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Como lei desequilibrou Mundial e fez sul-americanos mais do que fregueses da Europa desde 1995

Em novembro de 1995, o Ajax, da Holanda, venceu o Grêmio nos pênaltis e faturou o título mundial daquele ano. Foi a 14ª conquista dos representantes da Uefa no torneio que opunha os campeões continentais de Europa e América do Sul. Àquela altura, os clubes da Conmebol somavam 20 taças.

Desde então, porém, a conta mais do que se inverteu. A partir do Mundial de 1996, os europeus somam 18 títulos da competição, enquanto os sul-americanos só se sagraram campões seis vezes.

Foi um acontecimento ocorrido um mês após aquela final entre Ajax e Grêmio no Japão que ajuda a entender a mudança: a lei aprovada depois de processo movido pelo atleta Jean-Marc Bosman.

Cinco anos antes o então jogador entrou na Justiça cobrando o direito de poder escolher onde jogar após o final do seu contrato. Naquela época, ao contrário do que acontece agora, o atleta continuava preso ao clube mesmo após o fim do período do vínculo acordado no papel.

Com o ganho do jogador no Tribunal de Justiça da União Europeia, em dezembro de 1995, foi instituída a Lei Bosman, transformando a relação entre clubes e atletas e permitindo que as equipes europeias se tornassem ainda mais fortes – como o balanço de títulos no Mundial comprova.

A partir da decisão, qualquer jogador passaria a ficar livre de seu clube com a expiração do contrato. Com seis meses ou menos para o fim do vínculo, também se tornou possível assinar com outra equipe sem a necessidade de qualquer pagamento afim de ressarcimento pelo negócio.

Mais do que isso, na Europa, a lei fez com que jogadores de países pertencentes à Comunidade Europeia pudessem ser contratados por equipes de nações do bloco sem que fossem, como acontecia antes, considerados estrangeiros. Na prática, os clubes viraram potências globais.

Antes da aprovação da Lei de Bosman, os times tinham uma cota máxima de atletas de outras nações em seus elencos. Por exemplo: nas competições europeias, o regulamento da Uefa decretava que cada equipe poderia colocar em campo no máximo três estrangeiros, além de precisar escalar ao menos dois "assimilados" - jogadores que tinham jogado ininterruptamente durante cinco anos no país da associação nacional em questão, sendo três dessas temporadas nas categorias de base.

Depois de 1995, a América do Sul só voltou a ter um representante campeão mundial em 2000, ano em que o Boca Juniors venceu o Real Madrid na Copa Intercontinental, e o Corinthians também acabou faturando o torneio organizado pela Fifa pela primeira vez naquele ano.

A diferença é ainda mais acentuada nas últimas temporadas, com os europeus com seis títulos consecutivos – sendo que, em três desses anos, os sul-americanos sequer foram às finais.

Nas últimas 12 edições do Mundial de Clubes, a América do Sul só ficou com a taça uma vez, em 2012, com o Corinthians. Em todas as outras 11, o título foi para a Europa.