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Lado B da Copa América: Jô aprende com povo japonês e hoje quer ser exemplo de cidadão

Esta é a 11ª matéria da série Lado B da Copa América, que trará histórias relacionadas ao torneio que acontece no Brasil em 2019. Nada de esquema tático ou entrevistas de frases feitas, porém. Aqui, o conteúdo irá muito além das quatro linhas...

O retorno de João Alves de Assis Silva, o Jô, ao Corinthians, para a temporada de 2017 foi tudo o que o clube e o atacante precisavam. “No Brasil, eu vivi um momento mágico”, revelou o jogador do Nagoya Grampus ao ESPN.com.br.

Durante sua carreira, até a “consolidação disciplinar”, Jô ficou marcado pelos episódios extracampo. Baladas, festas e falta de compromisso o afastaram do Everton, na Inglaterra, do Internacional e até do Atlético-MG. Mas, hoje em dia, o atacante quer servir de exemplo, graças ao povo japonês. Povo esse que, durante a Copa América, estará no Brasil para dividir sua conhecida disciplina, dedicação e compromisso que contribuem com o jogador depois de vivenciar inúmeros momentos complicados.

O atacante revela como começou sua relação e o primeiro contato com o povo oriental.

“Os japoneses são muito tímidos, mas quando você conquista a confiança e mostra carinho com eles, eles se abrem e são muito receptivos. A torcida foi desde o primeiro momento, me abraçou no aeroporto, na chegada”.

Ascensão promissora

Criado na base do Corinthians, o atacante apareceu como uma joia, se tornando o atleta mais jovem a vestir a camisa do time em uma competição oficial com apenas 16 anos, três meses e 26 dias, em 2003. O sucesso veio rápido. Em 2004, o atacante já era titular absoluto e manteve o status no ano seguinte, quando marcou 6 gols em 42 jogos.

No meio da temporada 2005-2006, Jô chamou atenção do CSKA Moscou, onde se destacaria ainda mais. Comprado pelo clube russo por US$ 5 milhões (R$ 12 milhões), ele se tornou titular em suas duas temporadas por lá, marcando 36 vezes em 65 jogos.

O Manchester City gostou do que viu e gastou 24 milhões de euros para contar com o atleta de 21 anos, uma transferência que bateu, à época, o recorde do clube inglês.

Derrocada

O problema, para ele, foi que a estadia na Inglaterra não aconteceu como o esperado. Na primeira temporada, o atleta não teve um bom desempenho, marcando apenas 6 vezes em 42 jogos.

A performance fez com que ele fosse emprestado ao Everton, onde os problemas de indisciplina começaram. No time de Liverpool sua atuação continuou abaixo do esperado e sofreu sua primeira suspensão. Mais um empréstimo. Dessa vez, foi para o Galatasaray, e os problemas continuaram.

O retorno ao Brasil tornou-se inevitável, mas atos de indisciplina no Internacional fizeram com que Jô fosse afastado. Dário de Assis, pai do jogador, em entrevista para a ESPN, comentou o que se passava na cabeça do atacante à época.

“Um pouco deslumbrado, né. Pensando em festa. Ele achou que vindo da Europa estava garantido, salário muito alto”.

Renascimento no Brasil

Em Minas Gerais, Jô retomou o bom futebol. Logo em sua segunda temporada, o atleta conquistou a Copa Libertadores, sendo convocado para vestir a camisa da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2014.

Após a eliminação do Brasil, ele viveu um novo período de baixa, sendo afastado pelo técnico Levir Culpi, novamente, por atos de indisciplina.

Depois de um ano sem marcar, o atleta fez o gol na final do Campeonato Mineiro de 2015 e retomou à titularidade na equipe. Ao todo, foram 127 partidas e 39 gols, antes de se mudar para o Emirados Árabes e, depois, para a China.

Aprendizado no Japão

Então artilheiro do Brasileirão, Jô recebeu uma proposta do Nagoya Grampus., que o comprou ao Corinthians por 11 milhões de euros (R$ 43 milhões).

“O começo foi complicado como em qualquer país que eu joguei. Sempre difícil a adaptação de futebol, a cultura e a língua”, admitiu o atacante. “Consegui me adaptar rápido e, em cinco meses, eu já estava fazendo boas partidas e gols. A equipe não terminou na posição que queríamos, mas para mim foi ótimo.”

O investimento deu certo. Aproveitando sua força e altura, o atleta foi artilheiro da J-League, com 25 gols em 37 jogos. “Percebi no meu período de adaptação que eu poderia usar mais o meu físico para ter vantagem”, afirmou Jô.

Com apoio da torcida e do grupo, Jô conseguiu jogar seu melhor futebol, mas se surpreendeu com a qualidade e técnica dos japoneses. “A maioria dos jogadores trabalham muito bem com as duas pernas, um domínio muito bom e passe refinado”, ponderou. “Acredito que o japonês, dentro da Ásia, é o que mais tem qualidade”, completou.

Jô aprendeu muito com a disciplina japonesa, mas diz que em campo, a extrema disciplina tática se torna em um problema. Assim, mesmo em sua estadia no Japão, o atleta prefere manter um “jeitinho brasileiro”. “A disciplina é necessária, mas muita das vezes o jogador precisa ter a percepção daquilo que no momento vai ter sucesso”, afirmou. “A própria improvisação, não fazer aquilo o que pedem, mas o que você acha que é melhor no momento.”

Jô não aprendeu somente dentro de campo. Ele contou a ESPN que assimilou parte da cultura local e pretende usar ela no seu cotidiano, como a simples tarefa de esperar o semáforo ficar verde para poder atravessar a rua. “A gente sabe que no Brasil, olhamos para um lado e para o outro, e estamos acostumados a atravessar. Temos esse costume desde pequeno. Mas, aqui a gente fica esperando. é bom para aprendermos e quando voltarmos para o Brasil, a gente servir de exemplo. O farol é para ser respeitado”, afirmou o atacante.

“Entrar em casa e tirar o sapato, também. Quando estive de férias no Brasil eu já exigia isso, chegava alguém e eu falava 'olha o sapato'. Experiências que eu estou passando no Japão que são legais de levar a vida inteira.”

O Japão disputa sua primeira Copa América, mas não busca apenas o desempenho em campo. Uma aula que começou nas arquibancadas da Copa do Mundo de 2014, quando os torcedores limparam a arquibancada, promete continuar como um show de cidadania nos estádios do Brasil.