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Respostas em poesias seculares, defesa das mulheres e muita bola: conheça o iraniano que começa a brilhar na Premier League

Alireza Jahanbakhsh é grande, não só no nome. As demonstrações são várias. Não é simples sair de casa sozinho e mudar de continente sendo um jovem atleta de 20 anos. Deixar as montanhas do Irã, onde é comum estar com a família por perto para celebrar as conquistas da vida ou dividir as incertezas, e encarar uma vida diferente de tudo na Holanda, pode ser bastante complicado.

Jahanbakhsh nasceu em uma pequena cidade no norte do Irã. A cultura local trata as obras literárias com muito zelo e faz questão de repassar às novas gerações escritos de tempos bem distantes. Toda criança iraniana, como um dia foi Jahanbakhsh, tem em casa obras de Hafez e já deve ter declamado vários poemas dele.

Hafez escreveu sobre o êxtase que o amor e o vinho trazem. Suas palavras atravessaram, além de muitos séculos, corações e faziam questão de inquietar poderosos.

O menino Jahanbakhsh conhecia as tradições e se destacava na prática de esportes. Muito cedo o futebol achou espaço na vida dele. O Damash Teerã se tornou o seu primeiro clube profissional. De lá para o Damash Gilan. Pequenos passos, mas o tamanho de suas atuações já chamava a atenção.

Um hábito que atravessa gerações desde o século 14 é o de consultar o “Divã”, mais popular obra de Hafez, antes de tomar qualquer decisão importante ou até mesmo para o coração ter paz em momentos de ansiedade. Jahanbakhsh sabia que bastava fazer a pergunta em silêncio e abrir uma página qualquer do clássico de Hafez para, nas primeiras estrofes, encontrar a resposta.

Jogando com mais regularidade, o menino foi assumindo maiores responsabilidades e até mesmo a faixa de capitão já fazia parte de seu uniforme na seleção sub-19. Grande! Algumas equipes estrangeiras começaram a observar as qualidades daquele jovem jogador, e o momento de decidir encarar a profissão fora do país envolveu incertezas e paciência. Jahanbakhsh ouviu conselhos dos pais, dos amigos mais próximos e pensou nas sábias palavras de Hafez que recitou um dia.

Decisão tomada. A oportunidade no holandês NEC falou mais alto. Além da natural dificuldade com a mudança de vida, de idioma e de casa, o jovem iraniano sofria com a velocidade e a exigência do jogo. O clube, conhecido por acolher jovens de todas as partes do mundo, não estava nada bem na tabela de classificação.

O grande dia chegou. Imagino que as palavras de Hafez indicavam um dia tenso, mas de dever cumprido. O NEC precisava pelo menos arrancar um empate contra o campeão Ajax para não ser rebaixado. Jahanbakhsh só entrou na partida no início do segundo tempo. E ele marcou os dois gols do empate de seu time contra o poderoso Ajax.

O jogo foi a clara demonstração para o então técnico da seleção iraniana, o português Carlos Queiroz, de que valia a pena convocar o menino para a Copa do Mundo em 2014. Os parentes e amigos custavam a acreditar, mas foi ele mesmo quem esteve em campo no Brasil contra Nigéria, Argentina e Bósnia.

Tinha chegado o tempo de colher. Indiscutível no NEC, o iraniano voou mais alto ainda quando foi para o AZ Alkmaar. O Brighton acompanhava à distância e a possibilidade de disputar a Premier League surgiu.

A segunda Copa do Mundo já encontrou um jogador mais maduro e sabedor de seu tamanho e de sua responsabilidade. O Irã celebrava mais uma disputa mundial e percebia o crescente interesse das mulheres no futebol. A interpretação mais pesada da sharia, conjunto de leis iranianas, impedia a presença das mulheres nos estádios. O tema é considerado um tabu no país e, sabendo de sua grandeza, Jahanbakhsh não se omitiu. "Queremos que nossas esposas, namoradas e primas possam entrar nos estádios. Eu não entendo as razões pelas quais eles não permitem que mulheres venham. Nós, jogadores da seleção nacional, gostaríamos da nossa família lá.”

Jahanbakhsh é apenas o quarto iraniano a disputar a principal competição nacional de clubes do planeta. Ele sabe o quanto foi difícil ter chegado tão longe.

O início não foi como o iraniano esperava. Banco de reservas e contusões atrapalharam a primeira temporada. Já a segunda foi marcada pela mudança no comando técnico. Com Graham Potter, Jahanbakhsh começou a se soltar mais um pouco, e o gol marcado contra o Chelsea mostrou um pouco do que ele é capaz de fazer.

Abra uma página, Jahanbakhsh, veja se Hafez não te disse "Fuja, meu querido, de tudo que possa não fortalecer as preciosas asas que estão brotando em você!". Voe.