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Tinga e o ônibus que leva livros e alimentos para moradores de rua de Porto Alegre

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Tinga e o ônibus encantado: ex-jogador de Grêmio e Inter ajuda moradores de rua em Porto Alegre com alimento, educação e solidariedade (11:19)

Tinga circula com o ônibus especial pela Restinga e também pelo centro de Porto Alegre há quase dois anos fazendo mais do que uma ação social (11:19)

Tinga leva educação e alimento para centenas de moradores em situação de rua na Restinga com o ônibus encantado "Time Fome de Aprender"


Desde criança Paulinho tinha um sonho. Criar um coletivo que pudesse levar às pessoas alimento para o corpo e para a mente. Ele conseguiu criando o "Time Fome de Aprender", colocando na rua um ônibus-biblioteca-restaurante que distribui, além de educação, mais de 200 marmitas para moradores de ruas todos os dias.

Aposentado do futebol há quase seis anos, Tinga, 43, não abandona o bairro onde nasceu e viveu parte da vida, a Restinga.

Criado nos anos de 1960 e 1970 para receber o povo pobre de Porto Alegre, o bairro da Restinga está situado no extremo da zona sul da capital gaúcha.

Oriundo de uma “faxina social”, no gigantesco terreno foram jogados pais, crianças e adolescentes pretos e pobres, para que ficassem distantes dos olhos da elite porto-alegrense.

Paulo César Fonseca do Nascimento, o Tinga, lembra bem como foi a dura infância no bairro violento e distante das ações do poder público.

“Sou de um tempo que, quando eu ia para o centro de Porto Alegre, tinha vergonha de falar que eu morava na Restinga. Dizia sempre que morava na zona sul”, afirmou o jogador de futebol mais conhecido do pedaço.

Os perrengues vividos por moradores de favela de todo o Brasil, Tinga sentiu na pele ainda na infância. A irmã mais velha, Ana Paula, relembrou os tempos que tinha que fazer o papel de mãe, uma vez que a verdadeira trabalhava como faxineira durante o dia para sustentar os quatro filhos.

“Como irmã mais velha, eu era a responsável por cuidar dele. Desde um machucado, banho, lições de casa, enfim, passamos muitas coisas, muitas necessidades. Quando ele vinha da escola, almoçava e corria pro campo. Ele só pensava em bola, e eu tinha que correr atrás dele como se fosse gandula. Minha mãe sempre exigia que, quando ela chegasse em casa, às 6 da tarde, ele já tinha que estar quietinho, de banho tomado e alimentado, mas era difícil tirá-lo dos campinhos”, disse a irmã, hoje responsável pela cozinha do ônibus "Time Fome de Aprender”.

A mãe e a irmã tinham motivos maiores para se preocuparem com o destino do Paulinho bom de bola do pedaço. É que ali, muito próximo da residência da família, existia uma “boca de fumo”, onde os traficantes recrutavam jovens por R$ 50 ao dia para olharem seus pontos de vendas.

Diferentemente de vários amigos que estão presos ou enterrados em cemitérios, Paulinho escolheu o caminho do futebol.

No início, para treinar no Grêmio, onde foi aprovado na peneira, contou com a ajuda de muitos moradores da Restinga que acreditaram no potencial do menino.

Um deles foi um motorista de ônibus, um dos mais antigos moradores da Restinga.

“É legal que tu vai se conectando com as coisas. Por exemplo, o nosso primeiro motorista do projeto foi o senhor Cláudio. Ele era o motorista mais antigo da Restinga, era o motorista que, quando eu não tinha dinheiro para pagar a passagem para ir aos treinos no Grêmio, ele deixava eu passar. Dava um jeito de dar um ‘mergulho’, ou, quando eu entrava pela porta da frente, ele já avisava o cobrador: ‘Vamos ajudar o menino que vai treinar’. Ele me cobrava para que eu cumprisse com o meu papel”, relembrou o volante, que tanto sucesso fez anos depois no futebol gaúcho.

Profissionalizou-se pelo Grêmio em 1997, onde conquistou dois títulos estaduais, uma Copa Sul-Minas e duas Copas do Brasil. No país ele também defendeu as cores de Cruzeiro e Internacional, com títulos importantes por ambas as equipes. Também defendeu por muitos anos a seleção brasileira.

As voltas que o mundo dá

É certo que em suas veias, desde pequeno, Tinga tinha um sangue e um coração solidários e direcionados para o terceiro setor. Mas o despertar ocorreu mesmo quando o amigo Dunga, já aposentado dos campos, o convidou para fazer parte do “Projeto Esporte Clube Cidadão”, na Restinga.

Ali Tinga viu que era possível, mais do que colocar dinheiro em seu projetos sociais, usar a própria imagem, de ídolo do futebol, para trazer parceiros, amigos e empresários que pudessem bancar seus propósitos de transformação social.

O sonho do ônibus foi mais ou menos realizado dessa forma.

Com o desejo de fazer um ônibus com cozinha e biblioteca, Tinga foi à fabricante do veículo e por lá, além de deixar o projeto, deixou também vários cheques pessoais.

A ideia de colocar um ônibus que pudesse levar alimento e conhecimento à população mais necessitada da Restinga e do centro de Porto Alegre logo foi abraçada por muitos amigos do futebol e da vida.

“Teve um dia que eu me reuni com alguns amigos empresários e perguntei para eles quanto eles gastavam num jantar com a esposa num bom restaurante de Porto Alegre, com um vinho na conta também. Eles me responderam: R$ 500. Aí eu disse: ‘É com esse valor que cada um de vocês podem me ajudar ao mês para que a gente possa colocar o ônibus nas ruas e distribuir uma refeição digna, saudável para quem não tem acesso a um prato de comida’. E, assim, eles toparam entrar no projeto”, disse Tinga, o comandante do “Time Fome de Aprender”.

Mas não foram apenas os amigos anônimos que colocaram dinheiro para que o projeto pudesse ser posto em prática.

Vários ex-jogadores colaboraram com o sonho de Tinga, sendo o mais relevante o atual técnico da seleção brasileira, Tite, que já desembolsou R$ 60 mil para a construção da cozinha industrial dois anos atrás e recentemente depositou uma nova quantia para que o projeto não parasse por conta do pagamento dos salários dos funcionários do ônibus.

O importante é chegar até quem necessita

Nos quase dois anos de existência do ônibus encantado de Tinga, muitas ações foram feitas, muitas mudanças também.

No início, o veículo circulava pela centro de Porto Alegre distribuindo cerca de 300 refeições por dia.

Hoje, depois da fase mais dura da pandemia do novo coronavírus, o ônibus fica estacionado durante a semana na escola de samba Estado Maior da Restinga, onde oferece 170 refeições para as pessoas mais necessitadas do bairro, além de aulas de reforço escolar para as crianças e cursos de alfabetização para moradores de rua.

Aos finais de semana, o veículo sai com os funcionários e voluntários para distribuir 300 marmitas para moradores de rua, inclusive, para dependentes químicos que vivem na “cracolândia” gaúcha, situada no centro da cidade.

Um domingo no ônibus

Nossa reportagem teve a oportunidade de acompanhar a ação social durante um domingo dentro do ônibus. Da Restinga seguimos pelas ruas do centro de Porto Alegre.

Vimos um imenso número de pessoas em situação de risco. São muitos cidadãos que perderam o emprego, a casa, o alimento... São trabalhadores que perderam tudo.

Centenas de brasileiros que foram morar na rua por não terem opção.

Nesse caminho triste pelo qual passamos vimos de tudo. Senhores, senhoras, crianças, adolescentes, pais de família, pessoas praticamente jogadas na rua como se fossem animais prestes a enfrentar esse mundo ainda mais selvagem.

No ônibus estavam nomes importantes para a cidade: Tinga, com a esposa Milene e o amigo de infância, hoje coordenador do Projeto, Sandro.

Com eles aprendemos um pouco do espírito de compaixão que eles levam para as ruas e para seus moradores. Me senti orgulhoso de ver brasileiros tão dedicados à humanidade.

Com eles, também me senti envergonhado, pois aprendi e entendi que posso fazer muito mais pelo próximo do que, apenas contar histórias, posso sim me dedicar, com ou sem dinheiro, aos seres humanos que muitas vezes só precisam de uma palavra de carinho, um abraço e uma oportunidade.

Afinal, somos ou não somos todos iguais?