Barcelona: as outras vezes em que Messi questionou os bastidores do clube

Quando o Barcelona foi goleado pelo Liverpool e caiu de forma traumática na Champions League 2019/20, Lionel Messi quebrou um período de quatro anos sem entrevistas coletivas e falou às vésperas da final da Copa do Rei – que o time também perderia naquela temporada.

Não foi por acaso: nos últimos tempos, nas vezes que o craque fala, é porque realmente tem algo a dizer. Na maioria das oportunidades, porque algo não vai bem... E, no momento atual do Barcelona, essas vezes tem sido cada vez mais constantes. A última, nesta quinta-feira.

"O Real Madrid fez o que precisava. Depois da pausa, não perdeu nenhuma, e isso tem muito mérito... Mas nós ajudamos muito para que eles levassem a liga. Temos que fazer uma autocrítica, começando pelos jogadores, mas que também deve ser algo global no clube."

A declaração veio depois que o Barcelona perdeu em pleno Camp Nou para o Osasuna, por 2 a 1, e viu o Real ser campeão de LaLiga. Quando Messi mirou em instâncias superiores, deixou recado também ao técnico Quique Setién. “Desde janeiro, tudo está horrível”, analisou.

Essa não foi a primeira vez que Messi deixou clara sua insatisfação. Ao menos em outras duas vezes recentes, o argentino disparou claramente contra a direção e mostrou que não lidera o Barcelona só em campo – tudo isso em meio a discussões sobre a renovação de seu contrato, sendo que o atual vai até julho de 2021 e a última informação é de que as conversas pararam.

O ataque a Abidal

Em fevereiro, pouco depois da demissão do técnico Ernesto Valverde, Messi fez uma de suas manifestações mais claras de descontentamento em todos seus anos de Barcelona. O astro não aceitou uma declaração de Eric Abidal, seu ex-companheiro e secretário técnico do clube.

“Acho que quando se fala dos jogadores, é preciso dar nomes. Senão, você está sujando a todos e alimentando coisas que se dizem e não são certas”, disparou ele, nas redes sociais, após Abidal dizer que “muitos jogadores não estavam trabalhando muito” com o ex-técnico.

“Os jogadores sabem o que acontece em campo, e somos os primeiros a reconhecer quando não estamos bem. Os responsáveis da área de direção esportiva também deveriam assumir suas responsabilidades e, sobretudo, assumir controle das decisões que tomam”, completou.

Jornais espanhóis chegaram a noticiar tensão entre Messi e Abidal também em um treino, clima que só foi tranquilizado depois de reuniões com o presidente Josep Maria Bartomeu.

Os salários e as ‘pessoas de dentro’

Em março, coube a Messi anunciar que os jogadores aceitaram a redução de 70% de seus salários como forma de amenizar os efeitos financeiros da pandemia do novo coronavírus. O problema é que, dias antes, notícias deram conta de que o elenco era contra a medida.

Como um dos líderes do elenco, Messi suspeitou de que “pessoas de dentro” do clube, como chamou, plantavam a informação nos jornais, como forma de pressão. No comunicado que acabou replicado por todos os atletas, o camisa 10 questionou abertamente a situação.

“Sempre fomos os primeiros a ajudar o clube quando nos pediu. Inclusive, muitas vezes fizemos isso por iniciativa própria, em momentos que sentimos que era importante”, escreveu. “Assim, não nos deixa de surpreender que dentro do clube há quem busque nos colocar sob suspeita e colocar pressão para que façamos algo que sempre deixamos claro que faríamos.”

As entrelinhas

Nem sempre também Messi é tão direto nas críticas, mas não deixa sem passar seus recados quando acredita que é o momento. Na “novela” que envolveu a contratação (ou a tentativa) para a volta de Neymar, algo que ele defendia, por exemplo, uma indireta à postura do clube.

"Ficaria encantado se Neymar viesse. Sinceramente, não sei se o Barça fez tudo o que é possível para seu retorno, mas é certo que negociar com o PSG não é fácil”, disse ele, em entrevista ao jornal “Sport” na qual também defendeu um “projeto ganhador” para a equipe.

Os recados tanto chegaram à direção que Josep Vives, porta-voz do Barcelona, teve que responder se as declarações não mostravam uma “queda de braço” entre Messi e o clube. "Não vemos, em absoluto, uma queda de braço de Messi com o clube por esta entrevista. A entrevista, em geral, é positiva. Ele expressa opiniões com argumentação e respeito", minimizou.

Desta vez, contudo, os impactos das declarações de Messi devem ser sentidos mais fortemente no Barcelona. O principal afetado deve ser Setién, que, na quinta, já falou em tom de despedida – um dia depois de dizer, antes da derrota, que se via no clube em 2020/21.

"Espero treinar o time na Liga dos Campeões, mas não sei se isso acontecerá", disse, antes de admitir que concorda com várias das críticas feitas por Messi sobre o time.

"Estou de acordo com algumas coisas. Temos que fazer uma autocrítica e melhorar, porque senão isso nos custará a eliminação na Champions. O que é certo é que tentei melhorar as coisas nos meses que estou aqui. Houve coisas que não deram certo, e outras coisas nós fizemos bem", afirmou.