Campeão brasileiro pelo Corinthians de Tite em 2015, Lincom está desde abril do ano passado impedido de jogar futebol profissionalmente. O atacante de 34 anos aguarda o julgamento por um caso de doping detectado em um exame realizado no Campeonato Paulista de 2018, quando atuava pelo Santo André.
Após o Estadual, ele tinha acertado para a jogar a Série B pelo Vila Nova e chegou a fazer duas partidas, mas como recebeu uma suspensão preventiva, precisou rescidir seu contrato e voltar para a cidade de Birigui, interior de São Paulo.
Para ocupar a cabeça e ter uma renda, ele trabalha em uma papelaria e gráfica que montou junto com seus familiares.
Triste com a demora do julgamento de seu caso, Lincom falou ao ESPN.com.br sobre sua carreira, a frustração nos quatro meses que passou no Corinthians - ele entrou no final de apenas três partidas no Nacional e não balançou as redes - e os problemas que tem enfrentado.
Veja a entrevista com o atacante:
Como está sua situação desde que você acertou com Vila Nova?
Estava no Santo André e teve um exame antidoping no segundo jogo, contra o Red Bull. Depois, fiz o resto do Paulistão bem tranquilo, estava com a cabeça boa. Assim que acabou o Estadual, eu acertei com o Vila Nova e no segundo jogo da Série B eu recebi um e-mail da Wada [Associação Mundial Antidoping] dizendo que estava suspenso. Eu custei a acreditar. porque nunca tinha recebido um e-mail daquele tipo. Eu fui pesquisar para saber o que iria acontecer. Eles tinham encontrado um nível elevado de testosterona e eu estava suspenso preventivamente até o julgamento. Continuei treinando por alguns dias no Vila até aguardar uma definição, mas, como isso não acontecia, eles resolveram suspender meu contrato. Não iam ficar me pagando sem poder jogar. Fiz um acordo com eles e vim para minha casa. Agora, estou esperando esse julgamento que nunca sai.
Quando isso aconteceu? Você entrou com advogados?
Foi dia 22 abril, uma segunda-feira. Eu entrei com advogados, me indicaram alguns. Já foi comprovado que aconteceu de fato foi uma contaminação cruzada, o advogado me falou. Eu tomava suplemento manipulado e achei que era isso, mas era uma creatina que eu tomava que estava contaminada. Eles fizeram exame nessa creatina, que foi até para fora do país, e foi encontrada a mesma substância do dia do exame. Foi marcada uma audiência em Brasília, mas ela foi cancelada menos de 24 horas antes. Perdi R$ 2.500 com o dinheiro das passagens para o advogado e eu. A companhia aérea só reembolsou menos da metade. Fora os estresse de estar esperando o julgamento e o prejuízo que já tive. Estou sem salários há 10 meses. Custo de vida do jogador não é baixo, estava com uma reforma no meu imóvel.
O que você tem feito nesse período? Tem jogado no amador?
Eu não jogo amador, me recuso a jogar até resolver minha situação. Muitas pessoas me chamaram, mas eu não quis. Só jogo futevôlei que eu gosto por lazer. Eu comecei a treinar só esse ano. Passei o ano passado todo sem fazer nada, estava com depressão, fique mal. Tive prejuízos financeiros em outra áreas da minha vida. Tinha negócios e perdi mais de R$ 300 mil. Não conseguia fazer nada, eu tenho uma loja e nem vinha nela. Fiquei 'malzão' mesmo.
Você está tocando a sua loja?
Eu tenho uma papelaria que comprei. Tenho trabalhado todo dia, e é o que tem me segurado financeiramente e psicologicamente. Eu atendo o público, administro e faço de tudo. Ela é papelaria e gráfica no mesmo ambiente. Fazemos currículos, tiramos xerox e vendemos presentes. Meu irmão é sócio e minha irmã é gerente, temos mais dois funcionários.
E sua família?
Eu tenho dois filhos. Nesse tempo parado eu me separei da mãe do meu filho. Foi outro problema que tive, tudo ficou prejudicado. Eu não fique bem, fiquei explosivo demais e briguento. Não é fácil.
Você procurou acompanhamento profissional?
Não. Só por telefone. Mas eu sou meio durão para essas coisas. Todo mundo está vendo o problema, menos eu. Mas sei que tenho um problema e eu vou ter que procurar ajuda.
Qual a sua ideia para esse ano?
Comecei a treinar esse ano. Ano passado eu engordei mais de 10 quilos, quem me vê não diz que sou um jogador de futebol. Fiquei melhor psicologicamente. Agora quero resolver minha situação e marcar logo essa audiência. Como sou inocente, eu devo voltar a jogar em abril. Devo pegar a suspensão mínima de um ano. Depois, vou tentar um time. Não será fácil, porque estou parado há um ano. Na Série B eu tenho mercado e vou fazer 35 anos, mas ainda dá para jogar bastante tempo.
Quais as suas lembranças da passagem pelo Corinthians?
Para falar a verdade para você, foi a maior frustração da minha vida. São poucos que vão falar isso. Não dei um chute naquele time, fiquei quatro meses sendo enganado e saí sem jogar. Não tive uma vaia, um aplauso, nada. Falam para mim: 'Você é campeão brasileiro'. Eu preferia ter jogado o ano todo e não conseguido título nenhum e ter feito 10 gols do que ter sido campeão do jeito que eu fui. Não fiz um jogo. Quando perguntam os times que eu joguei, eu não falo do Corinthians, porque só falo dos times que eu joguei mesmo. E tem bastante.
Como foi a saída do Corinthians?
Depois que saí de lá, eu fiquei mal, porque era algo que sempre sonhei, mas não tive oportunidades. Foi pouco tempo e acabei jogando alguns minutos, eu me garanto e tenho certeza que faria gols pelo Corinthians se tivesse tido mais tempo para jogar. Muita gente vinha me bajulando: 'Você é campeão brasileiro, parabéns'. Eu cumprimentava por educação, mas por dentro estava com muita frustração pelo que tinha acontecido. Tinham marcado o retorno do grupo para o dia 6 de janeiro de 2016 e eu fiquei sabendo que não ia jogar mais lá só no dia 4 de janeiro. Eu estava emprestado até dia 31 de dezembro, acabou meu contrato, mas não me falaram nada. Achei até desrespeitoso não me avisarem antes. Dia 4 eu falei com o Edu Gaspar, que disse que não ia renovar, e o Tite mandou me agradecer. Eu tinha falado com o Tite, que tinha me dito que tinha intenção que eu ficasse e no próximo ano eu ia ter mais chances porque ia ter Paulistão e Libertadores, que ia ter campo ruim e ia precisar do jogo aéreo.
Por que você não ficou?
Eu não sei qual o motivo. Se foi culpa do Bragantino ou do Corinthians. Não sei. Antes do jogo do Avaí, o último do campeonato, falei com o Tite. Ele bateu no meu ombro e disse: 'Eu pretendo que você volte'. Foi uma conversa franca. Mas aí não aconteceu, fiquei frustrado pra caramba. Sou frustrado com isso até hoje. Era um sonho que sempre tive. Cheguei aonde sempre almejei e não joguei. Se tivesse jogado uns cinco ou seis jogos e ido mal, beleza. Mas nem oportunidade tive. Treinando todo dia com dor, me esforçando, todo mundo tendo chance. Eu achei uma sacanagem o que fizeram ali. Fiquei frustrado.
De lá você voltou ao Bragantino?
Para você ver. Eu era campeão brasileiro e fui jogar a Série A2 do Paulista. Eu desandei, estava bebendo pra caramba, estava mal mesmo. Me machuquei, não joguei e fiquei o resto do ano todo parado. Só voltei em 2017 pelo São Caetano. Me foquei de novo e emagreci, porque estava gordo. A gente foi campeão da Série A2 e foi um ano bom. Já tinha aceitado um pouco mais o que tinha acontecido.
Com foi o ano passado para você no Santo André?
Não foi bom, porque fomos rebaixados no Paulista. Eu joguei todos os jogos. Era um dos líderes do time, mas um rebaixamento mancha para caramba. O grupo não era unido, havia jogadores que não estavam nem aí. Estavam perdendo o jogo e rindo, um torcendo contra o outro. Isso foi detectado no meio do campeonato. Eu fiz coisas que nunca tinha feito, e não foi só eu. Eu cheguei a chamar um auxiliar e falei: 'Ou tira o cara do time ou ajeita esse cara. Senão, o time vai cair'. Todo mundo sabia do problema, mas não resolveram. Isso já passou também e é página virada. Não me isento da culpa, mas tinha um problema mais grave. Tinha cara que não respeitava treino, treinava de qualquer jeito. Ficava bicudo e torcia contra.
Por quais times você tem carinho?
Eu sou o maior artilheiro de dois clubes: o Rio Branco e o Bragantino. Poucos jogadores conseguem isso por clubes dois times grandes do interior, eu acho que não tem mais nenhum. Lá eu conquistei coisas. Tenho acesso e gols pelo Criciúma. No Brasil de Pelotas, eu dei muita assistências, nunca tinha feito isso. Foram umas sete assistências na Série B e nove gols. No São Caetano, conseguimos ao acesso e fiz muitos gols. Na Portuguesa Santista também tenho carinho.
Foi no Rio Branco que você conheceu o Romarinho, ídolo do Corinthians. Você tem uma história bacana com ele...
Ele é meu irmão desde a época do Rio Branco, em 2008. Eu tinha moral e o treinador veio perguntar sobre dois meninos que estavam fazendo testes. Eu disse: ‘O lateral esquerdo é bom, mas aquele atacante é muito bom’. Era o Romarinho. Nos primeiros treinos ele já arrebentou. Daí, ele assinou contrato e nós conseguimos acesso no Paulista naquele ano. Depois de dois anos, fui ao Bragantino e apresentei meu empresário para ele. Eu também indiquei o Romarinho para o Marcelo Veiga, porque ele tinha sido rebaixado com o São Bernardo no Paulista e ficou quatro meses desempregado, sem dinheiro. Eu falei dele e, como tinha moral, ele foi para lá. Com um mês já era titular do time. Nós temos mais de 10 anos de amizade.
Onde você acha que sua carreira mudou?
Foi em 2005, na Portuguesa Santista. Eu cheguei lá para fazer testes e fui bem no Paulista, fiz uns 18 gols em um ano e meio por lá. Foi a primeira vez que fiz um gol em time grande, no Corinthians. Nós perdemos em 2006 para o time do Tevez, Mascherano e Nilmar. Aquele gol foi primordial, porque depois dele nunca mais fiquei desempregado. Sempre peguei algum. Antes, eu só pegava time de Série A3, que não pagava. Tenho um carinho muito grande pela Santista.
Você fez gols no Corinthians por vários times...
Sim, já fiz também pelo Bragantino e pelo Santo André no Paulista de 2018. Curioso, é jogar contra o Corinthians que eu faço um gol (risos)...
