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Titular da seleção, Willian era fenômeno no futsal e tinha média incrível de gols

Titular do Brasil na Copa do Mundo e destaque do Chelsea, Willian deu os primeiros passos para virar jogador no Ribeirão Pires Futebol Clube, na região metropolitana de São Paulo.

Na época, ele tinha apenas seis anos e a bola era apenas uma companheira nas peladas da rua de paralelepípedos Conde de Sarzedas, no bairro do Jardim Pastoril, próximo ao centro da cidade.

Foi quando os pais do garoto, dona Zezé e seu Severino, decidiram matriculá-lo na equipe de futsal do Ribeirão Pires, clube fundado em 1911, de forma que ele tivesse uma atividade extra antes das aulas na escola.

“Ele era muito tímido, muito magrinho e não tinha essa cabeleira que o tornou famoso no mundo, não! Na época era cabelo raspado mesmo”, relembrou Hamilton Gonçalves Dias, homem fundamental para Willian.

Hoje coordenador de esportes do Ribeirão Pires FC, foi ele quem teve o primeiro contato com Willian e passou a treinar o garoto, sendo o legítimo descobridor do meia-atacante, como mostra a série Garimpeiros do Brasil da ESPN Brasil.

"Ele começou com a gente como 'chupetinha' [sub-6] e nessa idade ainda não participava de campeonatos. Depois passou para 'mamadeira' e, a partir dos 9 anos, entrou na categoria 'fraldinha' e começou a jogar", disse.

O professor Hamilton, como é conhecido na cidade serrana, viu o menino fazer muita coisa que gente grande não era capaz. Ficou impressionado com Willian já nos primeiros treinos.

“Mesmo pequenino ele tinha uma força no chute, sabia bater na bola com uma precisão que impressionava. Os diferenciais dele eram o chute e os passes. A média de gols dele era 20, 21. Era nosso artilheiro”.

Muitos foram também os títulos conquistados na quadra do Ribeirão Pires. Willian usava a camisa 10 da equipe, que tinha um modelo de uniforme bem similar ao do Bragantino no início dos anos 90.

"A jogada mais típica dele era receber a bola, pisar para pará-la e então passar ou chutar no gol. Já com seis anos dava para notar que ele tinha um dom para ser trabalhado".

Hamilton treinou, orientou e aperfeiçou o talento do menino, mas não se vê como o descobridor do jogador do Chelsea e hoje camisa 19 na seleção. Aliás, até é modesto em relação à sua participação na formação de Willian.

“Descobridor? Eu somente dei iniciação nele no futsal, ensinando valores, como respeito aos colegas e aos adversários, responsabilidade e persistência”, disse Hamilton, que ainda divide os méritos com outra pessoa.

“O pai dele ficava na arquibancada gritando, pedindo para o menino chutar para o gol. Às vezes, eu tinha de pedir para ele ter calma. Não era assim. O jogo tinha de ser coletivo e o menino tinha de entender isso. Mas ele ajudou muito. Trazia o Willian para o clube e fazia ele chutar com a perna esquerda, insistia nesse exercício. Tudo para primorar o garoto."

"O que o Willian tem, o que conseguiu e o patamar que alcançou hoje é graças ao seu Severino e a dona Zezé. Eles foram guerreiros demais, compraram a ideia e batalharam muito para que esse sonho fosse realizado".

Willian ficou no time de futsal do Ribeirão Pires dos seis aos dez anos. Depois foi para Santo André, onde passou a jogar futebol society pela escolinha de Marcelinho Carioca, ídolo do Corinthians.

Pouco tempo depois a grande chance surgiu. Em um amistoso contra um time de base do próprio Corinthians, Willian se saiu muito bem. Isso foi suficiente para que ele fosse convidado para integrar a base do time alvinegro, onde se profissionalizou em 2005. Até o pai do jogador se beneficiou, foi contratado como segurança do clube.

Depois foi para o Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, o Anzhi, da Rússia, e o Chelsea, onde está desde 2013.

E o professor Hamilton? Formado em educação física, ele trabalha há 30 anos como técnico e professor na rede pública. Deu e dá aulas para jovens de periferia, de classe média e alta. Não tem preferência. Quer apenas ajudar.

Hamilton calcula que já passaram pelas suas mãos mais de 15.000 meninos. A grande maioria não teve o mesmo destino de Willian. Ele recorda de mais dois que viraram jogadores.

“Tinha dois meninos que eram um ano mais novos que o Willian e vingaram. Hoje eles jogam fora. É o Cauê Cecílio, que está em Portugal, e o Jefferson Mariano, que deixou Portugal e foi para China”.

Isso não é motivo de frustração para Hamilton. Ele entende que vem cumprindo bem seu dever.

"[Willian é um troféu para você?] Troféu? Não. Mais que o reconhecimento do Willian, eu tenho o reconhecimento das pessoas que estão envolvidas no meu trabalho, há 30 anos. Meus alunos que não são famosos tem gratidão comigo, me convidam para batizar os filhos, matriculam os filhos na escolinha. Esse é o reconhecimento que vale a pena".