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A nova seleção de Dunga: como o capitão do tetra luta contra a fome e a miséria da pandemia

Dunga agora cuida das pessoas carentes em Porto Alegre com a Seleção do Bem 8


Não é de hoje que o ex-técnico da seleção Dunga realiza trabalhos sociais relevantes junto à sociedade gaúcha.

Desde quando foi jogar na Itália, pela Fiorentina e depois pelo Pescara, o ex-camisa 8 foi apresentado às obras do terceiro setor. Foi lá que Dunga descobriu a importância de um ídolo do futebol nas vidas de cidadãos vulneráveis.

Ações que já foram colocadas em prática um ano antes da campanha vitoriosa do tetracampeonato conquistado nos Estados Unidos. Dunga lembra que a primeira aconteceu ao lado do companheiro de seleção Claudio Taffarel. Depois com Paulo Falcão e, daí pra frente, nunca mais saiu.

São milhares de ações sociais nesses últimos quase 30 anos.

Uma das que mais o orgulha nasceu em 2001, no violento bairro da Restinga, onde moram mais de 100 mil habitantes.

A reportagem dos canais ESPN esteve no início do Projeto Esporte Clube Cidadão, um espaço que atende mais de 200 crianças no contra-turno escolar. O projeto, que conta com a parceria da ACM (Associação Cristã dos Moços) e da prefeitura de Porto Alegre, também oferece, além do reforço escolar, aulas de informática, oficinais de arte e culinária e muitos cursos profissionalizantes para os adolescentes e mães vulneráveis do gigantesca vila, situada no extremo da zona sul da capital portoalegrense.

Só por esse projeto social, o jogo de Dunga nessa área tão esquecida pelo poder público já estaria ganho, mas o capitão do tetra sempre quis mais.

Convocando uma nova seleção

Acostumado a liderar jogadores dentro e fora do campo, Dunga não se entregou quando a pandemia chegou. Inquieto e incomodado com as mazelas sociais, num certo dia, numa conversa com a filha Gabriela Verri, surgiu uma ideia que lhe preencheria o vazio que o futebol lhe deixou desde que saiu da seleção brasileira, há 5 anos e meio.

A Seleção do Bem 8 surgiu na pandemia. Enquanto todo mundo estava fazendo o desafio do papel higiênico, de dar balãozinho, minha filha falou: 'vocês já têm o trabalho social aqui, por que não usam isso para ajudar as pessoas necessitadas na pandemia?' Aí, num jantar que a gente faz todas as quintas-feiras no grupo do futebol, lá no Jardim Verde, a ideia foi se aprimorando e as ações foram surgindo naturalmente”, contou o também capitão da Seleção do Bem 8.

Assim Dunga agregou, além dos amigos do futebol, profissionais de diversas áreas. A mobilização trouxe uma equipe determinada a amenizar o sofrimento da população carente de Porto Alegre.

Como fez em todos os projetos nos quais participou, Dunga não pede dinheiro, muito menos coloca grana do bolso para a realização prática de suas ações. Ele usa de sua imagem, construída em mais de 20 anos como jogador e outros 10 como técnico, para atrair investidores sociais em seus projetos.

Com o time em campo, Dunga e seu selecionado tem feito coisas que não são comuns na área social, como por exemplo construir e reformar casas nas comunidades carentes de Porto Alegre.

Acompanhamos uma visita na comunidade Cai-cai, onde a Seleção do Bem reconstruiu a casa de uma babá e de seus três filhos pequenos.

Acompanhamos também uma visita do grupo à escola pública Neusa Brizola, onde o grupo do ex-jogador reformou e pintou praticamente a escola inteira, por dentro e por fora. Por lá, a Seleção do Bem conta com uma professor, uma espécie de anjo da guarda das crianças e familiares do bairro. A professora faz o levantamento das necessidades das crianças e de seus familiares para que a Seleção do Bem abasteça a todos com roupas, cestas básica, remédios e até casas que são reformadas ou construídas.

O amigo e construtor Lauro Pacheco, parceiro de projeto, traduz bem o sentido desse trabalho social que já passa de um ano e meio, desde o furacão da pandemia até os dias atuais.

“Eles precisam de uma doação, mas a gente precisa muito mais doar”, disse Lauro.

Dunga não se limita a colocar apenas a sua imagem como credencial dos projetos sociais, pelo contrário! Vai às ruas e arregaça as mangas carregando e descarregando caixas de frutas e verduras do CEASA, distribuindo alimentos e cobertores para os moradores de rua e até botando a mão na massa na cozinha.

“Tu fazer a comida com prazer e o melhor prazer é ver as pessoas comendo com prazer, né. Às vezes o cara fala: 'Pô essa comida está boa, hein. Báh, como é boa essa comida, hein.' E com isso o teu coração fica alegre, né”, desabafou Dunga.

Novas e velhas referências

Além das lições que recebeu na Itália, quando ainda era jogador, Dunga contou com velhos parceiros que sempre estiveram ao seu lado, desde as ações mais simples até as mais complexas, como foi a construção do Projeto Esporte Clube Cidadão, na Restinga.

Dunga tem a gratidão pelo bairro desde quando chegou ao Inter, em 1980. Para ganhar um dinheirinho extra, ele sempre ia à Restinga para jogar na várzea, além de ter o carinho do sogro pelo local, onde foi fiscal durante anos.

Por lá Dunga também trouxe um parceiro, oriundo da região e vencedor no futebol: Tinga. Ou melhor: Paulinho saiu de lá pra conquistar o mundo e até hoje é um parceiro de muitas ações que acontecem naquele local.

Antes de Tinga, Dunga contou com um casal primordial em suas ações. O saudoso advogado, procurador, empresário e assessor, Juarez Rosa e sua esposa, a assistente social aposentada Bernadete Cunha. Parceiros que há mais de 25 anos vestem as camisas dos projetos que vem transformando as vidas de milhares de pessoas da periferia de Porto Alegre.

Bernadete, até hoje faz parte do “núcleo duro” da vida do ex-comandante da seleção brasileira, hoje líder da Seleção do Bem.

“Ele não costuma dar as coisas, ele costuma captar recursos e proporcionar a quem merece e a quem valoriza. É aquela velha história: ele não dá o peixe, ele ensina a pescar”, contou Bernadete.

Dunga não faz vistas grossas à miséria que está, cada dia mais latente aos nossos olhos. Pelo contrário: vai para as ruas, ouve a população carente e tenta entender quais são as demandas de cada um.

No projeto a Seleção do Bem 8, vira e mexe oferece matéria prima para que as mulheres da comunidade possam trabalhar em casa, adquirindo uma renda com os produtos feitos nas próprias residências, como já ofereceram ovos, farinha e até fogão industrial para que senhoras pudessem fazer pães para vender.

E que esse exemplo possa ser desenvolvido por outros tantos ídolos do esporte nacional, que muitas vezes querem fazer algo, mas não sabem o caminho.

“A pandemia veio para a sociedade abrir os olhos, né. A gente não vive sozinho. Nós não somos felizes sozinhos, porque não adianta eu ser feliz e olhar pela janela e ver as pessoas não terem comida, sem casa, sem escola, sem banheiro, pô. Desse jeito não tem como eu ser feliz”, finalizou Dunga.

Pé atrás com a imprensa

Dunga não está mergulhado nos projetos sociais para aparecer na mídia, muito menos para se candidatar a cargos eletivos.

Para fazer esta reportagem, por exemplo, tivemos que mandar dezenas de mensagens para que ele topasse receber a nossa equipe. O capitão do tetra ainda não conseguiu confiar e acreditar em jornalistas. Isso desde que foi bombardeado com o apelido “Era Dunga” como jogador e depois como técnico da seleção.

Razões para alimentar essa desconfiança até hoje não faltam. Tudo é motivo para pegar no pé de um cara que, aparentemente, é carrancudo e ranzinza. Desde a não escalação de um jogador, quando era técnico da seleção, passando pelas roupas que sua filha desenhava para o pai, até as coletivas, sempre polêmicas por parte do ex-técnico como da própria imprensa.

É sempre bom lembrar que Dunga, além de capitão do tetra, foi também vencedor por praticamente todos os times pelos quais passou. Foi e é respeitado na Alemanha, Itália, Japão e nos grandes times do Brasil.

Seus conhecimentos em mais de duas décadas como jogador e outros 15 anos como técnico não podem ser desprezados, muito menos desrespeitados por intermédio de comentários desrespeitosos e carregados de preconceito. Afinal, Dunga fez e faz história. Fez e faz a diferença na vida de muitos brasileiros.

Portanto, antes de criticar e sair atirando pedra, é bom a gente refletir o que temos feito, não só pelo esporte, mas principalmente pela humanidade.

Até quando esse grande personagem do futebol e da nossa história terá que aturar tanta agressão, em vez de o mínimo de aplauso?

Até quando?