2018 não foi um ano fácil para Javier "Chicharito" Hernández.
O atacante vivia uma seca de gols pelo México, e uma temporada complicada no West Ham sob o comando de David Moyes fizeram surgir inúmeras especulações sobre seu futuro no futebol europeu.
Até o último sábado...
Em Rostov, o camisa 14 desencantou e marcou o 2º gol de El Tri na vitória por 2 a 1 sobre a Coreia do Sul, pela 2ª rodada da fase de grupos da Copa do Mundo 2018.
Dessa forma, chegou aos 50 gols com a camisa da seleção, algo que nenhum outro jogador conseguiu - nem mesmo o lendário Hugo Sánchez, que fez "só" 29.
Sob a batuta de Juan Carlos Osorio, a importância de Chicharito para o time ficou ainda mais, por mais bizarro que isso possa parecer, já que ele é o maior artilheiro da história do país e jogador mais famoso e respeitado do futebol mexicano.
Mas muitos se esquecem que Hernández (que agora também igualou o recorde de Luis Hernández como maior artilheiro do México em Copas, com 4 gols, e igualou Cuauhtémoc Blanco e Rafa Márquez ao marcar em três Mundiais consecutivos) não havia disputado um Mundial como titular da seleção até 2018 - em 2014, o dono da vaga era Oribe Peralta, enquanto em 2010 o posto pertencia ao argentino naturalizado Guille Franco.
Seu estilo de jogo claramente evoliu muito desde que o garoto de Guadalajara deixou seu Chivas de coração para jogar no Manchester United, em 2010. Oito anos depois, no jogo contra a Coreia do Sul pela Copa em Rostov, isso foi visível.
Javier joga em profundidade, pelas pontas, busca o jogo pelo meio, lidera... E mais do que tudo, faz as coisas de maneira eficaz. Com a importância que Osorio dá à estratégia de tirar os defensores adversários de sua zona de conforto, seu jogo de deslocamento é vital para a maneira que o México joga hoje - e que já rendeu duas vitórias em dois jogos até agora na Rússia.
No sábado, Hernández foi premiado com um grande gol contra os coreanos, fazendo o "facão", aproveitando o passe de Hirving Lozano e rolando para dentro da meta adversária. Quando o hoje atacante de 30 anos ganha essa turbinada extra na confiança, quase sempre resulta em coisas boas.
Mas para Chicharito, essa não é apenas a Copa do Mundo em que ele finalmente virou titular. Ele agora é o grande líder do vestiário. Não necessariamente no sentido tradicional de ser a voz de comando, que dá as ordens, mas ele certamente define o tom.
Ao mesmo tempo, sua relação com Osorio é de admiração e respeito mútuo. Antes da Copa, o camisa 14 chegou a definir o colombiano como "um gênio".
Muito vem sendo dito e escrito sobre como essa seleção do México de repente se uniou e tornou-se um coletivo, um verdadeiro "grupo de amigos". E a mensagem de Javier após seu gol de número 50 mostrou isso.
"Eu dedico essa marca individual ao time", salientou, em sua coletiva de Man of the Match na Arena Rostov.
"Sem o time, sem os companheiros e essa comissão técnica que acredita em nós até a morte, assim como nós acreditamos neles, nada disso é possível", completou.
Hernández vem sendo importante em cimentar a conexão entre elenco e comissão técnica - um papel vital, visto que ele é a grande estrela do time. E a atmosfera certamente não seria a mesma se o atacante fosse um bibelô colocado num pedestal.
A estrela mexicana é bilíngue, não tem medo de falar o que dá na telha (o que inclusive rendeu uma "patada" no pessimismo da imprensa mexicana) e é muito (mas muito) ambicioso.
Ele já disse abertamente que seu maior sonho e meta na vida é levar sua equipe ao título da Copa do Mundo na Rússia. E isso ficou bem visível quando ele chorou copiosamente na execução do hino nacional de seu país nos dois jogos do Mundial até agora, com uma dose extra de lágrimas após o grande triunfo sobre a Alemanha na estreia.
"Por que a gente não pode fazer o mesmo que a Grécia fez na Eurocopa?", imaginou Hernández em uma entrevista à ESPN pouco antes da Copa, em referência ao inesperado triunfo helênico em cima de Portugal, há 14 anos.
"Por que não podemos ser o novo Leicester City da Premier League?", insistiu, recordando o time de Claudio Ranieri que ganhou a mais disputada liga nacional do mundo contra todas as probabilidades.
"Nós vamos tentar dar nosso melhor, apesar do que todos dizem contra nós, e vamos tentar vencer. 'Imaginemos cosas chingonas', c... Quem disse que não podemos vencer?", bradou.
"Imaginemos cosas chingonas" talvez seja a maneira mais mexicana de dizer "imaginemos coisas grandes". E essa frase virou o mantra dessa seleção na Rússia até aqui.
Quando isso foi dito pela primeira vez por Chicharito, mutios torceram o nariz, indicando que talvez essa pretensão fosse um pouco demais para El Tri, um time que jamais chegou nem perto de conquistar o mais cobiçado título do mundo.
No entanto, após dois jogos, 6 pontos e a liderança do grupo F, é possível dizer que agora a maioria dos mexicanos está imaginando "cosas chingonas" até julho.
E se a Grécia e o Leicester conseguiram, por que também não sonhar?
