Presidente do Grêmio, Romildo Bolzan Júnior concedeu entrevista exclusiva à ESPN Brasil e falou sobre diversos temas, entre eles, a grande preocupação com a saúde financeira do clube por conta da pandemia do novo coronavírus e a inspiração em seguir o modelo de um gigante europeu neste momento.
Também falou sobre o técnico Renato Gaúcho, visto há alguns dias em uma praia no Rio de Janeiro, logo, não seguindo completamente a orientação de isolamento social que vem sendo passada pelas autoridades de saúde e também por governos municipais e estaduais.
Em férias coletivas até 30 de abril, a equipe gaúcha prepara protocolos de convivência para uma possível retomada das atividades em maio.
Além disso, o Grêmio traçou um planejamento que leva em consideração os próximos três meses. Nele, estão contemplados redução de despesas com fornecedores e renegociação dos direitos de imagem de quatro meses para recebimento em 2021 com os atletas.
Sem que tenha que fazer sacrifícios maiores como 'enxugar' o elenco, o dirigente espera terminar o ano com condições que chama de "razoáveis", ou seja, com uma perspectiva que reserve um recomeço sólido para o próximo ano.
O presidente contou que nos dias de isolamento social e recuperação da doença (ele foi um dos dirigentes da dupla Gre-Nal diagnosticado com COVID-19 logo após o clássico na Copa Libertadores), a maior preocupação nem foi a própria saúde, mas as resoluções necessárias para a manutenção do clube que comanda.
Sentiu os sintomas de forma mais intensa nos últimos dias em que se recuperava, quando disse ter perdido o olfato e o paladar. Agora, diz estar 100% recuperado.
Leia e assista a entrevista com Romildo Bolzan na íntegra
ESPN Brasil - Quais são as providências que o Grêmio está tomando com relação à pandemia?
Romildo Bolzan Júnior (RBJ) - O Grêmio tinha dado 20 dias de férias, na nova reunião que tivemos fomos orientados que como não teríamos atividades, poderíamos fazer a extensão até 30 de abril. As atividades voltarão com os protocolos a serem cumpridos. A escola do Grêmio vai seguir fechada até junho, a base do Grêmio também deve fazer um novo cronograma, as atividades serão redirecionadas.
O Grêmio vai organizar seu orçamento, tomou as providências necessárias, acertamos tudo com o elenco levando em conta os próximos três meses. Quando retornar o futebol, sabemos que vamos voltar em situação diferente, bem diferente.
Vamos ver se conseguimos terminar o ano em condições razoáveis para seguir fortes para o ano que vem. Porque com esse cenário, não sei se ele nos permite deixar o clube nessa situação (favorável), porque a gente não sabe o volume de recursos que o futebol brasileiro vai gerar, mas esperamos que fiquemos forte para o ano que vem.
ESPN Brasil - Como o senhor acredita que vão ficar as competições, quais são as possibilidades?
RBJ - A gente acredita que retomando as competições no final de maio, começo de junho, todos os campeonatos poderão ser concluídos. Trabalhamos com esse cenário, porque com ele também não teremos mais férias de final do ano. Não teremos férias no Natal, Ano Novo, vamos avançar janeiro, se for o caso. Eu acredito que os calendários poderão ser mantidos, mas veja bem, se retornarmos em junho e com condições de sanidade absolutamente seguras.
Se não tivermos condições nesse sentido, não há possibilidade da retomada. Não estamos nesse momento analisando nenhuma proposta para plano b, troca de fórmula, desistência de campeonato. O que é pauta é que aguardemos esses prazos para que possamos ver se vamos conseguir cumprir todos os campeonatos.
ESPN Brasil - Existe a possibilidade de realização de campeonatos concentrados em São Paulo?
RBJ - Eu acho muito difícil. Essa fórmula foi mais ou menos a fórmula dos ingleses, repetindo o que surgiu lá. Eu nunca ouvi ninguém falando absolutamente nada sobre isso, clubes ou mesmo CBF. Se essa for uma alternativa para os clubes, vamos examinar. Mas eu não vejo como uma solução razoável essa questão.
ESPN Brasil - E sobre protocolos para a convivência com a pandemia, o que vocês estão pensando? Algo como a redução do número de jogadores dentro do centro de treinamento durante turnos diversos?
RBJ - Não sou médico, mas compartilho o que já tratamos. Primeiro, há protocolos sendo feitos pela Fifa, Conmebol, que estão de acordo com as autoridades sanitárias locais, acho que passa por aí. Segundo, tem que dizer respeito a integridade de quem está envolvido com o futebol, jogadores, comissão técnica e funcionários.
O Grêmio está atento ao que o Bayern de Munique fez, o primeiro clube que tivemos mais notícias sobre esses protocolos. Se o protocolo for segmentado, for compartilhado, for dividido, for em partes, para escalonar isso durante o dia e durante a semana...
A única situação que se 'avizinhou' como razoável tecnicamente nesse momento. O Grêmio também tem protocolos sendo produzidos, mas aguarda orientação geral das entidades responsáveis pelo futebol.
ESPN Brasil - O que mais preocupa nesse momento?
RBJ - Eu tenho ficado muito preocupado com os efeitos (da pandemia). Mas tenho plena clareza da necessidade de seguir as orientações das autoridades do país. Estamos analisando também as finanças do clube, inicialmente, estimávamos um prejuízo de 20, 25 milhões de reais com essa queda de arrecadação referente ao futebol, agora é algo acima de R$ 30 milhões.
E mais os negócios que estávamos fazendo, que eram relacionados ao clube, estamos já calculando então um total de R$ 40 milhões de prejuízo. Nos preocupa, isso é irrecuperável! Temos os contratos, as nossas obrigações, isso me preocupa muito, sobre como vamos enfrentar as consequências dessa situação.
ESPN Brasil - Uma pré-temporada será necessária antes do recomeço das atividades?
RBJ - Teremos que fazer uma pré-temporada, além disso, seguir todos os protocolos, será necessário fazer, não tem como não fazer. Gostaríamos de terminar o campeonato regional antes de começar o nacional, e a competição sul-americana. Gostaríamos que o Gauchão até acontecesse como uma preparação para as outras competições.
Se for possível reorganizarmos esses calendários, seria o cenário ideal. Não estamos planejando por enquanto outra ideia, por ora, temos esse planejamento específico desses três meses ‘diferentes’. Mas se tivermos que refazer isso, tudo bem, é um cenário possível.
ESPN Brasil - Sobre o elenco e contratos, o Caio Henrique pode ter que retornar para o Atlético de Madrid mais cedo?
RBJ - Essa matéria chegou para gente por terceiros, pela mídia de Madri. Para gente não chegou nada, nenhuma documentação. Teríamos essa perspectiva para a chegada de propostas (ele pertence ao clube espanhol) na janela de julho. Claro que o Grêmio tem interesse sim na permanência dele, se tivermos condições de ficar com ele, melhor. Mas o Atlético pode fazer esse pedido na metade do ano. Tomara que seja somente uma especulação.
De outros contratos ou enxugar elenco, por enquanto nada nesse sentido. Nosso compromisso já foi firmado com os jogadores naquele planejamento que eu mencionei. Só vamos alterar isso se tivermos que fazer uma opção entre a viabilidade de manutenção e a saúde do clube, se precisarmos, sacrificaremos o ano.
ESPN Brasil - O Renato Gaúcho (técnico do Grêmio) foi visto numa praia no Rio de Janeiro, descumprindo o isolamento social. O senhor 'puxou a orelha' do treinador?
RBJ - Eu não sou babá de ninguém. Todo mundo é maior de idade, sabe o que faz. Todo mundo sabe que isso tem uma repercussão. Não sou juiz para julgar alguém também. Nos falamos pouco nesse período, férias são férias, respeitamos essa questão no período.
ESPN Brasil - Nessa semana, foi debatida também a comercialização internacional de direitos de transmissão do Brasileiro. Como o Grêmio se posiciona sobre essa questão?
RBJ - O Grêmio aprovou a proposta, agora estamos na parte das questões técnicas, conversando para organizar as questões contratuais. Essa parte da comercialização já está acertada, agora é alinhar o resto de acordo com o que está nas cláusulas, o que ficou para trás é essa questão sobre a forma da transmissão dos jogos.
Foi dado um tempo para uma avaliação ser feita. Todos os clubes da Série A vão receber com condições iguais, agora temos que decidir sobre os percentuais da Série B. Não tenho dúvidas que isso precisa ser tratado de maneira diferente, Série A é um campeonato mais robusto. Com clubes em situação diferente como produto.
