<
>

'No auge', Willian fala sobre Corinthians, futuro, seu melhor companheiro no Chelsea e derrota mais doída: 'Um nocaute'

Willian já não é garoto. Neste ano, em agosto, completará 32 anos - dos quais, 14, ele viveu na Europa.

"É, toda a minha vida adulta", concluiu o jogador do Chelsea durante entrevista concedida com exclusividade ao ESPN.com.br.

Do menino do "Terrão" do Corinthians, sobrou pouco. E isso, de modo algum, é uma crítica ao jogador ou ao chão que o formou

Trata-se apenas da constatação de que o agora camisa 10 do clube mais rico de Londres é um legítimo e completo "world class", um atleta que pode se enquadrar em qualquer uma das maiores ligas do mundo, sem que isso lhe cause desconforto.

Quer dizer, talvez até cause um pouco, mas num sentido que joga a favor de Willian. Depois de tanto tempo no altíssimo nível da Premier League, é possível que o meia-atacante estranhe um pouco a fragilidade de alguns adversários, caso deixe o futebol inglês.

"Meu desejo é permanecer na Premier League, mas não descarto atuar em outras ligas, não", afirma. Com contrato até o fim da atual temporada - quer dizer, até a data que deveria ser o fim da temporada -, o jogador quer assinar por mais três anos com os Blues, que querem garanti-lo só por mais dois.

Por causa da pandemia causada pelo coronavírus, as negociações para a renovação estão paradas nesse estágio, sem acordo.

"Eu vou jogar até o fim da temporada e ver o que acontece", disse ele, sem demonstrar muita preocupação. Ele sabe que tem mercado na Europa caso não feche com o Chelsea. Na última janela de transferências, seu nome esteve ligado ao Barcelona, por exemplo.

"Estou muito acostumado com a Inglaterra", diz ele. Em especial com Londres, que ele deixou há uma semana, rumo ao Brasil, onde estavam seus familiares. A família de Willian veio para o País um pouco antes de o jogador ter de cumprir quarentena porque seu companheiro Callum Hudson-Odoi foi diagnosticado com COVID-19.

"Londres estava parada. Nas ruas, não tinha ninguém, tudo parado. Foi um choque, porque a gente está acostumado a ver Londres agitada, nunca vi nada parecido. Nem lá, nem em lugar nenhum, pra dizer a verdade", contou ele.

Willian, em princípio, fica no Brasil até 13 de abril, data combinada com o Chelsea para o retorno do grupo ao trabalho. Mas, na verdade, ninguém sabe muito bem como vai ser.

Informado pela reportagem, na sexta-feira (27), de que Boris Johnson, primeiro-ministro inglês, havia contraído o coronavírus, Willian ficou surpreso.

Willian curte, por enquanto, um período no país em que nasceu e que só deve mesmo ser destino de férias ou viagens esporádicas no futuro próximo. Para frustração de brasileiros, e em especial dos corintianos, atuar por aqui não está nos seus planos.

"Sobre o Corinthians, todo mundo faz essa pergunta pra mim. É claro que tenho carinho pelo clube, entrei lá com 9 anos, saí com 18, passei a maior parte do tempo lá, tenho muitos amigos lá, toda familia já era corintiana antes de eu jogar lá. Mas, hoje, não penso em voltar para jogar. Meu objetivo é seguir na Europa", afirma.

Até porque, Willian acredita estar vivendo um momento especial em sua carreira: "Sim, eu sinto que estou no auge hoje. A gente vai adquirindo alguma coisa ao longo dos anos, e creio que é o auge da minha carreira, sim", crava.

É mesmo uma grande temporada. Até aqui, o segundo jogador há mais tempo no clube (depois de Azpilicueta) disputou 37 partidas, fez 7 gols e deu 6 assistências.

Ele é um dos jogadores que têm liderado o jovem time do Chelsea, 4º na Premier League, quadrifinalista na Copa da Inglaterra e está nas oitavas da Champions League - nesta última, em grande desvantagem contra o Bayern de Munique , após ter perdido na ida por 3 a 0, em pelo Stamford Bridge.

Na entrevista em que concedeu à ESPN, o jogador falou sobre ainda ter sonhos na carreira, sobre as edições da Copa do Mundo que disputou, sobre quem foi o melhor companheiro que já teve ao seu lado e sobre o que deseja fazer depois de se aposentar.

"Técnico, eu não vou ser. Acho que minha postura, meu jeito de ser, não combinam com a função", disse.

Veja abaixo os demais principais trechos da entrevista.


ESPN - Com tanto tempo de clube, você é capaz de dizer qual foi o melhor Chelsea em que jogou?

Willian - Eu joguei com grandes jogadores, elencos diferentes, mas acho que é o time da temporada em que cheguei (2013-2014), que tinha grandes estrelas. Não conseguimos nenhum título, porém. Mass, a segunda temporada, com o Mourinho, ganhamos a Premier League e a Carling Cup (Copa da Liga). A gente tinha praticamente dois times, o elenco era muito forte.

ESPN - Você disputou duas Copas do Mundo, uma no Brasil, que acabou sendo traumática. O que foi possível aprender daquela derrota para a Alemanha?

Willian - A gente sempre apende, serviu de lição para muita coisa. Os jogadores que estiveram lá aprenderam muito com a derrota. Acho que a maior lição talvez tenha sido aprender a estudar melhor o adversário. Poderíamos ter nos aprofundado mais detalhadamente quanto aos pontos fortes e fracos deles, até mesmo por onde eles atacam, se pelo meio, pelas lataterais.

ESPN - Foi um jogo muito atípico, né?

Willian - Muito. Não deu nem tempo de respirar. Foi como numa luta de boxe, nós estávamos nocauteados. Numa próxima, a gente já sabe que pode fechar a casinha, contra-atacar. Mas a gente não consegui. Aquilo foi um jogo que nunca mais vai acontecer. Um em cada nem sei quantos jogos entre duas grandes seleções vai ser assim. Na verdade, não tem muita explicação.

ESPN - Já em 2018, foi uma eliminação bem diferente.

Willian - Completamente, vejo que perdemos por detalhes. A bola não entrou, mas a seleção jogou bem. Logo antes do primeiro gol deles, o Thiago silva, depois de um escanteio, mandou uma bola na trave. Logo depois, escanteio deles, o Kompany raspa no primeiro pau, a bola bate no Fernandinho e entra. Poderíamos ter vencido, no futebol acontece dessas coisas, a gente tem pouco controle sobre o que acontece.

ESPN - E você foi campeão da Copa América no Brasil em 2019. Como foi essa sensação?

Willian - Única. Ganhar uma Copa América dentro do Brasil... Era um sonho que eu tinha, de conqusitar um título com a camisa da seleção, foi meu primeiro. Na final no Maracanã, mesmo eu não tendo jogado (estava lesionado), dava pra sentir aquela vibração. Atuei em alguns jogos, fiz gol (contra o Peru, na semifinal). Foi um momento realmente único.

ESPN - Voltando à Inglaterra, vemos um Liverpool muito à frente dos demais times na Liga. Como você explicaria isso?

Willian - Acho que o segredo é a continuidade. O treinador (Jurgen Klopp) está no clube há quase cinco anos. Quando se se tem uma continuidade, você consegue conquistar títulos. Eles tiveram uma sequência de vitórias importantes, que mostram o amadurecimento de equipe. Tem que ter um tempo para conseguir as coisas, e o Liverpool tem um treinador e uma filosofia há muito tempo. O time é o mesmo, o elenco, é um ou outro só que troca, a base é a mesma. No Manchester City também, o Guardiola já está lá há um bom tempo, a filosofia é sempre a mesma.

Willian mostra treino que fazia sozinho em Londres, antes de vir ao Brasil

ESPN - Já o Chelsea...

Willian - O Chelsea já troca bastante. Em sete anos, eu tive cinco treinadores e filosofias diferentes. Mas, mesmo assim, conquistamos títulos, porque o Chelsea teve sempre isso, sempre foi assim e continua conquistando título. Acho que cada clube tem um perfil.

ESPN - Havia uma grande expectativa quanto ao Sarri na última temporada e não deu tão certo. O que aconteceu?

Willian - O Sarri é um bom treinador. Não sei te dizer o que houve. Ele tinha uma parte tática interessante, gostava de jogo bonito, com a bola. Mesmo assim, conquistou um título, a Europa League, e o terceiro lugar na Premier League. Não dá para saber porque não foi melhor. Era um cara muito tranquilo no dia-a-dia.

ESPN - O atual chefe, você conhece bem, não é?

Willian - Sim, o Lampard eu conheço bem, no meu primeiro ano, tive o privilégio de jogar com ele. Está sendo muito bom, estou gostando muito. Desde o início, ele me passou muita confiança. Quando você tem um técnico que deposita confiança, que te faz sentir importante, isso ajuda o desempenho. Porque você erra um, dois, até três passes e o treinadoor continua confiando em você. O jogador precisa disso.

ESPN - Neste ano, você recebeu a camisa 10 do clube, uma honra. Mas teve uma parte da torcida que criticou. Isso te incomodou?

Willian - Não, eu não não fiquei chateado, não. Eu sempre gostei também de vestir a 10, desde quando comecei, na base do Corinthians e no profissional, também. No Shakhtar Donetsk, cheguei com um outro número e depois troquei. Na seleção brasileira, também vesti a 10. É um número com o qual eu me sinto bem.

ESPN - Com tantas realizações na carreira, você ainda tem sonhos? Considera-se realizado?

Willian - Sim, tenho o objetivo de se campeão do mundo com a seleção. É o meu principal objetivo. Mas acho que se você peguntar, todos os jogadores vão te dizer que esse é o principal objetivo. Eu me considero uma cara realizado, mas tenho mais sonhos, além da Copa. Tem a Champions League também, que eu nunca conquistei.

ESPN - Qual jogador com que você jogou te deu aquela sensação de "caramba, esse cara é realmente muito craque, muito acima da média"?

Willian - O Hazard foi o melhor, o que mais me impressionou. Jogamos juntos por seis anos e vivemos momentos especiais juntos. É um cara que é meu amigo até hoje.

Veja golaço de Willian contra o Everton, na Premier League

ESPN - Deve ter sido duro quando ele deixou o clube.

Willian - Na época que começou a especulação, a gente já sabia. Ele tinha esse desejo de jogar em Madri, era uma coisa que a gente estava esperando. É claro que, sem dúvida foi muito ruim perdeê-lo como amigo de convício e companheiro de trabalho. Mas foi aquilo: triste por uma lado e feliz por outro.

ESPN - E ele não teve o começo que se esperava na Europa.

Willian - É, nesse começo, ele teve um pouco de dificuldade, com duas lesãoes, infelizmente. Mas a gente que conhece o potencial dele sabe que isso não vai atrapalhar e ele vai voltar mais forte.

ESPN - E técnico? Tem algum que você destaque?

Willian - Eu tive varios grandes treinadores. Eu me dei muito bem com o Mourinho, aprendi muito com ele, e ficamos amigos trocamos muitas mensagens. Mas não o encontro com frequência. Não cheguei a encontrá-lo desde que ele voltou para Londres.

ESPN - Da Inglaterra, você consegue acompanhar os campeonatos do Brasil?

Willian - Sim, acompanho alguns jogos do Campeonato Brasileiro e dos estaduais, quando dá.

ESPN - Na Europa, fala-se algo do Flamengo do Jorge Jesus, por exemplo?

Willian - Não, não há muito comentário. É claro que, na final com o Liverpool, a gente viu e falou-se um pouco. Mas não é algo que se fique comentando, não é algo que vire assunto.

ESPN - Você já viu o Flamengo jogar? Acha que tem mesmo um estilo europeu?

Willian - Sim, eu vi jogar algumas vezes. É sim um time com padrão de jogo como se estivesse na Europa, na forma de pressionar, na linha alta, no comportamento tático.

ESPN - Você ainda deve ter uns sete, oito anos de carreira, mas já pensa no que fazer quando parar? Pensa em ser técnico?

Willian - Eu penso em ser empresário no futebol mesmo. Penso que, pela minha postura, meu jeito de ser, eu não me vejo como treinador. Já como empresário sim, cuidando da carreira de jogadores, da mesma maneira que foi feito, quero também ajudar na vida de outros jovens, auxiliando e ajudando quem precisa.

ESPN - Como está sendo esse período de pausa? Você tem treinado? Deve dar saudade de jogar

Willian - Dá saudade de bater uma bolinha, sim. Estou treinando. Há uma programação do clube que tenho que seguir, treinos específicos diários, corrida, um pouco de funcional, mas nada de bola.

ESPN - E você tem falado com os colegas de clube? Quem são os seus melhores amigos?

Willian - Nós temos um grupo de Whatsapp que recebe informações de treinos, mas não tem contato diário. Meu melhor amigo no clube era o David Luiz, que saiu. Ele é um grande amigo. Hoje, tenho mais proximidade com o Emerson e o Jorginho, brasileiros. Mas tenho muita amizade com o Kovacic e também com o Rudiger.