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Everybody hates Sterling: Por que o astro de R$ 400 milhões da Inglaterra e do Manchester City é tão odiado?

Entre aquelas muitas "verdades absolutas" sempre ditas sobre o futebol inglês - a melhor liga do mundo, a seleção sempre decepciona na Copa do Mundo, sempre perdem nos pênaltis, etc. - há uma mais atual que desperta bastante atenção.

Aquela "verdade absoluta" sobre Raheem Sterling.

A história é a seguinte: Sterling, 23 anos, camisa 10 da Inglaterra no Mundial, jogador do poderoso Manchester City e avaliado em 90 milhões de libras (quase R$ 400 milhões) pelo site especializado Transfermarkt, é quase sempre retratado como um cara controverso e divisivo, assim como uma das figuras mais polarizantes e odiadas do futebol inglês.

Então, vamos partir daí: Sterling merece ser de fato uma figura polarizante e odiada?

Certamente ele inspirou toda sorte de cobertura de imprensa em um espaço de poucos anos, indo de exaltações e odes (o jornal The Telegraph já o descrevia como "sensação teen" em 2011, aos 16 anos) até a já conhecida (e bastante irracional) expectativa de lealdade e "amor à camisa" imposta por imprensa e torcida aos atletas quando eles querem ganhar mais dinheiro (quantas manchetes do tipo "Sterling vira as costas para o Liverpool" foram escritas quando ele foi para o City?).

Também há enorme cobertura de tudo o que Sterling faz fora de campo, caindo por vezes no campo da chacota, como quando um vídeo do atacante inalando óxido nitroso tornou-se viral em 2015.

Até aí, porém, não está claro por que tudo isso faz de Sterling uma figura tão polarizante e odiada na mídia inglesa. A única verdade é que tudo o que é publicado sobre ele só o torna mais e mais famoso, assim como faz crescer o número de haters.

E figuras polarizantes e odiadas, especialmente no mundo do esporte, geralmente têm que fazer algo concreto, quase sempre um ato que divide opiniões, para se tornarem um para-raios de elogios e críticas de todo tipo.

Tomemos como exemplo o ex-astro do beisebol Alex Rodríguez. Ele era uma figura polarizante e odiada por frequentemente ser pernóstico e desafiar praticamente todas as regras e recomendações do esporte profissional. Sua famosa arrogância, combinada com sua habilidade no campo, fizeram A-Rod, como era conhecido, transformar-se em uma figura amada e odiada na mesma medida: alguns o viam como alguém inspirador, outros como um falastrão extremamente grosseiro.

Rodríguez se tornou ainda mais polarizante (e odiado) depois de ser flagrado no antidoping pelo uso de substâncias melhoradoras de desempenho, um fato que serviu apenas para dividir ainda mais seus fãs e haters: uns o descreveram como trapaceiro, enquanto outros o colocaram como um pobre coitado que apenas cometeu um erro.

Só que mau comportamento não é a única maneira de se tornar polarizante - e odiado...

Na NFL, por exemplo, Tim Tebow sempre ganhou as manchetes de forma agressiva por sua devoção extrema ao cristianismo (mesmo no meio dos jogos). Já Colin Kaepernick, que decidiu usar o hino nacional antes das partidas para fazer seu protesto contra a brutalidade policial contra os negros e a injustiça social nos Estados Unidos, aparece como uma das figuras mais controversas da história do esporte norte-americano. No caso de ambos, todo esse tratamento foi recebido pelo fato de eles terem decidido compartilhar a maneira que pensam com o resto do mundo - e em rede nacional e internacional de TV.

Ou seja: suas ações causaram a polarização, a admiração e o ódio que esses atletas vivenciam hoje.

No caso de Sterling, o debate perpétuo em volta dele parece ser apenas isso (ele mesmo), e não sobre algo em que ele está participando ou fazendo.

O astro do City jamais se posicionou politicamente, não advoga contra ou a favor de qualquer causa controversa (ou de qualquer causa em geral, na realidade) e não faz qualquer coisa fora de série para se promover.

Em um depoimento publicado recentemente no site The Player`s Tribune, ele contou sua história de vida - e que, para ser honesto, é quase a mesma de muitos atletas profissionais -, lembrando que cresceu na pobreza, ajudando sua mãe e sua família a terem uma vida melhor através do esporte.

"A Inglaterra ainda é o lugar onde um menino levado que veio do nada pode realizar seu sonho", escreveu.

Então, o que suscita tantas reações intensas sobre Sterling na Inglaterra? Por que há tantas manchetes criticando o atacante por comprar uma mensão de luxo (que na verdade era para sua mãe)? Por que o fato de ele tatuar uma arma na perna virou o Reino Unido de ponta cabeça (ele explicou que fez o desenho para homenagear seu pai, assassinado a tiros quando o hoje camisa 10 do English Team era bebê)? Por que tudo o que é conectado a Sterling de repente se transforma numa grande tese sobre quem ele é como jogador e pessoa?

Uma teoria é a cor de sua pele. Mas essa ideia não faz tanto sentido, já que, como todas as minorias, ele enfrentou o racismo em todos os seus graus a vida inteira e o tempo todo. Isso, porém, nunca o limitou profissionalmente. Assim como o também atacante Marcus Rashford, do Manchester United, outro atleta negro, jovem e colega de equipe de Sterling na Inglaterra. A diferença é que Rashford jamais inspirou as reações de ódio que Sterling sofre na Grã-Bretanha.

"Eu não acredito que todo esse ódio seja por ele ser negro. Acho que na verdade tem a ver com a percepção que as pessoas têm sobre seu caráter", opina John Barnes, um dos maiores ídolos da história do Liverpool, à ESPN.

Barnes, assim como Sterling, nasceu na Jamaica e foi viver na Inglaterra. Por isso, sabe bem do que fala.

"Atente-se ao fato de quem eu disse 'percepção do seu caráter', e não do caráter dele em si. Falo da percepção disso, e do que o termo 'negro' significa ou deveria significar", disserta.

Barnes acredita que, por trás da imagem que as pessoas têm de Sterling, há obscuras questões sociais. E Maurice Mcleod, autor e cientista social que escreveu muito sobre futebol e cultura, diz que a obsessão inglesa sobre a estrutura de classes é a verdadeira raiz de tudo.

"Na Inglaterra, você deve ser o que você nasceu para ser. Você pode alterar sua posição social, mas haverá sempre aquele sentimento da pessoa cuja entrada não é permitida no clube. E, se te deixarem entrar, você vai ter que se comportar segundo as regras da casa", afirma.

"Há uma narrativa de que aqueles que ascendem socialmente devem fazer isso de maneira respeitosa e precisam ser gratos pelo que foram permitidos a alcançar. E, na percepção de muitas pessoas, Sterling não age assim", filosofa.

Mcleod observa que isso inclusive vai além da questão racial, citando Lewis Hamilton, que é um piloto de extremo sucesso, mas também um alvo preferencial dos tabloides e revistas de fofocas; assim como Wayne Rooney, ídolo do Manchester United e maior artilheiro da história da seleção inglesa, mas que nunca recebeu a adulação que lendas como ele costumam receber.

Em ambos os casos, assim como no de Sterling, a imprensa sensacionalista inglesa, que geralmente tem como público-alvo a classe trabalhadora, mas que é propriedade e operada por jornalistas e executivos que são predominantemente de classe média e alta, identifica uma falha aparente de genuflexão e transforma isso em uma longa narrativa sobre Hamilton, Rooney, Sterling e tantos outros serem "figuras controversas". Então, a mídia mainstream, mesmo os veículos que abominam o modus operandi dos tabloides, fazem uma "cobertura da cobertura', ou das reações à cobertura, e assim a história segue em frente.

"No fim das contas, é uma questão de conservadorismo social. É como se dissessem a eles: 'OK, vocês podem se juntar ao nosso clubinho, mas por favor não sejam insolentes", diz Mcleod.

Há de se ressaltar: Sterling não é perfeito.

Ele já foi detido duas vezes por supostamente agredir sua namorada (as queixas foram retiradas depois), e já protagonizou diversos episódios de comportamento ruim, como chegar atrasado aos treinos da seleção inglesa.

Também há o componente físico. Sterling, apesar de seu sucesso no Liverpool e no Manchester United, jamais foi figura dominante no English Team. Em nesta Copa do Mundo, isso vem se repetindo, apesar dos bons resultados do time.

No entanto, as coisas parecem que vão além disso. E dada a aparente incongruência entre o que Sterling fez e como ele é retratado - como ganancioso, focado no bling, para usar a infeliz terminologia atual - parece razoável imaginar se ele é uma figura polarizadora ou, como disse Barnes, "uma tempestade em uma xícara de chá" que nem é de sua própria autoria.

Sterling, por sua vez, aparenta não sentir qualquer preocupação ou desorientação por isso, o que é notável e admirável no fim das contas. Em seu texto no Player's Tribune, ele escreveu aos seus críticos: "Eles odeiam o que eles não conhecem".

E concluiu fazendo um pedido: "Se você cresceu da mesma maneira que eu cresci, não dê ouvidos ao que certos tabloides dizem de você. Eles só querem roubar sua alegria".

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Inglaterra x Bélgica - 28/06 - 15h (de Brasília) - Estádio de Kaliningrado