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Após Tragédia do Sarriá, o Brasil começou a ser mais pragmático, afirma ídolo peruano

Juan Carlos Oblitas foi um dos campeões da Copa América de 1975, viu de perto o crescimento do futebol no Peru e vivenciou quase toda a época de ouro da seleção, entre 1969 e 1982. O ex-ponta-esquerda também foi adversário do futebol brasileiro no período e viu o país que era referência vivenciar uma transformação.

"A partir de 1982, o Brasil passou a praticar um futebol mais pragmático, mais focado na defesa", disse Oblitas à reportagem.

A mudança a que ele se refere ocorreu nos últimos 37 anos, já após Oblitas ter pendurado as chuteiras e o Peru iniciar um declínio técnico. No mesmo período, os brasileiros conquistaram dois títulos mundiais (1994 e 2002), quatro Copa das Confederações (1997, 2005, 2009 e 2013) e cinco Copas América (1989, 1997, 1999, 2004 e 2007).

Mas Oblitas entende que a seleção brasileira, ainda que vitoriosa, deixou para trás algo específico e marcante no futebol nacional: a arte.

"A partir da Copa de 1982 o Brasil começou a mudar a mentalidade da forma de jogar. Começou a praticar um futebol menos vistoso e mais pragmático como seleção. É verdade que ganhou títulos, como a Copa de 1994, mas a ênfase toda dada foi para um futebol pragmático.

"O Brasil passou a ter seu estilo de jogo muito mais concentrado em defender-se, deixando três homens na linha ofensiva para definir tudo", completou.

Para o ídolo peruano, a mudança ocorreu por causa do trauma da perda da Copa do Mundo de 1982, que foi disputada na Espanha. O acontecimento entrou para a história como a Tragédia de Sarriá por causa da derrota por 3 a 2 para a Itália, em Barcelona, que custou a eliminação na segunda fase.

Para contextualizar, a seleção canarinho vinha dando show naquele Mundial. Havia batido todos os rivais que enfrentou. Na abertura da segunda fase derrotou a Argentina de Diego Maradona e última campeã por 3 a 1. Poderia empatar com a Itália que avançaria para a semifinal. No entanto, Paolo Rossi fez três gols e os italianos enviaram os brasileiros de volta para casa.

Foi a despedida de um time que tinha Falcão, Cerezo, Sócrates e Zico.

"Foi um golpe ao futebol arte", disse Oblitas, que, apesar de não viver no Brasil, resumiu bem o impacto daquele revés para o país.

MUDANÇA PERUANA

Coincidentemente, o Peru também sofreu uma mudança após 1982, quando a era de ouro do futebol local teve um ponto final.

A equipe vinha com uma geração que chegou à primeira Copa do Mundo em 1970 (com um técnico brasileiro, no caso Didi), jogou o Mundial de 1978 e se classificou para o da Espanha. No meio do caminho, venceu uma Copa América (eliminando o Brasil na semifinal) e derrotou a França, em Paris, em 1981.

"Eu acredito que a melhor equipe que eu tive a sorte de participar foi a de 1982. Em 1981, nas eliminatórias, estivemos em nível muito bom. Muito melhor que em 1978. Mas acredito que houve uma estratégia péssima durante a nossa preparação", relembrou.

"A Federação fez um contrato com uma empresa de televisão, que nos obrigou a fazer uma série de partidas amistosas antes do Mundial. Se ressaltou mais a parte comercial do que a técnica. Quando chegou o Mundial, o nível técnico, que deveria estar em no alto, teve uma queda grande. Foi isso que aconteceu com o Peru e terminamos mal, eliminados na primeira fase. Aquela equipe de 1982 era bem melhor que a seleção de 1978. Jogava bem podia enfrentar qualquer um de igual para igual. Ganhava, fazia os resultados. Quem nos treinava era o Tim. Foi uma pena grande o fim daquela era com a geração de 1982 mal preparada para a Copa."

Hoje, Oblitas é diretor desportivo da seleção, responsável pela contratação do técnico argentino Ricardo Gareca, e acompanhará no próximo domingo a equipe Bicolor enfrentar o Brasil no Maracanã, na final da atual Copa América, a partir das 17h (de Brasília).