Desconhecido no Brasil, Rafael Scapini de Almeida teve uma trajetória inusitada até virar ídolo na Finlândia. Há 15 anos morando na Europa, o lateral-direito venceu quatro vezes a Liga Finlandesa e disputou uma edição da fase de grupos da Champions League
Natural de Campinas, ele não fez categorias de base. Após ser reprovado em testes na Ponte Preta e no Guarani, ele já tinha praticamente desistido da carreira e trabalhava em outros setores.
Dos 16 aos 22 anos, o jovem foi office boy da Funcamp (Fundação de Desenvolvimento da Unicamp) e depois passou pelo Hospital das Clínicas na área de logística dos medicamentos.
"Eu fazia alguns jogos aos finais de semana. Uma vez, me disseram que o Etti Jundiaí estava interessado em mim. Eu larguei o emprego e fui tentar a sorte, mas não joguei", disse Rafinha, ao ESPN.com.br.
Quando estava sem perspectivas, o jovem foi chamado por Gil Baiano (ex-lateral de Palmeiras e Bragantino), com quem jogava no futebol amador, para participar de um amistoso.
"Um amigo do Gil Baiano, que jogava na Finlândia, estava de férias no Brasil e foi jogar um amistoso conosco. Para minha sorte, um diretor me viu neste dia e me chamou para fazer duas semanas de testes por lá", contou.
O brasileiro resolveu arriscar e foi aprovado pelo AC Oulu-FIN, no qual permaneceu por três anos. Logo na primeira temporada, ele sofreu com o frio extremo, as diferenças culturais e o idioma. Pelo fato de não ter a mesma tecnologia dos dias atuais dos aplicativos de conversa, como WhatsApp, ele não conseguia falar com frequência com o Brasil.
"No começo eu morava junto com outro jogador brasileiro e a gente se virava. Mas depois eu fiquei sozinho e sofria muito por causa da saudade que eu sentia da família e dos amigos".
Por não dominar o idioma local ou inglês, ele tinha pouca diversão na Finlândia porque não conseguia entender os filmes no cinema ou os programas da televisão.
O brasileiro quase abandonou o futebol de vez voltou para casa pela primeira vez nas férias, quando a Finlândia passava pelo pior momento de seu inverno.
"Eu disse que não queria mais voltar. Minha mãe acabou me convencendo a retornar", recordou.
A partir do segundo ano, Rafinha aprendeu a falar inglês. Com isso, passou a se comunicar com os outros jogadores e a fazer amizades. "Fui acolhido por duas famílias finlandesas como se fosse filho deles. Sempre me chamavam para comer. e fui me acostumando com a cultura".
Além disso, ele passou a namorar sua esposa, que é finlandesa.
Champions League
Em 2008, ele foi ao Tampere United-FIN antes de chegar ao Helsinki (HJK), um dos maiores times do país.
"Fomos campeões nacionais e tive o prazer de jogar ao lado do Pukki (atacante do Norwich) e do Jari Litmanen, maior craque da história do país [ex-Ajax e Barcelona]. Nós conseguimos vencer o Schalke-ALE por 2 a 0 em casa pelos playoffs da Liga Europa na temporada 2010/11", recordou.
Vendido o Gent-BEL, ele foi campeão da Liga Belga.
"É uma liga que não está nos holofotes do Brasil, mas é ótima. Os estádios estão lotados e muitos jogadores bons surgem por lá. Joguei contra caras como De Bruyne [Manchester City] e Batshuayi [ex-Chelsea] antes deles irem para a Premier League."
O brasileiro também realizou um sonho ao disputar a fase de grupos da Champions League contra Lyon, Zenit e Valencia.
Mesmo sendo o clube com menos investimento, o Gent-BEL avançou até as oitavas de final, quando foi eliminado pelo Wolfsburg.
"Foi um feito muito grande. A diretoria não contava muito com isso. Eles queriam que pegássemos a terceira vaga na Liga Europa, mas fizemos 10 pontos e terminamos na vice-liderança", admitiu.
Em 2016, o brasileiro, que estava com 35 anos, voltou para a Finlândia com planos de aposentadoria.
"Meus filhos estavam entrando em idade escolar e não era tão fácil para eles morar na Bélgica. Ia jogar mais uma temporada, mas ainda não parei (risos). Não tenho planos de parar tão cedo", admitiu.
O jogador, que deverá ser treinador em alguns anos, pretende morar na Finlândia depois de pendurar as chuteiras por causa da família.
"Depois que as crianças crescerem e estiverem independentes talvez eu passe uma temporada no Brasil. Eles estão acostumados com o Brasil porque passamos férias com a minha família. Eles entendem português porque é o único jeito que eles podem falar com a minha mãe".
Apesar de ter esposa e filhos finlandeses, Rafinha nunca defendeu a seleção local.
"Antes de sair para Bélgica o treinador da seleção finlandesa entrou em contato com meu clube para saber da minha situação. Ainda faltava um tempo para eu conseguir o passaporte, mas nisso surgiu o Gent. Não tinha o que pensar. Me queriam na seleção, mas nunca senti que jogaria pela seleção", finalizou.
