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Descoberto na periferia do Rio, Thiago Silva reencontra Maracanã e a cidade onde era 'rato'

Líder de uma defesa que não foi vazada em nenhum jogo da Copa América, o zagueiro Thiago Silva reencontrará o Maracanã neste domingo, na decisão do torneio entre a seleção brasileira e o Peru, após seis anos. A última vez foi no título da Copa das Confederações de 2013. O que por si só já torna o local sagrado, ainda mais para alguém que foi nasceu e cresceu no Rio de Janeiro.

Thiago Silva foi descoberto nos campos de várzea da comunidade de Urucânia, no extremo da zona oeste do Rio de Janeiro. No início, o garoto só jogava descalço e era conhecido pelos amigos de bairro pelo apelido de Rato.

"Ele era muito magro, dentuço e tímido", explicou um dos amigos do jogador e ainda morador local.

"Sempre jogamos juntos. Era o Thiago de volante, eu no meio e o Fabrício [outro amigo] no ataque", relembrou Igor Mendes, que, além de amigo, também é cunhado de Thiago Silva.

Naqueles anos, o zagueiro jogava em frente ao portão da casa dos pais, onde até hoje é possível encontrar o terreno de terra posicionado entre duas ruas asfaltadas. O local é pequeno, mas para as crianças era suficiente.

"Vi ele fazer de tudo ali. Já tinha muita habilidade nas nossas peladas", disse Mendes.

Não foi só ali que o hoje zagueiro bateu bola na infância. Jogou muitas vezes nas quadras da Escola Estatual Francisco Caldeira de Alvarenga, onde quase foi seduzido a entrar para o atletismo.

"Não foram poucas as vezes que falei com ele. Tentei mesmo levar o Thiago Silva para o atletismo pelo porte físico dele, velocidade, mas ele sempre foi um predestinado a jogar futebol", disse Cléber Bastos, o professor de educação física.

Se Bastos não teve sorte, o mesmo não se pode dizer Valdeck de Lima, o Dequinho.

Ele foi o primeiro técnico de Thiago Silva, quando o hoje jogador tinha pouco mais de oito anos. Orientou o garoto nos campos de várzea da Urucânia e até mesmo nas competições amadoras que o Nacional, time local, disputou.

"Thiago Silva começou comigo como cabeça de área. Volante. Ele era capitão, líder, sempre sério. Na palestra dele, dentro do vestiário, ele não gostava nem que o pessoal ficasse rindo", disse o treinador em reportagem dos canais ESPN em 2013.

Dequinho foi quem lapidou Thiago Silva naquele início para valer no futebol e colocou como zagueiro.

"Sou mestre em fazer zagueiro bom. Sou mestre nisso. Zagueiro tem de ter cara feia, tem de impor respeito. Sempre ensinei meus zagueiros serem capitães das equipe. Thiago era o nosso", afirmou.

"Quando ele ia para o meio do campo, eu dizia: Thiago, abriu, você solta o canudo!' Era um cabeça de área, zagueiro, artilheiro. Tinha uma técnica melhor que a dos atacantes. Não é só saber chutar, é pegar a bola, saber tocar, saber sair jogando. Sabe cantar a jogada. Ele fazia isso", relembrou Dequinho sobre seu mais famoso pupilo.

Quando estava com cerca de 13 anos, Thiago Silva conseguiu ser aprovado na base do Fluminense. Abandonou os campos da Urucânia, mas não o bairro. Continuou morando lá e enfrentava pouco mais de 200 km diários, entre ida e volta, passando mais de três horas no transporte público para chegar a Xerém, onde fica a base tricolor.

Thiago Silva não chegou a ser aprovado para atuar no profissional do Fluminense. Era apenas mais uma decepção para que já tinha sido rejeitado nas peneiras de Flamengo, Botafogo, Olaria e Madureira.

A oportunidade de ser profissional ocorreu em Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre. Por meio de alguns amigos, ganhou uma chande para atuar pelo RS Futebol, chamado desde 2008 como Pedrabranca e que teve como proprietário Paulo César Carpegiani.

"Ele apareceu e demos a assistência total para ele. Estava meio gripado, com alguma dificuldade. O pegamos, e ele jogou algum tempo no RS. Tivemos a condição de participar da formação dele e em seguida emprestamos para o Juventude [em 2004]. Era um menino de muita qualidade e hoje está demonstrando isso”, elogiou Carpegiani.

Em 2005, surgiu a primeira experiência na Europa. Com 21 anos, foi para o Porto, de Portugal. Jogou apenas pelo time B (14 partidas) e logo depois foi emprestado ao Dínamo Moscou. Nem chegou a entrar em campo.

A baixa temperatura afetou rapidamente o garoto de 21 anos, acostumado ao calor do Rio de Janeiro. Sofreu com problemas respiratórios e foi diagnosticado com tuberculose. Um médico russo cogitou extrair um pedaço do pulmão do zagueiro, algo que a família impediu e passou a trabalhar para ele retornar ao Brasil.

Quem ajudou Thiago Silva neste momento foi Ivo Wortmann, então treinador do Dínamo Moscou. Ele indicou um médico para cuidar do defensor. Foi o início da recuperação, para não dizer salvação do brasileiro.

Em seguida, Thiago Silva voltou ao Brasil para se tratar e acabou emprestado ao Fluminense, que estava sob o comando de Wortmann (mais uma feliz coincidência na vida dele). Foi aí que o garoto da Urucânia deu a volta por cima. Se firmou na defesa do time das Laranjeiras e durante três temporadas mostrou tudo que sabia.

Ganhou a Copa do Brasil de 2007 pelo clube e foi vice da Copa Libertadores de 2008. Ao se despedir, somava 146 jogos e 14 gols. Foi para o Milan, da Itália, e por três temporadas ganhou um Italiano e uma Copa da Itália.

Chegou ao PSG em julho de 2012 e soma atualmente 280 jogos pela equipe francesa e 16 gols. Na galeria de conquistas, tem 21 taças: seis títulos do Francês, seis da Copa da Liga Francesa, cinco da Supercopa da França e quatro da Copa da França.