Existem histórias no jornalismo esportivo que desafiam a lógica e a capacidade humana. E essa que vamos contar agora, só mesmo a mais alta sabedoria, ciência e espiritualidade podem explicar.
Júlio César de Souza Prado é um desses casos que merecem um estudo científico bem aprofundado.
Aos 17 anos, por intermédio do técnico (já falecido) Mario Travaglini, foi aprovado para fazer parte da equipe principal do Corinthians, aquela do início da década de 1980 que contava com craques como Sócrates, Zenon, Wladimir, Zé Maria e Cia.
Um time que entrou para a história do futebol e do país, não só pelo bicampeonato paulista de 1982/1983, mas principalmente por ter chacoalhado o Brasil dando início a um revolucionário movimento pelas “Diretas Já”, lembrando que o país ainda vivia sobre a ditadura militar.
Mas antes de conseguir subir para o time das estrelas corintianas, Júlio não conseguiu vaga para morar nos alojamentos do clube, e como sua família havia se mudado para o interior de São Paulo, ele morou, ou melhor, dormiu durante um ano embaixo das arquibancadas da Fazendinha, no Parque São Jorge.
O curioso da história desse ex-ponta-direita do Timão é que, antes de nascer, no Chile, a mãe dele foi orientada a fazer um aborto por causa de falta de cálcio no organismo, decisão que trouxe risco de morte para mãe e filho.
A princípio Dona Odete Prado seguiu as orientações médicas. Marcou a cirurgia que acabaria com a vida do filho que ela carregava. Foi ao hospital no horário marcado para a cirurgia assassina, mas pouco antes da intervenção, Odete surtou e fugiu da maca e do hospital, optou por colocar a própria vida em risco, mas não matar o filho.
Nessa época, o pai Edison trabalhava no Chile e acompanhou de perto a campanha vitoriosa da seleção brasileira na Copa do Mundo, que teve protagonista do bicampeonato um “Anjo da Pernas Tortas”, um tal Mané Garrincha brilhando para o mundo depois que o Rei Pelé se machucou no início da competição.
Praticamente um ano após o bicampeonato canarinho, ainda em terras chilenas, nascia, com muita saúde o menino Júlio César.
Outra curiosidade que marca a vida de Júlio com o futebol é a Copa de 1970 quando, segundo ele, assistindo aos jogos daquela encantadora seleção, aos 6 anos, ele decidiu que seria jogador.
No início, Júlio recorda que conseguiu ser aprovado na peneira do Palmeiras, time que ele torcia, em uma peneira com com aproximadamente 400 meninos.
Da mesma forma como acontece com a maioria dos jornalistas esportivos quando iniciam na profissão, Júlio, tão logo virou um jogador aprovado naquele teste, se decepcionou.
O garoto foi desligado das divisões de base do Palmeiras, mas o prêmio veio tempos depois, quando pôde conviver de perto e participar diretamente de um dos momentos históricos da democracia no esporte e do movimento pela redemocratização do nosso país.
Foi convivendo com as cabeças pensantes da “Democracia Corintiana” que Júlio conheceu o poder da mobilização da massa e a luta pelos anseios e direitos da sociedade.
Em campo, como jogador, Júlio foi um bom ponta-direita. Entrou naquele time de 1981 para ocupar a vaga de Eduardo Amorim, na época machucado. Fez gols com a camisa 7, mas quando o Timão contratou Ataliba, o gaguinho do Juventus, a equipe da rua Javari, tornou-se reserva.
Rodando o mundo
Depois de perder a posição para Ataliba, Júlio César passou pela Ponte Preta e pelo Comercial de Ribeirão Preto, onde chegou a ser vice-artilheiro do Campeonato Paulista, com 18 gols.
Mas Júlio queria ganhar o mundo.
Foi jogar por seis meses em Portugal e logo desembarcou na Bélgica, onde, além de jogar futebol, se entregou a uma verdadeira imersão no mundo da música.
Na Europa estudou neuro linguística. Por lá se envolveu com muitas apresentações de músicas eruditas e concertos, saraus, enfim, na Bélgica o jogador descobriu uma nova paixão.
Música no sangue
A exemplo de Sócrates e Casagrande, Júlio César nunca fez parte daquela turma de jogadores alienados, pelo contrário, desde criança sempre foi estimulado pela família à leitura e, aos 6 anos, por intermédio da mãe, começou a "tirar" algumas músicas no violão.
Júlio carrega na memória as canções que marcaram época nas vozes de Elis Regina, Vinícius de Morais, João Gilberto, Tom Jobim, entre outros tantos monstros sagrados da música popular brasileira.
Na memória musical, Júlio guarda referências que ele ouviu ou tocou no violão até os 30 anos de idade, período no qual enfrentou o maior drama de toda a sua vida.
O silêncio definitivo
Júlio levou uma vida normal até os 29 anos, quando se aposentou do futebol.
O drama maior surgiu um ano depois, quando percebeu que estava perdendo gradativamente a audição.
No início o problema estava sendo resolvido com aparelhos auditivos, mas com o avanço da doença, nada conseguia resolver a surdez que se tornaria total e definitiva em quatro anos de luta.
O problema ocorreu exatamente por causa do tratamento que a mãe, Odete, havia feito quando ele ainda estava na barriga dela. O excesso de cálcio, acredite, mais tarde foi o causador da surdez.
No início, Júlio se revoltou com o mundo e até com Deus.
Mas logo, sem alternativa, assumiu a deficiência e partiu, mais uma vez, para a luta.
A deficiência despertou habilidades jamais vistas pelo ex-jogador, como o campo de visão que ficou mais apurado com a surdez.
Aos poucos, Júlio foi se adaptando e assumindo a nova maneira de tocar e encarar a vida.
E se já é difícil trocar de profissão aos 34 anos, imagina como é complicado entrar no mercado de trabalho depois que a pessoa adquiriu uma deficiência.
E o preconceito, que cria barreiras, não bateu à sua porta. Tudo porque Júlio recebeu um convite do amigo e ex-craque do Corinthians e da seleção brasileira, Zé Maria, para realizar um trabalho social e inclusivo para crianças surdas por intermédio do futebol.
Ali Júlio não só virou o jogo da vida como também se engajou no desenvolvimento de outros métodos de ensino com outros esportes para os jovens deficientes auditivos do ensino público de São Paulo.
Envolvido com a missão de transformar a vida de crianças e adolescentes com deficiência visual, Júlio César lembra que um certo dia decidiu desenvolver um projeto de dança para portadores de deficiência auditiva.
Como realizar a façanha de fazer um surdo dançar já que ele não ouve nada?
Simples.
Com a criatividade e sabedoria de quem também não ouve, Júlio colocou caixas de som voltadas para o assoalho de um palco, aumentou o volume ao máximo e assim, com a vibração causada no chão, todos puderam sentir a batida em forma de vibração da música.
Júlio lembra com emoção a reação, não só das crianças deficientes, como a alegria dos pais que começaram a ver em suas ações culturais e esportivas a chance de seus filhos adquirirem autonomia e confiança para tocar suas vidas com um pouco mais de independência.
Segundo Júlio, esses projetos beneficiam mais de 200 mil crianças no Estado de São Paulo.
O Beethoven Brasileiro
A surdez trouxe a Júlio um incrível poder de se reinventar.
Prova disso é que, há cinco anos, Júlio resolveu tocar piano.
Mas como um ensurdecido total pode tocar piano sem escutar nada?
Com as notas musicais que Júlio guardou na memória na época em que escutava e durante o longo período em que tocou violão, o desafio ficou um pouco mais fácil.
Passamos um sábado inteiro ao lado do pianista.
Acompanhamos o ensaio antes da apresentação que ele fez no Auditório do Memorial da Inclusão, na zona oeste de São Paulo.
Conferimos de perto o talento do pianista que tocou, além de Beethoven, canções de Vinícius de Morais e outras composições próprias, como a que ele fez contando a trajetória de vida dele, desde o aborto que por pouco não aconteceu, passando pelo nascimento, a carreira futebolística, até chegar ao silêncio total da surdez.
Nesse ensaio, vimos e ouvimos a capacidade incrível de um pianista que, difícil acreditar, é surdo.
Ficamos de boca aberta ao final de cada música. Aliás, todos os profissionais da equipe tiveram a impressão de que aquilo que estávamos vendo tinha influência direta de seres de outros planetas, pois cada vez que Júlio finalizava uma canção a impressão que ficava era de que ele estava incorporado.
Deve ser exatamente por essas coisas, inexplicáveis que um ser humano é capaz de fazer que apelidaram o pianista Júlio César de “Beethoven Brasileiro”.
Júlio sabe que o fato de tocar piano sem escutar o leva a ser comparado, o tempo todo, a um cara de grande superação, mas ele não gosta desse rótulo.
“Quando as pessoas me veem tocando todo mundo fala em superação. É claro que é uma forma de me superar, mas muitas vezes esse rótulo me incomoda. O que eu quero ouvir das pessoas e se elas gostam ou não da minha música. Se ela é boa ou ruim. Não quero ser tratado como um coitadinho, um ser que se superou por tocar sem escutar. Quero saber é se curtem ou não a música que eu apresento”, desabafou o pianista.
Na reportagem feita para a televisão, que também está disponível no ESPN.com.br e no WatchESPN, contamos com a interpretação de libras de Fabiano Campos. Para conhecer melhor o trabalho do intérprete basta entrar em contato com ele no Instagram @fabianogold, ou pelo e-mail fabianogold@yahoo.com.
Abaixo separamos um trecho da entrevista, inédito para o ESPN.com.br onde o ex-jogador e pianista fala sobre a hipocrisia das pessoas que só querem enxergar ou ouvir aquilo que interessa.
Nesse depoimento, colocamos a legenda para que o deficiente auditivo passa entender todo o conteúdo da resposta de Júlio.
Com ele aprendemos, mais uma vez, que não há limites para a pessoa com deficiência física, pelo contrário, o que esses caras são capazes de fazer, até Deus e os mais capacitados cientistas do nosso planeta não são capazes de explicar.
