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Corinthians: Ele chegou no famoso 'pacotão' de reforços em 2004; hoje, trabalha em hospital

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Corinthians apresentou um pacotão de reforços em 2004 com Careca e Rincón (2:01)

Veja como foi a chegada dos reforços para o Paulistão (2:01)

Quase nenhum funcionário do hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, imagina que o colega do setor administrativo Fábio Willian Amorim Maranho foi um jogador de futebol e chegou defender o time profissional do Corinthians.

Hoje, aos 42 anos, a vida do ex-volante é completamente diferente. Até mesmo seu nome de guerra dos tempos de atleta, Careca, ficou para trás. Atualmente, ele não joga bola nem de brincadeira.

Em 2004, Careca foi um dos jogadores contratados pela equipe alvinegra no famoso pacotão de reforços para o Campeonato Paulista.

“Lembro que cheguei ao Parque São Jorge com meu corsinha que tinha acabado de comprar. E no estacionamento tinham uns carrões tipo BMW, fiquei até meio perdido”, disse ao ESPN.com.br.

Careca foi trazido junto com Fábio Costa, Julinho, Rincón, Dinelson, Adrianinho, Rodrigo, Piá, Fábio Baiano, Rafael Silva, Régis Pitbull, Samir e Marcelo Ramos.

“Na pré-temporada eu estava como titular ao lado do Fabrício e fui muito bem. Mas o Ríncón conseguiu resolver o problema de passaporte e foi titular. Eu saí do time”, lamentou.

Durante os poucos meses que permaneceu no Parque São Jorge, o volante viveu uma época bastante conturbada.

“Eu vi a grandeza do Corinthians, mas era uma várzea. Era muito diferente de hoje. Não tinha estrutura nenhuma, nós nos trocávamos em um contêiner onde é o CT hoje. Eram só três chuveiros, acredita?”, afirmou.

Como a campanha no Estadual era muito ruim, Juninho Fonseca, que havia pedido a contratação do volante, foi demitido e trouxeram Oswaldo de Oliveira, que preferia usar jogadores mais experientes.

Nessa época eu não saía de casa. Uma vez fui a um barzinho com o Gil e a torcida ficou sabendo. Nós tivemos que sair correndo de lá. Não poderíamos sir na rua que tinha ameaça de morte.

Na última rodada do Paulista, o Corinthians perdeu para a Portuguesa Santista em casa. A equipe só não foi rebaixada porque o São Paulo venceu o Juventus com dois gols de Grafite.

“Nós saímos do Pacaembu às 23h porque a torcida nos cercou no vestiário e dando chutes. Teve gente que precisou sair de helicóptero”, recordou.

A pressão era tão grande, que uma vez ele acabou se dando mal....

“Eu levei uns tapas nas orelhas e uma ovada da Gaviões no aeroporto antes de um jogo contra o Fortaleza. Eles não mexeram com o Rincón e o Fábio Costa. O pessoal jogou as camisas sujas no lixo, mas eu fui lá e peguei todas e as coloquei na mala. O avião ficou com um fedor de ovo e eu quietinho (risos)”, afirmou.

Careca deixou o Corinthians na segunda rodada do Campeonato Brasileiro com apenas cinco jogos disputados, mas muitas recordações.

Engano projetou carreira

Careca começou em escolinhas no interior e foi fazer uma peneira no Guarani, mas como ainda não tinha uma posição definida, acabou não sendo aprovado.

“Falei: ‘Onde me colocar eu jogo’. Fui inocente demais e os caras não me deram moral. Treinei de lateral, mas fui mal. Depois, de volante eu fui bem”.

Um ano depois, seu tio conseguiu uma chance de ir para o Rio Branco-SP. Ele disse para o sobrinho que seria a última chance do sobrinho. No clube alvinegro, porém, Careca foi mais experiente e já dizendo que era volante.

O jogador começou a treinar com a equipe sub-17 e chamou atenção do técnico Cilinho, que comandava o profissional.

“Eu dei duas viradas de jogo para o atacante e fiz outras boas jogadas. Nosso juvenil era tão forte que ganhou de 2 a 0 dos reservas do time de cima”.

Depois disso, Careca assinou contrato com a equipe de Americana. Ele jogou ao lado de nomes como Mineiro, Marcos Assunção, Marcos Sena, Alexandre Pitbull, Ivan Izzo, Sandro Hiroshi, Souza e Marcelinho Paraíba.

Careca subiu ao profissional e conseguiu destaque no Paulista de 98.

“Eu tinha um oferta do Palmeiras, mas por causa de empresários fui para América-MG. Depois, voltei ao Rio Branco”, contou.

No ano seguinte, ele não foi tão bem no Estadual e foi colocado de lado pelo time. Careca foi emprestado ao Ituano e depois deixou o Rio Branco na justiça. O volante foi depois emprestado pelo time de Itu para o Santo André, e conseguiu o acesso para a Série A1 do Paulista.

Após ter problemas com o empresário Oliveira Júnior, ele ficou seis meses desempregado na casa de sua avó. Ele estava disposto a largar o futebol, mas por volta das 14h, recebeu uma ligação por engano de Sérgio do Prado, diretor do Santo André. Ele na realidade desejava falar com o atacante andreense Anderson Careca para resolver alguns problemas.

“Eu disse para ele que era o Careca errado (risos). Daí ele se desculpou me perguntando como eu estava. Eu respondi que estava sem clube e ele me pediu 15 minutos. Daí, o Sérgio me ligou: ‘Arruma suas malas e vem para cá’”, afirmou.

O volante foi disputar a Série C do Brasileiro e a Copa Paulista de 2003. Ele foi morar com mais três jogadores em um apartamento em São Bernardo do Campo.

“Era a grande chance da minha vida. Eu ganhava uns R$ 1200 na época. Eu precisava tanto que jogaria até de graça”, recordou.

Careca ajudou a equipe a conseguir o acesso para a Série B e conquistar a Copa Estado de São Paulo, sendo o capitão no título. O volante se destacou, virou um grande ídolo da torcida e ganhou o apelido de “Dunguinha do ABC”.

“É um time que tenho muito amor até hoje e vivi os melhores momentos da minha carreira”.

Quando estava fazendo a pré-temporada para 2004, ele soube que tinha ofertas de Internacional e Botafogo.

“Eu estava voltando do almoço e o João Zanforlin, advogado do Corinthians estava me ligando. O Márcio Rivellino, filho do Rivellino, que era o diretor de futebol naquela época. Eles acertaram minha saída para lá. Analisando hoje, eu não deveria ter ido ao Corinthians naquela época", admitiu.

Careca saiu do Corinthians após alguns meses e foi para o Guarani.

“Eu queria ir embora, mas o Márcio Rivellino queria que eu ficasse. Não estava jogando e tinha esses problemas. No Bugre eu joguei muito bem no Brasileiro de 2004, mas no final do ano a gente caiu.”

Ele recebeu uma oferta da Ponte Preta, mas pela rivalidade acabou não saindo do Brinco de Ouro. Com a chegada do técnico Luiz Carlos Ferreira, porém, ele deixou o time de Campinas.

“Eu fiquei um grande tempo sem receber salários por lá e ainda comecei a ter um problema no quadril. Eu não conseguia mais jogar em alto nível. Eu forçava e dava muitas contraturas e lesões”.

Careca ainda passou por Santo André e Bahia antes começar a rodar por outras equipes como Portuguesa Santista, Catanduvense, Rio Branco e Inter de Limeira, que apresentavam graves problemas financeiras.

“Na maioria dos clubes eu não recebia. Tinha lugares que comia arroz e ovo a semana toda, dormia no colchão o chão com cinco jogadores dentro de um casa. Fiquei uns quatro anos pagando para jogar”.

O último time do volante foi a Inter de Limeira, em 2009. Dois dias depois de sofrer uma contratura na coxa, ele recebeu a notícia de que sua avó, que havia o criado, estava muito mal de saúde.

“Eu dirigi correndo até a minha cidade. Acho que levei umas cinco multas, mas cheguei cinco minutos dela falecer. Nisso, perdi totalmente a vontade de jogar futebol”, contou.

Funcionário de hospital

Com apenas 31 anos, Careca resolveu pendurar as chuteiras de vez e não queria mais mexer com futebol por causa das frustrações na carreira. Não jogava bola nem mesmo em peladas com os amigos.

Chateado, o ex-volante começou a ajudar seu antigo empresário, mas não recebia salários e largou. Depois, foi trabalhar como gerente em um posto de gasolina com seu tio, mas não deu certo.

“Tinha época que tinha no bolso só R$ 10 para cortar o cabelo. Eu pensei: ‘Fodeu! Não sei fazer mais nada da vida, vou ter que estudar’”.

Nisso, seu amigo Vinicius fez contato com Alexandre, que era treinador universitário, para conseguir uma bolsa de estudos em uma faculdade. Depois, ele foi trabalhar por um tempo vendendo ternos e roupas sociais em uma loja.

“Um dia, o Vinicius conseguiu me indicar para uma pessoa no hospital e fui fazer uma entrevista na parte de internações. Deu certo, e estou hoje como analista financeiro na parte de diagnósticos”, disse o volante, que vive de forma anônima na capital paulista.

No prédio aonde moro, um cara já me reconheceu, mas no trabalho são poucos que sabem”, admite o ex-jogador, que chegou a ser eleito "o funcionário do mês" em dezembro de 2016.

Mesmo estando em uma área totalmente diferente, Careca ainda sonha em voltar ao futebol um dia.

“Queria trabalhar na parte administrativa e com pessoas sérias. De preferência em algum clube que já conhecesse. Pretendo fazer um curso de análise de desempenho e um congresso da CBF para categorias de base”, contou.