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Corinthians, 30 anos de 90: 'Pulmão da Fiel' sofria com bronquites e assustou são-paulino ao quebrar tijolos com carrinho na final

Não foram poucas as vezes que Márcio Bittencourt foi questionado se ele corria por ele e por Neto em 1990. Aquele foi o ano do primeiro título brasileiro do Corinthians, que completa 30 anos na quarta-feira (16), e o ex-meia era o craque e também o artilheiro do time.

“Até hoje eu tenho uma dor nas costas por causa de um bico de papagaio chamado Neto. E ele me fala até hoje que, se não fosse eu para correr por ele, a gente não tinha ganho o título”, brinca o ex-volante.

Márcio era um dos tantos "carregadores de piano” do time do técnico Nelsinho Baptista. Somente assim para que Neto pudesse brilhar nas bolas paradas e na criação de lances sem se sacrificar fisicamente. E funcionou: o camisa 10 fez nove dos 23 gols da equipe, cinco de falta.

Natural de São José dos Campos, interior de São Paulo, Márcio é cria do terrão do Parque São Jorge, onde chegou em 1981 por intermédio de Adílson Monteiro Alves, diretor de futebol da Democracia Corinthiana e pai do próximo presidente, Duílio Monteiro Alves.

Em 1990, ele orgulhava-se de dizer que era o mais velho do clube, embora fosse jovem (tinha 26 anos). A dedicação em campo o transformou em ídolo da torcida, o “Pulmão da Fiel”, embora quase ninguém soubesse de um grave problema respiratório.

“Fui uma criança difícil. Tive edema cerebral de pequeno, meningite. Na realidade, não era para eu ser jogador de futebol nunca. Ainda mais com uma alergia no pulmão. Você, para ser um atleta de alto nível, precisa correr muito, se dedicar muito”, diz Márcio.

“Quando essa alergia respiratória atacava, se fosse dois ou três dias antes de jogar, dava para me preparar e entrar em campo, mas, se fosse antes de uma partida, dificilmente eu jogava”, prossegue.

Por causa das dificuldades respiratórias, Márcio carregou durante boa parte da adolescência uma bombinha de ar no bolso do short de treino e foi o primeiro jogador da história do Corinthians autorizado a usar as piscinas do parque aquático do clube social para tratar o problema.

“Na piscina, eu ficava abaixa, sobe, sopra, vai, volta. Sabe criança que tem bronquite? Me davam um canudinho com uma bexiga na frente para eu soprar. Tinha aquelas bolinhas [dentro de um tubo] para soprar até ela subir. Era muito chato, mas só assim para poder jogar”, disse.

Márcio fez todo o tratamento na juventude sem usar qualquer medicação. Por incrível que pareça, o efeito alcançado superou a expectativa. Fez com que ele conseguisse administrar melhor o ar dentro dos pulmões e ter mais fôlego.

“Depois que passei a jogar alto nível, a partir dos meus 25 anos, nunca mais me afetou. Até hoje, nunca mais. Houve a dilatação do pulmão. Acho que eu tenho um litro e pouco a mais do que as pessoas normais. Inclusive, o doutor Osmar de Oliveira, em um dos livros, comentava sobre isso: ‘Como pode uma pessoa que tem uma deficiência respiratória ser um atleta de alto rendimento?’”, diz, orgulhoso.

A prova de que o problema não o afetou fisicamente foi a própria campanha no Campeonato Brasileiro de 1990. Além de "correr por Neto", ele atuou em 18 dos 25 jogos do time no torneio. Nas finais foi responsável por anular Raí, o craque do São Paulo.

Foi tão eficaz que deixou o experiente Telê Santana, técnico rival, irritado e acusando o corintiano de “antijogo”. De fato, Márcio era um volante que não perdia viagem. Brigava por toda a bola. Até lembrou uma história curiosa daquela final.

“Na lateral do campo do Morumbi, perto do banco de reservas, tinha uns tijolos não na vertical [...] E eu tinha dado um carrinho, pego a bola e os tijolinhos. Acabei batendo as travas da chuteira neles e acabou quebrando alguns", diz.

"Aí seu Telê falou: ‘Muller, pega a bola e vai pra cima do Márcio’. O Muller olhou e falou ‘Seu Telê, eu não vou não porque ele é louco. Pega a bola e vai o senhor pra cima. Olha lá o que ele fez com os tijolos. Ele vai fazer isso com a minha canela’”, lembra, aos risos.

O Corinthians venceu o São Paulo duas vezes por 1 a 0 e foi campeão no Morumbi, em 16 de dezembro de 1990. O que poucos sabem é que Márcio terminou o segundo jogo como capitão. A faixa veio depois que Neto foi substituído por Nelsinho.

Mesmo assim, o volante não achou justo levantar a taça de campeão, que aliás foram duas. Uma era a famosa Taça das Bolinhas, ainda com posse transitória. A outra um troféu especial para a edição de 1990, este com mais de 70 cm de altura.

“Nada mais justo do que o Neto levantar, né? O cara fez gols que é brincadeira e nos ajudou pra caramba. Eu nunca tive essa vaidade. E aquele troféu [pesado] o time inteiro levantou. Nosso time era muito humilde, muito operário”, diz.

Márcio foi eleito na época como um dos melhores jogadores do Corinthians nas duas partidas finais contra o São Paulo. Foi uma verdadeira "parede" na marcação do meio de campo, o jogador que mais correu e terminou a final com a camisa manchada de sangue.

No entanto, das histórias que Márcio diz nunca esquecer daquela conquista, que ficaram preservadas nos bastidores, está uma na semifinal do campeonato contra o Bahia, na Fonte Nova, em Salvador.

“Conforme nosso ônibus foi entrando no estádio, jogaram um paralelepípedo em cima. Você imagina o impacto! Aí entramos dentro do estádio, mas antes de descermos pro vestiário alguém da comissão técnica foi primeiro. Acho que foi o massagista Carlinhos. Ele voltou e conversou com o Nelsinho e aí começou um entra e sai do vestiário, e a gente não podia passar”, diz.

“Como mais velho de clube, eu desci e fui atrás. Vi pratos, comidas, frutas, farofa. Nelsinho com medo do time ver aquilo, acabou dando uma bicuda em tudo. Voou farofa, fruta… Meu Deus! Foi um salseiro no vestiário. Aí ele pegou seu Miranda, o pessoal da segurança e mandou uma limpeza geral. Quando entramos não tinha nada. Estava tudo normal”, diz, aos risos.

O Corinthians empatou sem gols com o Bahia e se classificou à final por ter vencido o jogo anterior da semifinal, no Pacaembu, em São Paulo, por 2 a 1. Nas quartas, já havia eliminado o Atlético-MG, então favorito à taça, com vitória no Pacaembu e empate no Mineirão.

A campanha do primeiro título brasileiro do clube do Parque São Jorge foi, como disse Márcio, marcada por um time operário, com dedicação total. No total, foram 12 vitórias, oito empates e cinco derrotas, Foram pouco gols sofridos (20) e feitos (23).

Trinta anos depois, Márcio continua no Corinthians. Trabalha como coordenador da base e convive com a idolatria dos pais de tantos garotos que treinam no Parque São Jorge. "Quando eles veem meus vídeos no YouTube, eles dizem 'Pô, cê batia hein!'", diz, aos risos.