<
>

Coutinho saiu por 'títulos grandes', foi tricampeão, mas Liverpool virou 'máquina' de ganhar; compare os feitos desde o 'divórcio'

Philippe Coutinho depois de Neymar. E como continuação de uma estirpe que marcou Romário, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho. Outro brasileiro contratado especialmente para apaixonar o Camp Nou e escrever seu nome com letras maiúsculas na história do Barcelona. Este era o plano, esta era a aposta estabelecida pelos dirigentes do clube azul-grená, quando em 7 de janeiro de 2018, por fim, contrataram o reforço mais caro da história do clube junto ao Liverpool. No entanto, nada aconteceu como estava previsto.

Trinta meses depois, Coutinho, recupera-se de uma lesão no tornozelo e espera o final de seu empréstimo ao Bayern de Munique sem saber qual será seu destino quando acabar a temporada. Ninguém se recorda dele no Barcelona, a não ser para contar o dinheiro que pode se recuperar de sua contratação, porque esportivamente já não é levado em conta. É a triste história de uma estrela que não brilhou.

Hoje Coutinho relembra Roberto Dinamite de 1980, não alcança a consideração que teve Giovanni em 1996 e tem menos espaço na recordação dos torcedores do que pode deixar Paulinho em apenas uma temporada. No entanto, é difícil, talvez impossível, falar de outro futebolista que, despertando tantas expectativas, acaba por ser tamanha decepção.

Entre Isco e Neymar

Estrela indiscutível do Liverpool desde sua contratação junto à Inter de Milão em janeiro de 2013 por US$ 15 milhões, o Barcelona fixou seus olhos nele no verão europeu de 2017 de uma maneira um tanto rocambolesca. O clube planejava meses antes a sucessão de Andrés Iniesta e o principal objetivo, endossado pelo secretário-técnico Robert Fernández, foi Isco, cujo contrato com o Real Madrid acabava em junho de 2018 e que até abril de 2017 tinha completado apenas cinco partidas na equipe merengue.

Tinha que esperar um ano para ele assinar e convertê-lo em um jogador de Luis Enrique, que chegou ao Camp Nou vindo do Santiago Bernabéu em uma transferência livre em 1996... Porém, de repente, Isco surgiu nos planos de Zinedine Zidane na reta final daquela temporada 2016-17, foi titular nas semifinais da Champions League contra o Atlético de Madrid, titular e chave na final diante da Juventus, e em plena euforia merengue ele acertou uma renovação muito vantajosa com o presidente Florentino Pérez até 2022.

Era necessário mudar o objetivo, e Coutinho, colocado na lista, passou de uma opção a uma urgência em agosto de 2017, depois que o Paris Saint-Germain pagou os US$ 252 milhões (222 milhões de euros) estabelecidos na cláusula de rescisão de Neymar. O golpe anímico nos escritórios do Barça foi enorme e enorme foi, ao mesmo tempo, a pressão a que se viu submetido o secretário-técnico para substituir Neymar com muito dinheiro no bolso e pouco tempo, menos de quatro semanas, de prazo.

Com tanto capital, entendeu-se nos escritórios do clube investir em dois jogadores: um craque de futuro e uma estrela do presente. Suceder de imediato Neymar e ir pensando em um herdeiro para Iniesta. Chegou Ousmane Dembélé, uma vez que Robert Fernández viu como impossível contratar Kylian Mbappé e voltou todas atenções para Coutinho, já convertido em um objetivo prioritário.

No último dia de mercado, o Liverpool disse ao Barcelona: US$ 227 milhões de dólares era o preço de venda. Os catalães não aceitaram tal loucura… No entanto, o assunto não ficaria parado. Bem visto no vestiário por Messi e Iniesta e apoiado por Suárez, o clube azul-grená trabalhou nos seguintes meses a operação e em janeiro de 2018 conseguiu o ‘sim’ definitivo. US$ 135 milhões de dólares de transferência e mais outros 45 milhões em variáveis foi o combinado. A contratação mais cara da história chegava ao Camp Nou.

Da euforia ao desencanto

“Não é um capricho. Todos os técnicos enxergavam necessária sua contratação, e com ele na equipe damos um passo muito importante adiante”, disse o presidente Josep María Bartomeu na apresentação do atleta, em 8 de janeiro de 2018. Aqueles seis meses finais de temporada deveriam ser seu período de adaptação, sem pressa, mas sem pausa, sem poder jogar a Champions League, mas pronto para se converter na peça definitiva de uma partida campeã.

"Eu realmente quero vencer grandes títulos, essa é uma das razões que me fez assinar por esse clube", declarou o brasileiro à época.

Desde então, Coutinho até foi campeão espanhol duas vezes e vencedor da Copa do Rei com o Barça e campeão alemão com o Bayern, mas em ambos foi coadjuvante, tendo lidado muito mais a decepção por não ter rendido o esperado do que ter sido elogiado pela participação nas conquistas. Ironicamente, viu o Liverpool chegar em duas finais seguidas de Champions League, conquistando uma delas, e vencendo a Premier League com a maior precocidade já registrada na história do futebol inglês, além de erguer o troféu do Mundial de Clubes.

“É um jogador excepcional, totalmente de nosso estilo”, afirmou Jordi Alba, dando conda da diferença técnica de um Coutinho que chegou lesionado e não estreou (23 minutos) até o dérbi da Copa do Rei diante do Espanyol em 25 de janeiro. A partir dali, jogou 22 partidas até o fim da temporada (17 como titular e completando 75% dos minutos), marcando dez gols e dando seis assistências que o confirmaram como uma das peças mais transcendentes de Ernesto Valverde... Porém, algo não deu certo.

Coutinho tinha ido de armador do Liverpool a um coadjuvante mais de Messi no Barça, e se há jogadores que se rebelam contra uma posição secundária, ele parecia encaixar perfeitamente neste papel. “Necessita soltar-se, dar um passo adiante”, declarou, no verão de 2018, Valverde, o treinador ao qual não responderia nem como substituto de Iniesta, nem como terceiro ponta.

Nem uma coisa, nem outra, o brasileiro se refugiou no coletivo e começou a passar despercebido para um cada vez maior desencanto da torcida, que, esperando ver um personagem indiscutível como Neymar, um craque como Rivaldo ou um substituto de Ronaldinho, perdeu a paciência e converteu seu amor incondicional em um desencontro a cada dia mais claro.

Não foi nem 8, nem 10, nem 7, nem 11. Podendo jogar em qualquer posição ofensiva, exceto como centroavante, Coutinho não rompeu a barreira dos craques. Rompê-la? Cada vez foi se apequenando mais e mais no campo, oculto e até seus maiores defensores abandonaram o cenário. Já se sabe, no entorno do Barça é fácil, e habitual fazer lenha da árvore caída.

Desaparecido o encanto, apareceu a frustração. O ânimo de seus companheiros e a paciência de Valverde não foram suficiente para convencer a torcida, que colocou a cruz definitiva a ele em 17 de abril de 2019, a noite que o Barcelona venceu o Manchester United por 3 a 0 e Coutinho comemorou seu gol, o primeiro, levando os dedos aos ouvidos e olhando as arquibancadas com um claro sinal de desafio. Foi o princípio do fim...

E agora?

Anônimo na terrível noite de Anfield (substituído com uma hora de partida) e mediano na final da Copa do Rei perdida diante do Valencia, o brasileiro já estava condenado e se entendia indiscutível encontrar uma saída em que ele, em primeira pessoa e consciente de seu fracasso, desejava no verão de 2019.

Porém, quem ia estar disposto a colocar sobre a mesa US$ 100 milhões para contratá-lo e fazer frente aos quase 25 milhões anuais (brutos) de salário? A única saída foi acertar o empréstimo ao Bayern, suspirando em silêncio o Barça por uma eclosão do jogador na Bundesliga... que não chegou.

O clube alemão não esperou em decidir não exercer a opção de compra estabelecida de US$ 136 milhões, e em maio de 2020 comunicou oficialmente que o devolvia ao Barça, onde sua figura volta a ser um problema.

E agora? Em tempos de coronavírus parece impensável que algum clube esteja disposto a apostar não mais de US$ 100 milhões em sua contratação, mas o Barcelona entenderia um sucesso receber 60 ou 70, aceitando a perda que ele significaria e, a estas alturas, suplicando a possibilidade de encontrar a ele uma saída por meio de uma troca com a qual inflar seu preço para efeitos contábeis.

Agora se fala do Tottenham, como antes se falou do Arsenal, do Manchester United ou do Newcastle. Ou inclusive o Leicester City e do Chelsea. O jogador anseia em voltar à Premier League, mas no momento tudo são especulações sem base, nem formalidade oficial alguma.

Inclusive Quique Setién afirmou que não se importaria, pelo contrário, em tê-lo de volta no elenco na próxima temporada, ainda que essa opção não é o que quer ou que planeja o clube, tão necessitado de ganhar dinheiro com um jogador que chegou ao Camp Nou com todas as honras para converter-se no último ídolo brasileiro e, depois de um ano e meio, virou um problema.