Aaron Lennon estreou na Premier League com a camisa do Leeds em agosto de 2003 e apenas 16 anos e 129 dias, e caminhava para uma ascenção meteórica na carreira, com a mesma velocidade impressionante que o ponta-direita mostrava dentro de campo. Nesta quinta-feira, o atacante completa 33 anos.
O jogador se transferiu para o Tottenham em 2005, chegou com o peso de se tornar uma estrela, teve anos muito bons com a camisa dos Spurs e ganhou chance na seleção da Inglaterra em 2006, contra a Jamaica. Disputou as Copas do Mundo de 2006 e 2010 e somou 21 partidas internacionais.
Porém, não alcançou o patamar esperado. Em 2014 foi por empréstimo ao Everton - comprado em definitivo na temporada seguinte - e, então, começou a época que marcaria o jogador fora dos campos.
No dia 30 de abril de 2017, a polícia da Grande Manchester foi chamada por volta das 4h35 da tarde após moradores se preocuparem com o estado mental de um homem que caminhava pelas ruas. Os policiais encontraram o homem de 30 anos - mais tarde identificado como Lennon - que foi detido e encaminhado até o hospital mais próximo baseado no Artigo 136 de "Ato de Saúde Mental".
No dia, o Everton havia disputado uma partida contra o Chelsea - Lennon não fez parte do elenco e vinha perdendo espaço desde que Koeman havia assumido o time - e após o incidente o clube divulgou nota afirmando que "Aaron Lennon está atualmente sob cuidados e recebendo tratamento por uma doença relacionada ao estresse" e que sua família pedia por privacidade no momento.
Recuperação
O incidente que ocorreu há pouco mais de dois anos não encerrou a carreira de Lennon, apesar de ter mudado a forma como ele via o futebol.
Após dois meses de tratamento, na janela de transferências sequente ao acontecido, o jogador foi para o Burnley. E um ano depois do ocorrido, em entrevista ao jornal "Telegraph", na primeira vez que falou sobre o assunto, foi destacado o "sorriso com que entra na sala".
E o jogador lembrou do que passou: "Eu estava na escuridão, em um local escuro por muito tempo e hoje só de acordar todos os dias e estar com vontade de treinar novamente e aproveitar todos os dias é o que importa para mim".
Apesar de não querer entrar em detalhes sobre o que passou, afirma que não estava gostando mais de jogar futebol nos últimos quatro ou cinco anos, principalmente quando lutava contra a depressão.
"A história de Lennon é um exemplo para lembrar que, não importa o físico ou perfil de uma pessoa, a depressão não escolhe vítimas. Um estudo realizado pela FifPro, federação de jogadores internacionais, em 2015 declarou que 38% dos jogadores (e 35% de jogadores aposentados) sofreram com depressão ou ansiedade em algum estágio da carreira".
"Eu não estva gostando do meu futebol, mas desde que cheguei ao Burnley eu voltei a aproveitar", comenta o jogador. "Eu não diria que eu deixei de amar o futebol, mas eu passei por um longo período em que não estava envolvido nos planos do time. Você começa a chegar a um ponto que não se sente mais como um jogador de futebol. Você treina a semana toda e não está envolvido no final de semana, isso faz com que tudo fique difícil. Então, foi muito pesado".
"Para mim, não jogar no fim de semana... você vai para casa e não está feliz, não está aproveitando. Falam muito de jogadores não se importarem, mas eu não acredito que existam muitos jogadores que não são escolhidos e vão para casa sem ficar chateados", completa e finaliza afirmando que a transferência para o atual clube foi "a melhor decisão" que tomou na vida, aproveitando "cada minuto que passo aqui".
"Foi um processo gradual. Eu não percebia que precisava de ajuda até ser muito tarde. Eu diria a meus amigos e família que estava bem, mas não estava".
Em sua conta no Twitter, complementou e agradeceu: "Com a ajuda de vocês eu consegui voltar a ficar bem e amar todos os dias como deveria, também aprendendo muito sobre mim e aprendendo como é importante a mente e o que eu preciso para passar por essas coisas".
"Não seja um sofredor silencioso! Encontre ajuda, fale sobre, é normal não estar bem. A mente é muito poderosa, então olhe para frente e olhe além de si mesmo, os tempos difíceis não são para sempre".
Don't be a silent sufferer!!! Seek help, speak out, it's ok not to be ok. The mind is very powerful so look after it and look after yourself, the tough times are not forever!!! #MentalHealthAwarenessDay
— Aaron Lennon (@AaronLennon12) October 10, 2018
"Há jogadores que simplesmente não querem falar"
Hoje aos 33 anos e com 17 de carreira, afirma que está completamente recuperado do evento de anos atrás, mas também acredita que existem outros jogadores sofrendo em silêncio com problemas de depressão e ansiedade.
"Eu conversei com alguns jogadores sobre isso e ofereci conselhos. Eles queriam saber pelo que passei e como conseguir ajuda. Provavelmente há jogadores que simplesmente não querem falar sobre nada com ninguém. Eu sei porque é exatamente como eu estava. Mas a minha mensagem seria para conversar porque existe muita ajuda disponível e isso pode fazer a diferença. A pessoa com quem conversei quando estava passando pelo tratamento me ajudaou muito em cerca de 10 minutos", afirma em entrevista ao jornal "The Guardian".
Já no Burnley, o atacante participou em 2019 de um projeto local que espera ajudar a diminuir os índices de depressão e suicídio em adolescentes. A ideia é que os jovens tenham profissionais com quem conversar nos momentos em que se sentirem pressionados.
"Eu não sou o tipo de pessoa que tem facilidade em pedir por ajuda, pelo menos eu não era anos atrás. Como jogador, eu sabia tudo sobre minha saúde física, mas só isso. Eu não sabia o que fazer com meu bem-estar mental. Eu realmente não sabia para quem recorrer quando começava a me sentir mal e, por isso, a situação chegou aonde chegou", afirmou. "Há muito pressão nas crianças hoje em dia, com as redes sociais, as câmeras dos celulares, os exames e tarefas de casa. Eu não gostaria de passar por tudo de novo, sinceramente. O que quero dizer é que está tudo bem não se sentir bem o tempo todo e falar com pessoas que podem ajudar".
E sobre jogadores, deixou claro em outra oportunidade: "Se qualquer um quiser falar comigo sobre qualquer coisa eu ficarei feliz em ajudá-los".
