacante) e Cristian (atacante)

VORSKLA POLTAVA

Rangel (atacante)

KOLOS KOVALIVKA

Diego Carioca (atacante) e Renan Oliveira (atacante)

METALIST

Marlyson (atacante), Fabinho (meio-campista) e Derek (atacante)

RUKH LVIV

Talles (meio-campista) e Edson (meio-campista)

CHORNOMORETS

Wanderson Maranhão (meio-campista)

INHULETS PETROVE

William (zagueiro)

PFK LVIV

Welves (atacante)