Logo após ver das tribunas do estádio de Wembley a derrota do United para o Barcelona por 3 a 1 na final da Champions League de 2011, Rafael Leão pegou o trem de volta para Manchester junto com o elenco principal dos Red Devils.
Apesar do clima de tristeza pelo resultado, o brasileiro que atuava pela equipe sub-23 do time inglês, ficou surpreso. Uma das bolas utilizadas na partida passava pelas mãos de Giggs, Rooney, Owen, Evra, Vidic, Van der Sar. O jovem viu cada um dos craques dar seu autógrafo até que o objeto chegou as suas mãos.
Por ainda ser um jovem do time de base, Rafael ficou acanhado e apenas passou a bola para frente, sem escrever nada. A atitude, não passou despercebida.
"O Rio Ferdinand, que estava sentado lá no fundão, olhou a bola e perguntou para mim: 'Você assinou?' Eu falei que não. Ele respondeu: 'Você vai ser um futuro craque um dia. Então, você assina'. Ele pegou a bola da Champions e me deu. Eu estava tremendo, mas assinei", contou o brasileiro ao ESPN.com.br.
Quase dez anos depois da previsão de um dos maiores zagueiros da história do futebol inglês, a vida de Rafael Leão é bem diferente.
O jovem abandonou a carreira no futebol com apenas 21 anos. Hoje, ele é estudante de Direito e montou com a mãe um escritório de advocacia que renegocia dívidas. Além disso, o jovem passou a se dedicar à vida religiosa.
Para entender como isso aconteceu, é preciso voltar no tempo. Quando tinha 15 anos, Rafael foi descoberto por John Calvert, scout do Manchester United, em uma partida do Juventus-SP contra o Santo André na Rua Javari.
Convidado para participar do programa de intercâmbio, ele mudou-se para Porto Feliz, interior de São Paulo para jogar no Desportivo Brasil. O clube, que pertencia à Traffic seria uma ponte para a Inglaterra.
"Eu conheci o Gustavo Scarpa, meia do Palmeiras, que me disse: 'Rafa, você precisa ler a bíblia'. Nós ficamos bem amigos", disse.
A partir de 2008, o brasileiro passou a ir de duas a três vezes por ano para o United, para ficar cerca de 20 dias. Assim que chegou aos Red Devils, ele conheceu Cristiano Ronaldo, que seria eleito, meses depois, o melhor jogador do mundo.
"Logo no meu primeiro treino eu participei de um amistoso contra o Aston Villa e foi sensacional. O pessoal queria me ver. Nós vencemos por 4 a 1 e fiz o primeiro gol. Ai eu vi que tinha sido aprovado", recordou.
Quando completou 18 anos, ele foi emprestado por um ano para o United, pelo qual jogou no sub-20 e no sub-23. Além disso, o jovem assinou contrato com a Adidas.
"Antes de ir para Manchester, minha mãe chamou um pessoal para orarmos em casa e agradecer. Chegou uma mulher e falou: 'Deus não te quer chutando uma bola. Deus te quer pregado a palavra'. Ela nunca tinha me visto. Aquilo ficou marcado na minha cabeça. Eu treinava e ficava pensando naquilo. Quando fui para a Inglaterra, eu passei a ler mais a bíblia", contou.
Em Old Trafford, o brasileiro foi colega de time de Pogba, Lingaard e Rashford e Andreas Pereira, que defendem hoje o time principal do Manchester United. A equipe enfrentará o Manchester City pela Copa da Liga Inglesa, nesta terça-feira. O jogo terá transmissão da ESPN Brasil e do WatchESPN a partir das 17h (de Brasília).
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Com o destaque na base dos Red Devils, Rafael chegou ser chamado de "novo Dunga" pelo jornal Daily Mail.
"O Ferguson me elogiou e disse que acompanhava meus treinos. Disse para eu continuar assim", disse.
Rafael não esquece do fanatismo dos ingleses por futebol. "Eles tinham um trabalho de mídia muito forte na base, destacavam na revista do clube. Uma vez minha mãe foi comigo ao estádio para vermos o jogo do time principal. Ela ficou emocionada porque alguns torcedores do clube já me reconheciam e tinham fotos minhas e me pediram autógrafos."
Rafael chegou a ser comandado por Solkjaer e a ter como auxiliar-técnico a lenda Paul Scholes.
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"Sempre que podia ele calçava as chuteiras e treinava junto com a gente a parte tática. E não aliviava, era pesado! Tinha hora que eu olhava, eu pensava: 'Não é possível!' O Scholes dizia que chegava forte nos meninos para prepara-los. Sem dó! A técnico do chute dele e dos lançamentos era fora de série".
Depois de um ano, o brasileiro saiu de Old Trafford. A equipe inglesa gostaria de renovar o contrato de empréstimo, mas o Desportivo Brasil queria vendê-lo em definitivo. Ao voltar para o Brasil, ele recebeu um convite do Ituano para fazer uma ponte até o Middlesbrough, clube no qual Juninho Paulista - ex-presidente do clube paulista - é ídolo.
Depois de passar uma temporada na Inglaterra, ele foi jogar o Paulistão da Série B (4ª divisão) pelo América de Rio Preto. No interior paulista, o jovem afirma ter sofrido preconceito religioso por parte dos comandantes do time.
Depois, Rafael foi jogar no OPS, da 2ª divisão da Finlândia. Após o fim do torneio, ele resolveu largar o futebol. Aos 26 anos, ele se se dedica à vida religiosa e prega em igrejas da Assembleia de Deus.
"Sonho um dia em ser pastor, mas estou apenas no começo. Até hoje as pessoas me perguntam. 'Você parou?' Alguns me chamam de louco e falam tanta coisa. Muitas pessoas não entenderam até hoje a minha decisão. Eu sou convicto da minha decisão e não tenho arrependimento nenhum. Valorizo todas as experiências que tive na minha vida, que foram fantásticas".
