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Tupãzinho relembra gol do título do Corinthians em 1990 e dia seguinte em Febem para 'manter humildade'

Assim como Basílio e Paolo Guerrero, Tupãzinho está eternizado na história do Corinthians como um dos artilheiro das “goleadas” por 1 a 0 em finais. De carrinho, após rebote da defesa do São Paulo, ele marcou o tento que assegurou a vitória e o título brasileiro de 1990.

Naquela conquista, que completa três décadas nesta quarta-feira (16), Tupãzinho tinha 22 anos de idade e menos de um ano de Parque São Jorge. Morava de aluguel em um prédio perto da sede do clube, dirigia um Escort, carro popular, e tinha um dos menores salários do elenco.

O herói daquele título era e ainda é uma figura humilde e bastante modesta. Mesmo 30 anos depois de ser campeão, ao falar sobre o gol e o momento mais glorioso da carreira, prefere citar outros nomes à frente do próprio.

“Tínhamos pessoas conosco nas vitórias e nas derrotas. Diretores como Nenê [do Posto, apelido de Carlos Roberto Auricchio, do futebol], [o presidente] Vicente Matheus, uma pessoa que você podia escrever o que ele falava, os membros da comissão técnica, como [o técnico] Nelsinho Baptista, [o preparador físico] Flávio Trevisan, [o preparador de goleiros] Aguinaldo Moreira, [os roupeiros] Miranda e Nezinho”, diz.

“A gente nem campo tinha para treinar. Às vezes, usava o Parque São Jorge, outras o Terrão. Ou treinava em um campo em Arujá ou em Santa Isabel. Foi um título suado e cada um tem sua parcela de contribuição”, completa Tupãzinho, recusando o termo “herói".

Há ainda duas histórias curiosas sobre como o então atacante lidou com a conquista nos dias seguintes ao feito. Nada de festas ou saídas glamourosas. Programas de televisão? Também não. Tupãzinho era uma pessoa simples, com uma vida simples.

Na segunda-feira, menos de 24 horas após a conquista, acordou cedo e foi até uma oficina mecânica para fazer um ajuste no Escort. Dois dias depois, fez uma visita a Febem (desde 2005 Fundação Casa), no Tatuapé, na Zona Leste da cidade.

“Vir aqui faz com que a gente mantenha a humildade”, disse Tupãzinho, 30 anos atrás, em depoimento ao jornal “O Estado de S. Paulo”. “Acho que a presença do ídolo faz bem aos garotos”.

“Eu lembro que eu fui [até a Fundação Casa]. Não lembro se foi mais alguém, mas antes de acontecer isso a gente já ia aos hospitais, ao Hospital do Câncer, às vezes na casa de uma pessoa que estava debilitada. Era uma visita para conversar, levar uma camisa. Isso já vinha acontecendo durante o campeonato, com o título houve divulgação e um destaque [da imprensa] para isso. Eu, Fabinho, Wilson Mano, Marcelo... Era sempre a gente que ia fazer essas visitas”, disse Tupãzinho, 30 anos depois.

O que ele esqueceu, mas está registrado na reportagem do jornal, é que Neto também era esperado na Febem, mas “deu o cano” e sumiu no dia da visita. Nada que tenha prejudicado a programação. Tupãzinho conversou, distribuiu camisas e jogou bola com os garotos e as garotas.

Aos 52 anos, Tupãzinho treina a equipe do Tupã na Segunda Divisão do Campeonato Paulista, que corresponde à última série do Estado, com um elenco formado na maioria por jovens de até 23 anos. E leva a eles os exemplos de 1990, como a visita à penitenciária em 1990.

“Às vezes, essas crianças não tem oportunidade e vão para o lado errado. Hoje, eu trabalho com jogadores até 23 anos e sempre passo para eles não entrarem numa coisa errada nem procurar droga nem beber, roubar. Se você faz coisa errada, só vai vir coisa errada”, diz.

Um gol improvável

Tupãzinho gosta de lembrar que chegou ao Corinthians como contrapeso na contratação do zagueiro Guinei, seu companheiro no São Bento. Foi apresentado em janeiro daquele ano pelo presidente Vicente Matheus, cartola famoso por ser “mão de vaca”.

“Seu Vicente tinha um método de trabalhar e não contratava jogadores a preço de ouro. Quem quisesse jogar no Corinthians aceitava aquilo e pronto. Ao chegar ao Parque São Jorge, eu já assinei o contrato sem saber quanto ia ganhar”, diz o ex-camisa 9.

O Corinthians do início da temporada em nada se parecia com o que terminou campeão. Nem tanto pelos nomes no elenco, mas sim pela comissão técnica. Iniciou o ano com Basílio, o herói do título de 1977 e teve depois o ex-pugilista Zé Maria antes de Nelsinho Batpista.

No Estadual, o time perdeu apenas na estreia, mas a campanha sem qualquer outra derrotada, que valeu a conquista da Taça dos Invictos, prêmio entregue pelo jornal “A Gazeta Esportiva”, não foi suficiente para que o Corinthians chegasse à final. O time empatava muito e vencia pouco (16 vitórias, 18 empates e uma derrota em 35 jogos). A final foi entre Novorizontino e Bragantino.

Aliás, 1990 foi um ano em alta para o futebol caipira. Do time titular campeão brasileiro no Corinthians, apenas Ronaldo, Marcelo, Jacenir e Fabinho não eram do interior paulista. Os dois primeiros nasceram em São Paulo. O terceiro no Rio de Janeiro e o último em Santo André.

Giba, único que já morreu, era de Cordeirópolis, Guinei de Sorocaba, Márcio de São José dos Campos, Wilson Mano de Auriflama, Neto de Santo Antônio de Posse, Mauro de Ipaussu e Tupãzinho de Uchoa.

“Mas a gente não tinha ideia de ser campeão. Tínhamos time para não cair, com elenco reduzido. Mas começamos a crescer no campeonato e a gente queria era classificar entre os oito. E quase que não classificamos porque perdemos o último jogo para o Internacional, no Pacaembu, e depois com resultado de outros clubes acabamos classificando. Dali começou a euforia para tirar o Atlético-MG, que era favorito. E quando eliminamos o Atlético-MG sentimos que dava para chegar mais longe”, lembra Tupãzinho.

O atacante autou em 24 dos 25 jogos do time naquele ano. Ficou fora apenas do confronto com o Náutico. E a única partida em que não foi titular foi diante do Vitória, ainda no início da campanha.

Até o segundo jogo da final, ele tinha feito apenas dois gols. Usava a camisa 9, mas não era exatamente um artilheiro. Tinha outras prioridades dentro do esquema de jogo determinado por Nelsinho Baptista.

“Nunca passou pela minha cabeça que eu ia fazer o gol. Eu marcava mais, deixava o Neto na minha frente e o Fabinho pela beirada. Jamais esperava fazer o gol da final. Aconteceu a jogada, eu dei uma caneta no zagueiro do São Paulo e passei para o Fabinho. Até achei que ele marcaria e já fui pra comemorar. O Fabinho acabou chutando, a bola pegou no Cafu e sobrou na minha frente e a única coisa que pensei foi em dar um carrinho. Cheguei na frente do Cafu e consegui colocar a bola no gol. Mas não tinha esse pensamento [de marcar e ser o herói]. Só depois que sai do jogo, daquela euforia toda, que a torcida invadiu o Morumbi e eu sai só de sunga, foi que caiu a ficha”, diz.

Sempre que encontra algum torcedor do Corinthians, Tupãzinho é abordado para relembrar o gol no São Paulo. O curioso é que a maioria dos fiéis alvinegros acabam traídos pela própria memória.

“Até hoje sou reconhecido pelo gol que fiz na final, mas muitos lembram de mim como o Talismã da Fiel. Os caras ainda pensam que eu entrei naquele jogo, que eu fiz o gol no segundo tempo saindo do banco, mas eu era o titular”, diz o ex-jogador.

Talismã da Fiel foi o apelido que ele ganhou a partir de 1992, quando virou “titular do banco”, isto é, era o reserva que entrava todo jogo, e geralmente ajudava a mudar a história das partidas. Por isso, Talismã.

Parabéns ou obrigado?

De 16 de dezembro de 1990 até hoje, a palavra que o ex-jogador mais escuta dos torcedores é “obrigado”.

Hoje, com o Corinthians ostentando sete Campeonatos Brasileiros, três Copas do Brasil, dois Mundiais de Clubes, uma Copa Libertadores, uma Recopa Sul-Americana, entre outras taças, pode parecer exagero. Mas em 1990 o clube tinha taças apenas no âmbito regional.

Conquistar o título da principal competição do país era uma busca semelhante a da Copa Libertadores a partir do final dos anos 1990. Afinal, todos os rivais já tinham tido o gostinho, considerando até as disputas da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa.

O Corinthians já tinha passado perto, com o vice em 1976 e as tentativas no período da Democracia Corinthiana.

“Até hoje o pessoal fala ‘Obrigado’, ‘Valeu', 'Vocês foram demais naquele ano’ porque na realidade ninguém acreditava que nosso time ia chegar. Foi assim acontecendo. O time foi crescendo de tal maneira. Não tinha vaidade. A equipe terminava os 90 minutos esgotada. E é muito gostoso, 30 anos depois, ser lembrado, estar na história do clube com meus companheiros” encerra.