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Por que PSG tem uma das melhores bases da Europa, mas joias só brilham em outros clubes?

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Mágico 'rouba' luz de celular, encanta Mbappé com truque, e atacante do PSG fica sem entender nada (0:22)

Craque francês teve reação impagável após ver a mágica (0:22)

Quando se trata dos jovens jogadores do Paris Saint-Germain e de suas saídas do clube, a lista é longa, e todas as indicações sugerem que continuará ficando cada vez maior. Na janela de transferências do verão europeu, o clube vendeu Moussa Diaby (Bayer Leverkusen), Stanley N'Soki (Nice), Christopher Nkunku (RB Leipzig), Timothy Weah (Lille) e Arthur Zagre (Monaco) por um valor combinado de 54 milhões de euros (algo como R$ 314 milhões na cotação atual).

Nenhum deles tinha mais de 21 anos e todos chegaram ao clube entre 12 e 15 anos.

Um ano antes, jogadores como Jonathan Ikoné (Lille), Odsonne Edouard (Celtic) e Yacine Adli (Bordeaux) foram vendidos todos juntos por pouco menos de 20 milhões de euros (R$ 116 milhões). Naquele mesmo verão, Claudio Gomes, um dos melhores jogadores do time sub-19 do PSG, foi perseguido pelo Manchester City depois de decidir não assinar seu primeiro contrato profissional com o clube francês.

Em 2017, Dan-Axel Zagadou (Borussia Dortmund), Boubakary Soumaré (Lille), Fodé Ballo-Touré (Lille) e Mahamadou Dembélé (FC Salzburg) fizeram o mesmo. Sem contratos profissionais, sem participações no time profissional, sem despedidas.

Antes disso, aconteceu o mesmo com Matteo Guendouzi (Lorient), Kingsley Coman (Juventus), Mike Maignan (Lille), Moussa Dembélé (Fulham) e muitos outros. Apesar de Paris ser sua cidade natal, o PSG seu clube e o Parc des Princes, seu sonho, eles decidiram sair o mais rápido possível.

Isso não é novidade. O pioneiro foi Nicolas Anelka, que partiu para o Arsenal em fevereiro de 1997 aos 17 anos de idade praticamente de graça.

Em 2008, Gael N'Lundulu, na época um atacante promissor, assinou contrato com o Portsmouth, na época um time ascendente da Premier League. Em 2009, Chris Mavinga foi para o Liverpool. Ambos eram produtos promissores da base do PSG que foram embora por transferências gratuitas.

Ver seus melhores jovens jogadores saindo por praticamente nada, alguns sem sequer jogar pelo time profissional, nunca fez parte do plano do PSG. Então, o que deu errado?

No verão de 2011, quando o PSG foi oficialmente comprado pela Qatar Sports Investments, havia uma mensagem clara: o desejo de formar uma grande equipe capaz de dominar o futebol francês e vencer a Champions League. Para isso, era necessário prestar atenção na base do clube para que, em vez de comprar Lionel Messi um dia, o PSG pudesse encontrar o próximo Messi em sua própria base.

Quase 10 anos depois, o PSG ainda não encontrou o próximo Messi. E não estão nem perto disso, de fato. Eles gastaram muito dinheiro, com cerca de 10 milhões de euros (R$ 58 milhões) por temporada sendo destinados para a base, e os resultados foram significativos. No ano passado, a Federação Francesa classificou a base do PSG como a melhor do país, pondo fim ao domínio do Lyon, que tinha recebido esse prêmio nas seis temporadas anteriores. O desenvolvimento de alguns desses jovens jogadores do PSG tem sido impressionante, mas os mais talentosos continuam saindo.

Há duas razões principais para isso: a ausência de um caminho para o time profissional do PSG e a falta de tempo de jogo. Em uma equipe de superestrelas, um jovem precisa ser realmente muito bom e melhor do que os que lá estão para jogar regularmente. Coman não podia esperar mais pelas oportunidades que quase nunca vinham no time do treinador Laurent Blanc; Diaby e Nkunku não viam em Thomas Tuchel um treinador que confiasse neles o suficiente para colocá-los em campo com regularidade.

"Todos os casos são diferentes, mas a maioria dos jovens conseguiu o novo clube", disse Edouard (hoje do Celtic) à ESPN antes da pandemia de coronavírus. "Virar titular no Paris é difícil, especialmente em posições de ataque como a minha. Se achamos que estamos prontos para jogar, temos que jogar. Não há motivo para esperar. É por isso que tantos jovens jogadores como eu decidem tomar outra direção. "

Os donos do clube querem estrelas como Neymar ou Kylian Mbappé. Eles precisam desses grandes nomes para a imagem do clube, para a receita que trazem em patrocínio e marketing, e se quiserem os resultados imediatos que tanto buscam. Eles não querem seguir a rota do Ajax e focar na base.

No entanto, eles poderiam ter optado pelo melhor dos dois mundos: ter superestrelas e talentos locais, um pouco como os "Zidanes y Pavones" do Real Madrid no início dos anos 2000. O PSG fez isso algumas vezes nas temporadas anteriores, quando você regularmente tinha quatro ou cinco jogadores formados na academia, nascidos e criados em Paris, em campo ao mesmo tempo. Mas apenas Presnel Kimpembé e Adrien Rabiot realmente deram certo – com o volante ainda saindo de graça no verão passado para a Juventus, após uma longa briga contratual com o clube.

Luis Fernández – que participou de alguns dos períodos de mais sucesso da história do clube, tanto como jogador (conquistando o título francês em 1986) quanto como técnico (levantando a Taça dos Clubes Vencedores de Taças em 1996) – se tornou o responsável pela base em 2017. Ele durou apenas um ano, e saiu por se decepcionar com a diretoria do clube.

"Os jovens não são mais uma prioridade", disse Fernández ao Le Parisien no ano passado. "Vamos ver as consequências. O time B não existe mais. Não sei qual é o objetivo da política de jovens do clube porque, no momento, eles estão se praticamente livrando de seus jovens jogadores".

Como Fernández, muitos treinadores e olheiros ficaram desiludidos com a política do clube, as saídas dos jogadores e a falta de reconhecimento pelo seu trabalho. A equipe continua mudando. No ano passado, o PSG tomou a decisão de extinguir seu time B e optar apenas pelo sub-19. Eles acreditavam que o time B, jogando na quarta divisão, custava muito pelo que entregava. A mensagem: um jogador de 20 anos ou é bom o suficiente para o time principal ou não e deve ser vendido.

Do ponto de vista do PSG, nem todos os jogadores que saíram estavam prontos ou eram bons o suficiente para jogar mais. Eles argumentam que esses jogadores receberam boas ofertas e decidiram não as aceitar porque poderiam receber uma grande taxa de assinatura em outro lugar e potencialmente mais dinheiro. Para o clube, é mais fácil ganhar dinheiro com eles para satisfazer o Fair Play Financeiro e equilibrar as contas quando nomes maiores com salários muito maiores, como Julian Draxler ou Layvin Kurzawa, não quiserem sair. Mas isso não reflete bem na imagem do PSG. E isso causa outra questão: os jovens de Paris geralmente preferem entrar em outra base que não a do PSG, porque acreditam que terão um caminho mais claro para o time principal em outro lugar.

Foi exatamente o que aconteceu com Paul Pogba, que escolheu Le Havre; e Thierry Henry e Mbappé, que escolheram o Monaco. Como muitos outros, eles poderiam ter ido ao PSG e decidiram não ir.

Paris tem uma das maiores – se não a maior – concentrações de talentos de futebol do mundo. Na Copa do Mundo de 2018, um terço da seleção francesa vencedora do título era de Paris (Pogba, Mbappé, Kimpembé, Alphonse Areola, N'Golo Kanté, Benjamin Mendy, Steven N'Zonzi e Blaise Matuidi).

Existem algumas razões para explicar o extraordinário sucesso futebolístico naquela região. Estamos falando de um lugar habitado por cerca de 12 milhões de pessoas que vivem na capital e nos seus arredores. A cultura do futebol de rua significa que o jogo é disputado em todos os lugares, o tempo todo, em um ambiente muito competitivo, com ênfase na habilidade técnica. Finalmente, a organização do futebol de base com tantos clubes, divisões, custos acessíveis e bom treinamento significa que, desde muito cedo, os jovens já recebem orientações de primeira linha.

Para o PSG, é um sonho. À sua porta, eles têm uma fonte quase ilimitada de talentos de todas as faixas etárias. Mas a abundância também é um problema. A questão é que todos esses jovens são altamente cobiçados. Olheiros estão em todos os jogos, em casa e fora. Outros clubes europeus estão em constante contato com os agentes e familiares destes jogadores.

"[Os clubes] sabem que as estrelas do PSG podem querer sair em algum momento antes de assinarem seu primeiro contato profissional ou podem, pelo menos, ficar tentadas a sair", disse um agente francês próximo ao clube à ESPN. "Eles estão em constante contato com a [família de jogadores]. Os agentes também sabem que você pode receber uma comissão maior se os jogadores saírem para assinar o primeiro contrato profissional em outro lugar".

Tudo isso criou uma situação em que a base do PSG se tornou uma das melhores da Europa, apesar de o primeiro time mal se beneficiar dela.

As últimas estrelas a deixar o clube são Adil Aouchiche e Tanguy Kouassi. Ambos com 17 anos, ainda não assinaram seu primeiro contrato profissional, apesar de serem relacionados para partidas com o time principal nesta temporada, principalmente Kouassi, que disputou 13 partidas no total e se destacou jogando de volante. Aouchiche está sendo ligado a Saint-Etienne, Lille, Bordeaux e Arsenal, enquanto Kouassi está em negociações avançadas com o RB Leipzig – clube que levou Nkunku há algumas temporadas. Eles são dois dos maiores talentos de sua geração e ambos sairão de graça.

Verão depois de verão, janela depois de janela e as coisas em Paris não mudam.