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Goleiro que levou gol da 'Mano de Dios' escreve sobre Maradona: 'Tinha grandeza, mas não espírito esportivo'

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'Herói, vilão, trapaceiro e gênio': como Inglaterra reagiu à morte de Diego Maradona (3:11)

O craque não resistiu a uma parada cardiorrespiratória sofrida na casa da filha dele, no bairro Vila Nova, zona metropolitana de Buenos Aires, neste 25 de novembro. (3:11)

Peter Shilton era o goleiro da Inglaterra em uma das mais icônicas atuações de Diego Armando Maradona, nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986. Um dia após a morte do craque da Argentina, o arqueiro mostrou que ainda guarda mágoa pela “Mano de Dios”.

O lance foi definido pelo próprio craque argentino, que morreu nesta quarta-feira (25), aos 60 anos. Maradona brincou com o fato de ter colocado a mão na bola para vencer Shilton, mas a arbitragem nada marcou. “Aquilo não foi correto”, escreveu o ex-goleiro.

Pouco depois, Maradona ainda marcaria um dos gols mais bonitos da história dos Mundiais, arrancando ainda do campo de defesa e driblando quase todo time rival – incluindo Shilton. “Sem o primeiro gol, ele não teria marcado o segundo”, opinou o inglês.

Leia abaixo o texto escrito por Shilton no jornal “Daily Mail”:

Minha vida há muito está ligada à de Diego Maradona - e não da maneira que eu gostaria. Mas estou triste ao saber de sua morte tão jovem. Ele foi, sem dúvida, o melhor jogador que já enfrentei e meus pensamentos estão com sua família.

Achamos que estávamos prontos para Maradona naquele dia de 1986, na Cidade do México. As quartas-de-final da Copa do Mundo contra a Argentina era o maior jogo que muitos daquela seleção da Inglaterra haviam feito, e ele era o jogador mais perigoso.

Não havia planos especiais, nenhuma marcação homem a homem. Apenas dissemos que iríamos observar suas corridas para tentar cortá-lo e não deixar que ele chegasse em velocidade. Por quase uma hora isso funcionou.

Nenhum de nós esperava o que aconteceu a seguir. Como poderíamos? Disputamos uma bola pelo alto, mas ele sabia que não conseguiria cabecear, então deu um soco. Uma falta clara. Trapaça.

Ao correr para comemorar, até olhou para trás duas vezes, como se esperasse o apito do árbitro. Sabia o que tinha feito. Todo mundo sabia, exceto o árbitro e dois bandeirinhas. Não me importo com o que digam, isso decidiu o jogo para a Argentina. Ele marcou o segundo quase imediatamente, mas ainda estávamos nos recuperando do que acontecera minutos antes.

Pela primeira vez no jogo, deixamos que ele corresse. E ele marcou. Foi um grande gol, mas não tenho dúvidas: sem o primeiro gol ele não teria marcado o segundo.

Isso me incomodou ao longo dos anos. Não vou mentir sobre isso agora. As pessoas dizem que eu deveria ter afastado a bola de qualquer maneira, que deixei um homem menor me superar. Isso é bobagem. Ele correu para cima de mim, mas isso pode acontecer.

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Mas ele não teria socado a bola se soubesse que poderia cabecear, não é? Claro que não. Então estou bem com tudo isso. Não, o que não gosto é que ele nunca se desculpou. Em nenhum momento disse que havia trapaceado e que gostaria de pedir desculpas. Em vez disso, ele usou sua frase 'Mão de Deus'. Isso não estava certo.

Parece que havia grandeza nele, mas infelizmente nenhum espírito esportivo.

Ao longo dos anos, houve algumas tentativas de colocar nós dois juntos na mesma sala.

Minha abordagem era sempre a mesma: ficaria feliz em fazer isso se achasse que ele iria se desculpar. Teria apertado sua mão. Mas nunca recebi qualquer sinal de que isso aconteceria.

Uma vez fui convidado para ir a um programa com ele na Argentina. Mas, novamente, não parecia certo. Achei que tudo não passaria de um truque, então fiquei distante e acho que tomei a decisão certa. Gary Lineker foi até lá algum tempo depois por causa para alguma coisa na TV, mas sempre que pensava que iria se encontrar com Maradona, ele nunca aparecia. Não fiquei surpreso.

A maior parte da seleção inglesa que jogou no México se sente como eu até hoje.

Não fui apenas eu quem foi enganado, foi toda a equipe. Tivemos a chance de chegar às semifinais e talvez à final da Copa do Mundo. Com que frequência isso acontece?

Tive sorte. Minha chance voltou quatro anos depois, mas outros não tiveram a mesma oportunidade.

Lembro-me do nosso vestiário depois do jogo. Foi muito desolador.

Bobby Robson, nosso treinador, entrou. Ele ficou lá e olhou para nós.

“Ele manipulou aquilo, não foi, rapazes?”, disse. “Ele fez isso, não foi?”.

Nós apenas dissemos que sim. Ele balançou a cabeça, se virou e saiu.

Algum tempo depois, surgiram fotos de Maradona em férias na Tunísia. Ele estava abraçando o árbitro. Eles estavam rindo. Como o árbitro pôde fazer isso depois do que aconteceu?

Acho que foi tudo isso deixou um gosto amargo. No campo de futebol, os jogadores fazem coisas que talvez não devessem fazer. Acontece no calor do momento. Mas se fosse alguém da nossa seleção inglesa, gostaria de pensar que teria admitido depois.

Espero que isso não manche o legado de Maradona. Como eu disse, ele era realmente um grande jogador, ao lado de jogadores como Pelé.

Ele era um talento especial e é difícil acreditar que morreu com apenas 60 anos.

É estranho que ontem foi o 50º aniversário da minha estreia pela Inglaterra, contra a Alemanha Oriental, em Wembley.

No final das contas, fui lembrado por outra das minhas aparições pela seleção do meu país. Certamente é um jogo que jamais esquecerei.

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