Didier Drogba ainda estava entendendo o Chelsea quando se incomodou com um jogador alto, forte e que se comportava de maneira estranha. Achou que estava diante de um “reserva folgado”. Após o treino, o marfinense perguntou para um companheiro quem era aquele “jovem que trouxeram para ganhar experiência na equipe principal”. A resposta o surpreendeu: era John Terry, o capitão.
Uma história no mínimo curiosa, mas não a única da passagem de Drogba pelo Chelsea ao longo de oito temporadas seguidas (jogaria mais uma, anos depois, em 2014/15), em publicação do site “The Athletic” nesta sexta-feira, 24.
O marfinense chegou ao clube londrino no verão europeu de 2004 após alcançar destaque no Olympique de Marselha. Foi recebido no aeroporto de Londres por Roman Abramovic, o dono do clube, e José Mourinho, que havia pedido sua contratação e tinha um recado especial para dar.
"Como você está?", disse o treinador, em francês. "Você é bom jogador, mas se quer se tornar um grande nome, tem que jogar por mim. Marselha é um bom clube, mas para você se tornar um jogador melhor, precisa jogar em um clube como o Chelsea e precisa jogar para mim”.
Apesar de ser acolhido, o início foi bastante difícil porque Drogba mal entendia o idioma. Também demorou para compreender o estilo de jogo inglês, muito mais corrido e com faltas muito mais duras. Se incomodava com a não marcação dos árbitros.
Além disso, a forma de o time jogar fazia com que muitas vezes ele recebesse a bola de costas para o gol, colocando outros em situação de marcar. O papel exigia que ele batalhasse muito com os defensores. O alto nível de contato físico estava mostrando-se uma barreira.
"Em qualquer outro lugar da Europa, quando esse tipo de falta acontece, você para e o árbitro dá um cartão amarelo ao zagueiro", disse ele. “Na Inglaterra, quando você sofre uma falta, é preciso se levantar e apertar a mão do cara. Isso me faz rir agora, mas na época foi um grande choque cultural e digamos que demorei muito tempo para me acostumar”.
Para piorar, Drogba tornou-se impopular entre os torcedores em seus primeiros anos. Muitos achavam que o marfinense se atirava muito no gramado, cavando faltas. Em uma partida contra o Manchester City em março de 2006, mesmo tendo anotado os dois gols da vitória por 2 a 0, ele foi vaiado pela própria torcida nos minutos finais, em Stamford Bridge.
Assustado com a experiência, Drogba admitiu publicamente que não estava feliz com o Chelsea, apesar do sucesso da equipe. Naquele momento, o clube já era bicampeão da Premier League e uma das foças na Europa.
"Não é uma piada", disse ele. “Quero seguir em frente e evitar todas as pressões e escândalos aqui. Eu quero um lugar onde eu possa tocar livremente sem nenhum inconveniente. Você deve saber o que um jogador passa por tanta pressão. Admiro o Milan e aonde quer que eu vá, a Champions League estará lá esperando por mim. Essas coisas [vaias] machucam meus sentimentos”.
O futuro de Drogba nos Blues era cada vez mais incerto. Muito especulou-se sobre uma saída do marfinense no verão de 2006, dias após a Copa do Mundo da Alemanha. Ele mesmo parecia tentando a aceitar propostas da Itália ou da Espanha. Então, apareceu Lampard.
"Um dia, logo após a Copa do Mundo, eu estava passando férias com a família em Marrakech quando recebi uma mensagem de texto", disse Drogba. "Estranho, porque não me lembrava de ter mandado nada para ele durante as duas temporadas de Chelsea. Olhei para a mensagem e, me lembro até hoje. Ela dizia: 'Oi DD, espero que você fique, porque temos que vencer a Premier League juntos e temos que vencer a Champions League juntos!’”.
“Foi a mensagem que me libertou, me deu asas, me permitiu mostrar do que eu era capaz. A necessidade de me sentir querido, amado e valorizada pelos outros sempre foi um fator motivador vital para mim, e essa única mensagem foi o catalisador que eu precisava para a minha carreira no Chelsea decolar”, relembrou Drogba, que ficou no clube até 2012. Voltou em 2014/15.
Ao longo de nove temporadas, ele venceu quatro vezes a Premier League (lembrando que o Chelsea tem seis taças no total), quatro vezes a Copa da Inglaterra, três vezes a Copa da Liga Inglesa e duas vezes a Supercopa da Inglaterra. Mas a maior taça foi a Champions League em 2011/12.
