Desiludido, Jorge Sampaoli, técnico da Argentina, disse, nessa segunda, 25 que o segredo para sua seleção bater a Nigéria e conseguir a vaga para as oitavas de final da Copa do Mundo está no coração.
Se a tática é essa, Sampaoli começou bem ao promover Franco Armani à condição de goleiro titular
"Ele é tão gente boa que a gente até brincava com ele, dizendo que ele não era argentino", contou à ESPN o colombiano Trellez, jogador do São Paulo, companheiro de Franco Armani entre 2014 e 2015, no Atletico Nacional de Medellín.
"É uma pessoa espetacular, um grande amigo. Tomara que tenha uma grande partida", completa Jonathan Copete, companheiro dele na conquista da Copa Libertadores de 2016, também pelo Nacional.
Na Colômbia, o goleiro de 31 conquistou muita gente. Em sua despedida, em janeiro, o estádio Atanásio Girardot recebeu mais de 30 mil pessoas que lá estavam apenas para se despedir dele.
Armani chorou muito. Comoveu-se com homenagens dos companheiros e de ídolos do clube, como o lendário Higuita. Mas estava decidido a regressar. Porque estava voltando para a Argentina para um reencontro com seu passado e um objetivo que ele jamais abandonou, mesmo nos momentos mais difíceis: jogar pela seleção.
No milionário River Plate, Armani sabia que sua chance de aparecer para o técnico Jorge Sampaoli era maior. Ainda que, escolhido melhor goleiro da Libertadores de 2016 e titular do time ideal das Américas do mesmo ano, ele já não precise mais de introduções à menção de seu nome.
"No passado, falava-se muito em uma possível naturalização dele, para que jogasse pela Colômbia, já que as convocações para a Argentina não vinham. Mas Armani nunca abandonou o sonho de defender seu país", contou Copete.
Prestes a, enfim, estrear pela Albiceleste, justamente no jogo mais importante da equipe do ano, Armani, campeão da Supercopa Argentina em seu primeiro ano com o River, certamente deve pensar que tudo valeu à pena. Ainda que seu primeiro jogo chegue em um momento tão tenso. Ou principalmente por isso.
Afinal, como disse o presidente da torcida uniformizada do Atletico Nacional, Los del Sur, em sua despedida do clube, o goleiro sempre usou seu sangue argentino para mostrar a que veio.
Mas o começo foi duro.
NÔMADE
Armani foi revelado pelo pequeno Cordoba, do interior da Argentina. De lá, se transferiu para o Estudiantes de La Plata. Em seguida, sem receber chances, foi para o Ferro Carril Oeste, um pequeno clube na região central de Buenos Aires, onde jogou pouco, sem despertar muita atenção.
Chegou então ao ainda menor Deportivo Merlo, da segunda divisão argentina, em 2009. E, após um ano muito bom, com o time subindo de divisão, ele enfim, começou a ser notado e aparecer para os times da "Primera". Só que o acaso quis que Medellín entrasse no seu caminho.
Na pré-temporada daquele ano, o Nacional jogou um amistoso contra o Merlo. E Armani impressionou ninguém menos que o técnico Juan Carlos Osorio, hoje no México, que pediu sua contratação. Armani teria pela frente a concorrência do veterano compatriota Gastón Pezzutti, mas foi. E, logo no primeiro ano, rompeu os ligamentos do joelho direito e ficou quase um ano parado.
Problemas nunca haviam parado Armani antes. E, mais uma vez, ele insistiu, até conseguir sua chance de ser titular, em 2013, para não mais sair do time. E tornar-se o jogador com mais títulos pelo clube na história do Atletico Nacional.
"Armani é um goleiro muito seguro, tanto nas bolas aéreas como embaixo dos paus", diz Trellez. "Na Colômbia, ele se desenvolveu muito, cresceu demais", afirma.
Além da habilidade para as defesas, Armani também tem como forte característica o jogo com os pés. Uma informação que certamente causa alívio aos torcedores argentinos que se desesperaram com a trapalhada de Willy Caballero que resultou no primeiro gol da Croácia na derrota por 3 a 0 da semana passada.
"Ele fala muito com os zagueiro, orienta o time e sempre conquista o respeito dos companheiros", diz Trellez.
MELHOR DO MUNDO
"Para o meu filho Jonathan, ele é o melhor do mundo. Pode perguntar para ele que ele vai te confirmar: é o Armani", revela Copete sobre o seu filho de 9 anos.
Além da parte técnica, a adoração do pequeno Jonathan tem muito a ver com o carisma do jogador. Por onde passou na Colômbia, o jogador deixou boas impressões.
"Era comum não só o meu filho, mas outros filhos de jogadores irem ao clube para brincar com ele, que adorava ficar fazendo defesas com os garotos", diz o jogador do Santos. "Ele é uma pessoa espetacular", completa.
É evidente que ter se tornado o maior campeão da história do Nacional certamente também ajudou. Pelos verdolagas, ele conquistou 13 títulos, incluindo uma Libertadores, seis títulos nacionais e uma Supercopa Sulamericana.
A lista poderia ser maior, se o Nacional não tivesse aberto mão da Copa Sulamericana de 2016, em que o time colombiano teria pela frente a Chapecoense na decisão.
A tragédia catarinense abalou Armani profundamente. Foram quatro dias em que ele não queria sair de casa, em que só chorava. Comovido, o goleiro escreveu uma carta à memória de Danilo.
"Essa é a nossa vida. Uma vida onde há sonhos para alcançar, onde sempre há projetos a cumprir. Uma vida em que muitos querem estar, mas poucos alcançam", postou o jogador em sua conta no Instagram.
Armani, enfim, alcançou.
