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Corinthians já fez placar que precisa no Equador... e escapou de tragédia aérea logo depois: 'Gritaria e choradeira por uns 15 minutos'

O Corinthians encara o Independiente del Valle no estádio Olímpico Atahualpa, nesta quarta-feira, em Quito, pela semifinal da Copa Sul-Americana, precisando vencer por ao menos dois gols de diferença para ir à final do torneio.

Da última vez que visitou o local, há 23 anos, a equipe alvinegra venceu o Espoli por 3 a 1 - placar que dará a vaga ao Timão - e abriu caminho para a classificação às quartas de final da Libertadores de 1996, mas quase viveu uma tragédia.

O Boeing 727-2B6 da Fly, que levaria cerca de 80 passageiros - incluindo a delegação do Corinthians, alguns torcedores e jornalistas - do aeroporto Mariscal Sucre, a 40 km da capital Quito, a São Paulo (com escala em Porto Velho-RO), apresentou problemas.

"O avião era velho e já tínhamos tido um pouso estranho na ida, ficamos com medo. Na volta, ele não decolou de primeira e ficamos umas quatro horas esperando antes de sair porque o plano de voo não era autorizado. O clima estava muito tenso", contou Zé Elias, ex-volante do Corinthians, ao ESPN.com.br.

De acordo com reportagem da Folha de S. Paulo, o avião custava cerca de 5 milhões de dólares (à época) e tinha sido comprada da Royal Air Maroc e inspecionada em Marrocos.

Quando a aeronave fretada pelo clube alvinegro - por 82 mil dólares à época - iria deixar o solo, às 17h locais (19h de Brasília), o piloto Cledir Joaquim da Silva tentou abortar a decolagem após perceber problemas. O avião, porém, derrapou na pista que estava molhada pela chuva, chocou-se contra o muro do aeroporto e caiu na avenida.

No acidente, o trem de pouso quebrou e uma das turbinas pegou fogo depois que vazou combustível do tanque.

"Eu tentei manter a calma no começo e fui buscar meu passaporte no paletó e o meu sapato porque estava descalço. Mas quando vi o fogo eu tentei sair o mais rápido possível", recordou Zé.

A cabine ficou destruída e a fuselagem partiu-se ao meio. Tupãzinho sofreu queimaduras na perna esquerda e o zagueiro Alexandre Lopes também se feriu, porém, nenhum deles com gravidade.

"Eu fui o primeiro a sair no avião e sai correndo em cima da asa e cai no meio da rua e me machuquei todo. Depois, tive que tomar 13 pontos no traseiro (riso). Eu caí e corri ao lado errado e corri para um deposito de carros. Quando entrei, vieram dois pastores alemães e eu comecei a escalar um poste. De lá, eu vi o pessoal pulando do avião", disse o ex-volante Bernardo, à ESPN.

Os passageiros saíram pelo tobogã de emergência, mas o torcedor Antônio Murilo de Oliveira Jr., conhecido como Júnior Gordo (já falecido), que tinha 260 kg à época, ficou entalado em uma das saídas de emergência.

Para escapar, Zé Elias precisou empurrar alguns dirigentes, que estavam parado na saída de emergência esperando o tobogã, incluindo Mário Travaglini, que fraturou duas vértebras.

"Eu tinha saído do jogo porque estava com o tornozelo machucado e com um problema no dedo. Na hora, porém, eu não senti dor nem nada e pulei no chão", contou.

Edmundo e Marcelinho Carioca, que tentaram ajudar o rapaz, foram os últimos a desembarcar do avião. Ele foi salvo por Paulo Roberto Perondi, segurança do Corinthians, e o Paulo Eduardo Romano, o Jamelão, então presidente da Gaviões da Fiel (já falecido).

Os bombeiros chegaram ao local e apagaram o fogo da turbina.

"Foi uma gritaria e uma choradeira por uns 15 minutos. Curioso que eu fiquei tão nervoso que não parava de rir da situação porque a ficha não tinha caído ainda", relatou Zé.

Os passageiros foram levados a um hotel e houver uma certa confusão, pois só havia um telefone e todos queriam ligar para casa, além dos jornalistas que desejavam dar a notícia em primeira mão.

Logo em seguida, os corintianos foram realocados para um outro voo da Embaixada do Brasil em Quito, o que gerou grande nervosismo dos passageiros.

"Muitos jogadores beberam para poder passar por isso. Eu tomei remédio para dormir que me deu o efeito oposto. Todo mundo gritou de emoção na decolagem e no pouso", recordou Zé Elias.

No dia 2 de março daquele ano, um acidente aéreo vitimou o grupo Mamonas Assassinas, amigos do defensor André Santos e conterrâneos de Zé Elias, de Guarulhos.

"Meus pais e minha irmã me receberam com flores no aeroporto, foi muita emoção", disse.

Poucos dias depois, o Corinthians precisou ir de avião para Presidente Prudente, onde enfrentou o Palmeiras. Foi então que a "ficha" de Zé Elias, então com 20 anos, começou a cair. Ele não queria sair de casa e começou a chorar.

Convencido pelo médico Joaquim Grava e pelo preparador fisico Toninho Camarão a embarcar, o jovem se deparou com uma surpresa quando foi sentar-se na poltrona da aeronave.

"Eles deixaram um ursinho de pelúcia, o Janjão, do meu lado para brincar comigo e superar a situação", contou.

Desde então, o ex-volante precisou lidar com o medo de viajar de avião.

"Eu aprendi a viver o hoje e a não fazer mais tantos planos. A gente não sabe o dia de amanhã e procuro dizer que amo as pessoas sempre. A vida passa muito rápido e não é porque fui jogador e hoje sou comentarista que sou melhor do que ninguém".