Quem gostou de assistir ao PSG 5 x 4 Bayern de Munique, pela quantidade de gols marcados e chances criadas, pode se encantar por um pequeno e tradicional time neerlandês que se tornou sensação na Eredivisie.
Ao leste dos Países Baixos, a equipe com o sétimo maior orçamento do campeonato holandês (53,5 milhões de euros) está perto de terminar a competição no G-4 pela primeira vez em sua história. É o NEC Nijmegen.
Fundado em 1900, o tradicional clube que sempre alternou entre participações na elite e divisões inferiores do futebol neerlandês ganhou destaque – tanto quanto o campeão PSV – por seu estilo ofensivo e intenso de jogar.
Para entender como funciona o NEC Nijmegen de Dick Schreuder, o ESPN.com.br conversou com Danilo Pereira, centroavante brasileiro que joga pelo atual quarto colocado da Eredivisie.
“Eu assisti a um jogo antes de assinar com eles, quando ganharam de 3 a 1 do AZ, fora de casa. Eu assistindo ao jogo e pensava: caramba, mano, se alguém aqui tiver um ataque de coração... Não tem como assistir esse jogo, não”, contou Danilo, que tem passagens nas base de Santos e Corinthians, dando leves risadas.
Os números do NEC na Eredivise impressionam: 2º melhor ataque (75 gols), 2º em grandes chances (105), 2º com mais posse de bola (56.5%), 3º com mais finalizações no gol por jogo (6,5) e 2º em dribles certos por jogo.
No pontapé inicial e em uma figura geral do jogo, é possível dizer que o time é armado em um 3-4-3. Com a bola rolando, porém, a história é outra: ataque, ataque e ataque. A orientação é clara, ninguém guarda posição, todos (até mesmo os zagueiros) são incentivados a irem para frente.
“Eles vão tudo para frente, deixa um contra um na zaga, um espação, e o goleiro vai para frente também (fazer a saída alta). Eu fiquei impressionado. É um ataque gera risco, mas você tem a possibilidade de, se recuperar a bola, fazer o gol rápido. Para mim é algo muito novo também, estou me adaptando. É muita emoção mesmo, até para a gente”, disse Danilo.
No NEC de Schreuder, é comum vermos jogadores totalmente fora de suas posições de origem. O zagueiro pela direita, por exemplo, tem total liberdade para abrir o jogo e realizar uma corrida ao ataque para gerar espaço e confusão na marcação.
O atacante adversário vai acompanhar o zagueiro? Quem vai acompanhar o ala-esquerdo quando ele cair pelo meio? As movimentações são constantes e caóticas. O caos, porém, é controlado.
“Praticamente toda vez que chega no final do jogo, pode ver que está muito caótico, muita doideira, mas a gente consegue se entender, saber cada posição, qual o melhor posicionamento de cada um para estar no lugar certo”, afirma Danilo.
A ideia do Nijmegen de Schreuder é sobrecarregar o campo de ataque - veja exemplo na foto abaixo, uma cena comum em jogos da equipe. Nenhum time da Eredivisie, nem mesmo o PSV (com valor de mercado de 283 milhões de euros), trocou mais passes no último terço do campo do que o NEC. Além disso, nenhuma equipe roubou mais bolas no campo de ataque.
“Ele deixa a gente muito livre. No treino, a gente faz muito um contra um, mas também, quando fazemos um coletivo, tem vezes que viro zagueiro. Eu tenho que marcar o zagueiro que sai lá da zaga para o ataque, e eu tenho que sair lá do meu ataque para defender. Cada um vai com o mano a mano”, comentou.
Danilo explica que para além das orientações táticas, de quais movimentos fazer, quais espaços ocupar, o treinador do NEC entende e também incentiva a improvisação de seus jogadores, absorvendo a imprevisibilidade de um jogo.
“O treinador fala muito para acreditarmos em nós mesmos. Se cada um estiver na posição certa, no lugar certo, a gente pode tirar o melhor de nós. Para mim é muito novo. Quando cheguei, explicava para ele que meu antigo treinador falava isso, aquilo, mas com ele é totalmente diferente”, disse.
Como era de se imaginar... ao mesmo tempo em que ocupa o ataque adversário, o NEC concede muito espaço para os contra-ataques. Aí vem a emoção.
Seus números defensivos condizem mais com a parte de baixo da tabela. Ao todo, a equipe sofreu 52 gols – mais que sete clubes que estão entre os dez primeiros – e passou apenas cinco partidas sem ser vazado.
Ao todo, 13 jogos do NEC na Eredivise tiveram cinco gols ou mais. A recompensa é alta, e o risco também. Os jogos contra o PSV evidenciam bem o "Schreuder way".
No primeiro turno, derrota em casa, por 5 a 3. Já no segundo turno, porém, vitória por 3 a 2. Esse foi o mesmo placar da história classificação à final da Copa da Holanda, quando o time de Nijmegen eliminou a equipe de Eindhoven na semifinal.
A ofensividade do NEC transformou a tranquila Nijmegen em um novo polo do futebol neerlandês, trazendo uma certa nostalgia do “Futebol Total”. A última partida da temporada será neste domingo (17), às 9h30 (de Brasília), contra o Go Ahead Eagles.
Se permanecer na quarta posição, o NEC garante uma vaga na segunda rodada da Europa League. Caso suba uma colocação, vencendo e contando com tropeço do Twente, a equipe de Nijmegen garante vaga na terceira fase da Champions League.
