O futebol pode ser considerado literalmente um teste para cardíaco.
Na Copa do Mundo de 2006, por exemplo, um estudo da Universidade Ludwig-Maximilians, de Munique, apontou que o risco de um ataque cardíaco aumentou três vezes entre os homens e em 82% das mulheres nos dias em que a Alemanha, país-sede do torneio, esteve em campo.
“No Mundial de 1998, quando a Argentina jogou com a Inglaterra, em que Inglaterra ficou de fora, saiu um trabalho que se fez na Inglaterra de como aumentou em 30% a taxa de eventos cardiovasculares nas 24h da eliminação da Inglaterra”, contou o cardiologista Gonzalo Díaz Babio ao ESPN.com.br.
Tendo como base estes fatos, uma ideia original surgiu na Argentina, às vésperas da maior final da história entre clubes no futebol local. Os hipertensos ganharam uma alternativa mais saudável para acompanhar o clássico entre Boca Juniors e River Plate, pela Copa Libertadores. Se uma decisão já é tensa por natureza, esta então...
Com isso, surgiu a ideia de fazer uma transmissão diferente e foi colocada em prática pela Sociedade Argentina de Cardiologia, a Glaciar marca de água com baixo teor de sódio e a Radio Colonia.
Ao fundo, música zen. Nada de gritos e muita moderação, apesar de o primeiro jogo da decisão ter terminado com quatro gols – empate por 2 a 2 em La Bombonera. De vez em quando, Díaz Babio, estreando em transmissões esportivas, dava dicas aos ouvintes.
“O que fazia (na transmissão) era recomendar alguma atividade para se fazer se alguém estava muito nervoso, alguma sugestão sobre alimentação saudável, sobre não abusar na comida, na bebida, e dar uma caminhada. E alguns comentários durante a partida, de algumas situações sobre os jogadores também, fazia comentários médicos sobre a saúde e apontando aos torcedores, principalmente”, disse o médico e membro da Sociedade Argentina de Cardiologia.
Ouça abaixo alguns momentos da transmissão:
“O que sempre sugerimos é tratar de evitar os excessos. Proibir é muito difícil, porque é muito difícil proibir que se tomem cerveja, porque é obvio que todos vão querer desfrutar um pouco. Sugiro sempre evitar o excesso, fazer tudo medido. Tomar um pouco de cerveja está perfeito, um pouco de vinho, não abusar da comida. Não comer muito, sobretudo frituras, não fumar. Essas coisas fazem mal. Evitar os excessos, não fumar neste período, ao menos”, declarou Díaz Babio, que também está escalado para o segundo jogo da decisão, que ocorrerá no próximo sábado, no Monumental de Núñez.
A perspectiva de fazer uma transmissão de rádio tão criativa representou uma nova experiência também para quem está tão acostumado ao futebol e ao microfone. Este é o caso do comentarista Leo Uranga, que possui um programa na Radio Continental e foi chamado para a transmissão na Radio Colonia.
“No meu caso, tem muitos anos que comento futebol, tenho amor pelo futebol, e obviamente temos sangue argentino e vivemos isso de uma maneira muito especial. Tivemos que nos relaxar, a música de fundo da transmissão nos ajuda muito a controlar os decibéis. Tivemos que encontrar o ritmo, tínhamos de nos acomodar a algo que nos pediam, assim houve um processo de adaptação”, declarou o jornalista ao ESPN.com.br.
No entanto, apesar de ter quebrado qualquer barreira quanto ao ineditismo de uma ideia tão inusitada, a expectativa é de que o segundo confronto ofereça uma dificuldade ainda maior na busca de manter o clima zen.
“É a partida decisiva, a emoção é maior para todos, nós temos que buscar a medida de onde relaxarmos, de onde nos colocamos nesta transmissão”, afirmou Uranga.
De qualquer forma, a aceitação do público, que é possivelmente o maior desafio de uma ideia inusitada, parece ter sido alcançada.
“Recebemos muitas mensagens de pessoas, umas por curiosidade, que acabaram colocando na Radio Colonia, para ver como se poderia viver uma partida de uma maneira mais relaxada. Muitos disseram à rádio que gostaram, que puderam viver de outra maneira, com menor emoção, mas na medida certa.”
O futebol é de fato um teste para cardíaco. Mas ele já encontrou uma alternativa para que ao menos seja um teste mais suave.
