Foi uma quinta-feira nada comum em La Boca. Dia de ver o time que move o bairro e amedronta o continente ir a campo. Quem é o adversário? Ninguém. Não há quem enfrentar, e o canto é um só. E por muitas horas.
O bairro que já é normalmente tomado pelo azul e o amarelo nas pinturas de suas casas e estabelecimentos viu as cores deixarem as paredes e tomarem as ruas. Às 13h locais, cinco horas antes do treinamento dos comandos de Guillermo Barros Schelotto começar, já era possível ver grandes filas para os diferentes setores da Bombonera - de acordo com o jornal Olé, houve quem acampou na porta do estádio para garantir seu lugar no treinamento. Ninguém ficava indiferente. Alguns vendedores de sanduíches, por exemplo, iam cantando e batucando enquanto atendiam os clientes, em meio a um clima único, em todos os sentidos da palavra.
Nada anormal para um dia de jogo... mas não era. Era dia do último do encontro entre torcida e time do Boca Juniors antes da segunda partida da decisão da Copa Libertadores contra o River Plate. Um jogo que não vale 'apenas' a taça do principal torneio sul-americano de clubes: é a maior final da história do torneio, como muitos consideram. De quebra, se bater seu maior rival, a equipe xeneize se igualará ao Independiente como maior campeão da história da competição.
Quando a diretoria marcou a atividade para esta quinta, aberta aos torcedores e de graça, a lotação do estádio era algo certo, ainda mais para uma torcida que historicamente demonstra que não precisa de jogos importantes para expressar seu amor incondicionável pelo time. E o resultado foi uma atmosfera surreal dentro do estádio, apesar dos conflitos gerados entre alguns torcedores e policiais devido ao número elevado de pessoas que desejavam fazer parte do evento.
Nesta quinta-feira, as atenções se voltaram inevitavelmente mais ao que ocorria fora do que dentro de campo. Dois gols estavam no meio do gramado para um bobinho seguido de treino em campo reduzido, mas pode ser na verdade que as quatro linhas tenham se reduzido para arquibancadas tão cheias. Com ingressos de graça, o estádio com 49 mil lugares ficou pequeno para tanta procura e tamanha paixão. Um torcedor não aguentou e invadiu o campo. Quando o policiamento interviu para tirá-lo de campo, Carlos Tevez pediu que o fã pudesse abraçar alguns jogadores e até ganhar uma blusa antes de ser retirado. O gesto rendeu aplausos do estádio.
A atividade que não durou uma hora foi precedida por pelo menos três horas de torcedores cantando como se houvesse uma final sendo disputada naquele momento. Porém, o máximo de movimentação que se via no campo eram de policiais ou assessores indo para lá e para cá de vez em quando.
Ainda que não conte com o apoio de sua torcida no sábado, na decisão no Monumental de Núñez, é impossível imaginar que a sinergia demonstrada pelo Boca e sua torcida não tenha qualquer influência nos atletas visitantes quando a bola rolar.
