O Sol ainda não tinha nascido na madrugada do domingo 17 de maio, quando os amigos Kent Samaio, 31, e Henry Urrunaga Diaz, 31, acordaram, pegaram as mochilas e despediram-se de quem levantou para vê-los. Era quase 4h quando a dupla, desacreditada por alguns, bateu as portas do Fusca branco e partiu para uma grande aventura: atravessar a América do Sul rumo ao Brasil.
O objetivo era chegar ao país para assistir a seleção peruana jogar as primeiras partidas da Copa América. A primeira delas em Porto Alegre, em 15 de junho. Três dias mais tarde e a 1.564 km, contra a Bolívia, no Rio de Janeiro.
Depois de centenas de estradas percorridas e muitos perrengues, eles cumpriram a missão.
"No começo não tínhamos nada. Nem carro. Nem habilitação. Nem dinheiro. Mas fizemos um pouco de tudo. Juntamos dinheiro, compramos o carro e aprendemos a dirigir na estrada. Rodamos em média 400 km por dia", afirmou Kent, que é administrador.
Cultivando uma amizade que teve início na Copa de 2014, no Rio de Janeiro, a dupla alimentou também o desejo de voltar ao Brasil para ver a Copa América, especialmente a seleção peruana.
“Mesmo sem termos nada, ele topou e iniciamos o projeto. Criamos um perfil nas redes sociais e um canal no YouTube", disse Henry, que é formado em comunicação social. Tudo que a dupla faz ele registra nas redes sociais: Instagram, Facebook e YouTube.
O Fusca, por sua vez, veio mais tarde. Kent e Henry compraram um veículo quase abandonado. Modelo 1976, branco. O carro recebeu algumas pequenas melhorias e a viagem começou.
"Ele mais econômico, mas confiável e mecanicamente mais simples. Era perfeito para nós que não sabíamos nada. Apelidamos ele de Concho -- porque Conchudo em espanhol significa 'sem vergonha'. Ele é sem vergonha. Vai para lá, vem para cá", brincou Henry.
Ao todo, foram quase 1.500 dólares para a dupla (cerca de R$ 5.739). Para compor o dinheiro, uma série de saídas. Além das economias de ambos, venderam alpargatas e camisas customizadas, e ainda se mostraram um tanto brasileiros, vendendo caipirinhas por R$ 6.
Perrengues e surpresas
O pontapé inicial para a viagem foi em 17 de maio. A dupla percorreu toda a costa do Peru e chegou ao Chile três dias depois. O primeiro perrengue, entretanto, não tardou para aparecer.
"O Fusca é um carro diferente. Depende do dia, do clima e principalmente do vento para não superaquecer o motor”, explicou Henry. “Não tem água no motor. Ele depende do ar. Se você dirige muito rápido em um clima quente, o motor pode 'explodir'”.
Foi justamente o que aconteceu quando eles iniciaram a travessia de Huara, um dos desertos mais secos e quentes do mundo.
"Tivemos de chamar um serviço de reboque, retornar à fronteira, na cidade peruana de Tacna, para reparos. Perdemos seis dias da nossa viagem", disse Kent. "Na verdade, ganhamos seis dias de experiência", brincou Henry, para risada de ambos.
Com o carro novamente pronto para encarar a estrada, a dupla voltou para as pistas. Passaram por Iquique, Tocopilla e La Calera. Depois, iniciaram a travessia dos Andes. No território argentino, cruzaram as cidades de Mendoza, Córdoba, Santa Fé, Paraná e Corrientes.
"Entramos no Brasil por Uruguaiana. Chegamos em Porto Alegre um dia antes do Peru estrear na Copa América. Conseguimos ingressos e assistimos o empate com a Venezuela, na Arena do Grêmio”, recordou Henry.
Dali, viajaram para o Rio de Janeiro, passando por Florianópolis, cidades do Paraná e São Paulo.
Já em terras cariocas, conseguiram ingressos com outros amigos peruanos e assistiram a vitória por 3 a 1 sobre a Bolívia, no Maracanã.
"Decidimos ficar aqui e curtir um pouco da nossa viagem", disse Kent.
A dupla não contava com a classificação do Peru para final e ainda teve nova surpresa negativa.
"Deixamos o Concho na rua na Lapa e dormimos em um local próximo. Um dia quebraram o 'quebravento' [vidro lateral da porta] e roubaram documentos, algumas roupas, objetos que vendemos, um pneu reserva e até as nossas bebidas", disse Kent.
O amigo, por sua vez, prefere lembrar de outras experiências. "Foram tantas pessoas que nos ajudaram com gasolina, comida, local para dormir ou comprando nossas coisas. Imaginar uma viagem como esse é muito estressante, mas quando você começa as coisas acontecem e tudo se torna agradável", disse Henry.
A aventura da dupla está perto do fim. Será concluída no domingo, quando Brasil e Peru jogarão pela final da Copa América, no Maracanã.
"Peru chegou à final sem expectativas. Se ganhar, será maravilhoso. Se perder, tudo bem. Vai ter festa também. E depois voltamos para Lima, descansamos alguns meses e vamos iniciar um novo plano: dirigir com Concho até os Estados Unidos", disse Henry.
