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'Rebelde e teimoso no futsal', Marcelo vingou no futebol graças à insistência do avô

11 anos no Real Madrid. Jogador mais vencedor da seleção brasileira. Cidadão do mundo. Falar de Marcelo hoje não é difícil. Complicado mesmo é reconstruir a história de como ele deu os primeiros passos e iniciou no futebol.

Nascido e criado no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, as memórias dos primeiros times e primeiros técnicos do lateral esquerdo se perderam, deixando fragmentos, peças de um quebra-cabeças a ser montado.

Duas pessoas que poderiam contribuir com essas lembranças para a série Garimpeiros do Brasil não puderam falar. Pedro, avô de Marcelo, morreu há quatro anos. E o jogador informou via assessoria de imprensa que não ajudaria.

A reportagem da ESPN Brasil decidiu coletar pistas para vasculhar o princípio de tudo. Conversou com amigos, pessoas próximas ao jogador, antigos vizinhos. Foi até o berço dele e aos lugares onde supostamente passou até vingar.

Infância dura

Apesar de ter nascido em bairro nobre, a infância de Marcelo foi dura.

A família tinha grandes dificuldades financeiras e ele foi criado no antigo edifício Rajah, bem próximo da praia de Botafogo. Na época, o local era tratado na cidade como uma "favela vertical".

Exagero ou não, o local acolheu muitas famílias humildes e com dificuldades parecidas com a família de Marcelo. Ficou conhecido na história por abrigar também os encontros da Torcida Jovem do Botafogo. Passado quase apagado desde que o edifício foi totalmente reformado e rebatizado como Solimar.

Na época de Marcelo, uma das diversões dele e do irmão André era jogar bola no salão térreo do local, cujo piso era totalmente vermelho e chamava à atenção de moradores e visitantes.

O início foi ali, jogando futebol para se divertir. Fazia o mesmo na areia da enseada de Botafogo. Também usava como "campo" a praça Joia Valansi, que ficava mais próxima à casa do avô Pedro, seu maior incentivador.

Futsal no Guanabara

Com quatro anos, Marcelo foi levado pela mãe e pelo avô Pedro ao Clube de Regatas Guanabara, no bairro do Botafogo, para jogar futsal. Mas as memórias dessa época são praticamente inexistentes.

"Nunca ouvi falar dessa história e estou no clube desde 1987. As quadras de futsal e vôlei nem sequer existem mais. Foram transformadas em estacionamento há seis, sete anos", disse Edson Manuel, gerente do clube.

Sócios e funcionários também relataram desconhecer a passagem de Marcelo pelo Guanabara. As únicas confirmações vieram de um parente e de um vídeo feito pelo próprio Marcelo antes de a Copa começar.

"Uma galera que conhecia ali onde eu morava, em Botafogo, sabia que ali [no Guanabara] tinha uma quadra de salão e tinha um lugar para fazer um teste e tal. Aí minha mãe levou no Guanabara, com quatro anos mais ou menos. Era uma quadrinha de cimento", disse Marcelo, em seu canal no YouTube.

"Meu avô acompanhou minha mãe e ele dizia que eu me jogava de peixinho no cimento sem medo de bater a cabeça. Que dava bicicleta. Dava sem pulo. Sem medo de me jogar no chão", completou.

Futebol no Exército

Um dos maiores mistérios nessa história é se Marcelo passou ou não pela Escola de Futebol do Exército da Urca, também próximo ao bairro em que nasceu.

Há relatos de que Pedro o levou para jogar na escolinha quando o lateral tinha seis anos. Seria mais uma tentativa de encaminhá-lo no esporte. Alguns dizem que o avô matriculou o neto somente na colônia de férias.

O próprio Marcelo esteve no local há um ano em uma ação da Unicef, mas nada falou dessa história.

"Sinceramente? Eu não me lembro da figura Marcelo, dele garoto neste campo. Passavam tantos meninos. Me lembro de alguns, mas não dele", disse Jeferson da Silva, professor da escolinha de 1994 até 1998.

"A escolinha também cobrava mensalidade dos pais. Muitos garotos eram filhos de militares. Havia sim um grupo pequeno de bolsistas, mas não me recordo de o Marcelo ter feito parte", completou.

Hoje militar reformado, Jeferson da Silva não chegou a dar aulas na colônia de férias, mas lembra do seu funcionamento.

"Até hoje ela acontece no mês de janeiro, durante três semanas. Tem várias oficinas e uma delas é futebol", disse.

Alguns parentes consultados desconhecem essa possível passagem de Marcelo pela Urca.

Futsal, pra valer

Certo mesmo é que Marcelo ingressou no futsal do Fluminense em setembro de 1998, quando tinha dez anos. A passagem durou pouco, mas foi o início da saga do hoje lateral de forma oficial nas quadras de salão.

"Não sei os motivos para ele não ter ficado conosco em 98. O que se comentava entre coordenadores é que ele não tinha agradado, era muito pequeno", disse Ricardo Rogério, professor de Marcelo na volta ao futsal do Fluminense, em 2002.

Marcelo chegou a passar pelo futsal do Vasco em dezembro de 2000. Em junho de 2001 foi para o Helênico. Retornou ao Fluminense apenas um ano depois, em junho de 2002.

"Eu o vi jogando pelo Helênico, que não tinha um time tão bom e mesmo assim ele se destacava. Era um jogador que tinha todas as qualidades e habilidades do salão. Eu pedi a contratação dele no ano seguinte [2002]", disse Rogério.

"Ele se destacava e incomodava muito quando a gente enfrentava o Helênico. Quando o convidei para ir ao Fluminense, fui falar com o avô dele, o seu Pedro, e disse que não era para fazer teste. Era pra vir definitivamente".

Ricardo Rogério recebeu em mãos um garoto de 14 anos praticamente pronto, mas teve de lapidá-lo um pouco mais.

"Ele jogava com garotos mais velhos. Jogava na praia. Jogava na rua. Jogava salão. Ele chegou para mim com todas as valências necessárias para um jogador. Tinha até a malandragem da bola", disse Rogério.

"Mas a gente ajudou de alguma forma. Ele era muito rebelde taticamente. Queria colocar a bola no pé e resolver tudo sozinho. Jogava como ala esquerdo. E eu dizia que não era assim. Procurava orientar. Também era muito brincalhão. Tinha horas que tinha de falar para ele: 'Agora é sério, diminuiu a brincadeira, pô!'", relembrou Rogério.

Marcelo ficou no futsal do Fluminense até o final de 2002. Na virada de ano ganhou a chance de treinar em campo. Foi aprovado pelo diretor Marcelo Teixeira e pelo técnico do sub-15 Alexandre Gama.

Essa parte da história já é mais conhecida. Marcelo foi promovido aos profissionais em 2005 por Abel Braga. Em janeiro de 2007, já foi negociado com o Real Madrid, iniciando uma história de 11 anos e 19 títulos.

O avô incentivador

O nome do primeiro técnico. O nome do primeiro clube. O primeiro torneio que disputou. A primeira taça que ganhou. São informações que se perderam ou fazem parte apenas das memórias de Marcelo.

Do início do garoto no futebol há apenas uma certeza: o avô Pedro foi o grande incentivador e até mesmo poderia ser creditado como o descobridor. Era ele quem levava Marcelo aos clubes em busca de uma chance.

Mesmo quando o neto já estava firme no futsal do Fluminense não deixava de buscar oportunidades.

"O avô era mais do que isso. Era a base do Marcelo. Ele comprou um Fusca e levava o neto aos clubes de Fusca. Pedia oportunidades. São histórias que a gente escutava e escuta até hoje", disse Rogério.