Não foram poucos os obstáculos que quase impediram que o hoje goleiro titular do Brasil na Copa do Mundo estivesse em campo fazendo o que mais gosta. Alisson, 25, superou problemas de peso, estatura e financeiros, além de contrariar a própria escolha inicial, para se tornar o que é. Essa é a história que contam aqueles que o viram o menino surgir para o futebol.
Nascido em Novo Hamburgo, na região metropolitana de Porto Alegre, Alisson Becker carrega em seu DNA uma descendência alemã, inclusive os avós moram ao lado de uma rua que leva o nome do bisavô: Gustavo Becker.
O sobrenome, que em português significa padeiro, foi bem incorporado pela família, que se acostumou a produzir e degustar tudo que pode ser feito a partir da farinha de trigo. E esse foi o primeiro desafio de Alisson.
"O Alisson era comilão [risos]. Quando ele chegava em casa, já ia para a cozinha. Ele pedia para eu fazer aqueles pãezinhos sovadinhos. Eu botava canela, erva doce e passava um ovinho por cima. Ficava que era uma delícia. E ele adorava", disse dona Antonia, avó de Alisson e uma descendente de portugueses infiltrada na família Becker.
Não eram apenas os pães que encantavam garoto. As receitas da vovó Antonia era uma verdadeira tentação.
"A ele gostava de massa caseira. Pedia para eu preparar, mas gostava bem fritinho. Era massa, queijo, arroz. Tudo. Mas também os doces. Nas férias, eu levava ele e o Muriel [irmão] para o mercado, comprava chocolate e escondia. Eu dizia: ‘Alisson, não é para comer!’. Ele respondia: ‘Ah, vó, deixa eu comer aqui que a mãe não vê!’ [risos]".
O problema é que o hábito de garoto o acompanhou no início no futebol. Ele já tinha um problema com a estatura, apesar de alto em relação aos garotos de linha, era menor do que os outros goleiros. Como também brigava com a balança, acabava sendo natural ele ser preterido dos jogos no início na base do Internacional.
Por isso, esqueça o Alisson frio e calculista que hoje pisa nos gramados. Diante da família, ainda mais naquele momento, ele mostrava um lado emotivo, que o público jamais viu, e era bastante chorão.
"Ele ainda é, sempre foi. Naquela época, ele chorava direto por causa do problema com a balança. Nós dizíamos para ele que ele precisava perder peso, se não ele não ia poder jogar mais bola. Algumas vezes ele voltava dos treinos para casa chorando", afirmou Leandro Becker, tio do goleiro titular da Roma e da seleção.
O tio viu de perto Alisson nascer para o futebol, mas os primeiros chutes não foram como goleiro.
"Ele tentou fazer um teste para ser volante no Internacional, mas foram poucos jogos. Digamos que na primeira ou segunda semana, não sei exatamente, os instrutores e técnicos dele pediram para ele jogar no gol devido a estatura dele ser maior que os demais colegas de linha", afirmou Leandro.
FAMÍLIA DE GOLEIROS
A inspiração para ser goleiro estava em casa. O pai era goleiro nas peladas com os amigos e o irmão Muriel, cinco anos mais velho, já estava firme e forte na base do Internacional. Aliás, os primeiros contatos de Alisson com a equipe colorada foram para ver o irmão treinar nos campos que ficavam na época ao lado do estádio Beira-Rio.
"Tive a oportunidade de conviver com o Alisson até antes de ele jogar. Ele vinha acompanhar o Muriel. A gente dava umas bolas para ele brincar e passar o tempo. Ele começou a se interessar muito pela posição do irmão. A inspiração para o Alisson ser goleiro foi ver o irmão treinado. A partir dos 10 anos ele passou a fazer parte da base do Inter. Já começou a mostrar uma qualidade técnica diferenciada para a idade", relembrou Daniel Pavan, 44, preparador de goleiros do Internacional e reconhecido, até por Alisson, como o descobridor do garoto para o futebol.
Pavan, que também tentou se goleiro na juventude, passou a trabalhar no Internacional em 1995, quando ainda era estudante de Educação Física. Não chegou a treinar Alisson nos dois primeiros anos do menino na base, mas foi o preparador dele nos 13 anos seguintes e esteve presente em um momento crucial.
"Ele era bem gordinho. Era a genética dele, mas ele também era comilão. Gostava de um refrigerante, bolacha recheada. Terminava o treino ele já estava com os dois. Ao mesmo tempo, ele tinha uma maturação um pouco mais lenta. Era mais baixinho, mais gordinho. Isso fazia com que ele fosse preterido. Não era titular nem mesmo o primeiro reserva. Mas a gente via que ele tinha uma qualidade técnica. Por meio dos estudos do nosso departamento, nós também sabíamos que ele ia dar um estirão, e com isso emagrecer", relembrou Pavan.
"Mas, por ele ficar fora dos jogos, os pais dele queriam tirá-lo do futebol. Achavam que ele não tinha futuro. Que aquilo estava sendo perda de tempo. Algumas vezes, para disputar os campeonatos, ele perdia aulas. Isso ocorreu quando ele tinha de 12 para 13 anos. Eles vieram conversar comigo. Na visão deles, achavam que Alisson deveria investir somente nos estudos, pois ele investiam para o Alisson estar aqui todos os dias e não viam retorno", disse.
Para dificultar mais a situação, o pai de Alisson, José, ficou desempregado...
Ele trabalhava em uma empresa especializada em calçados, que fechou. Como ele bancava a ida dos dois filhos para Porto Alegre todos os dias, o aperto financeiro acabou reforçando a ideia de que era melhor tirar o caçula do futebol.
"Mas eu consegui convencer eles de que as coisas iam mudar, que o Alisson ia maturar, que o Alisson tinha um grande potencial técnico e graças a Deus eles me ouviram. De fato, foi o que aconteceu. Um ano e meio, quase dois anos depois, Alisson deu um estirão. Ganhou 16 cm e venceu a luta com a balança. Passou a ser titular na base e foi convocado para a seleção brasileira da categoria. Foi o início dessa trajetória de sucesso", disse Pavan.
Por ter participado daquele momento importante e do desenvolvimento da seleção, Pavan e Alisson são amigos até hoje. Trocam mensagens, incentivos e até torcem pelo sucesso de um pelo outro.
Hoje, Pavan, dona Antonia e Leandro dividem o orgulho por ver que o menino baixinho, gordinho e chorão de Novo Hamburgo é o primeiro nome citado quando o Brasil joga. E esperam que ele volte da Copa do Mundo campeão.
"Quem diria, né? Só Deus para botar ele nessas alturas. Ele e o Muriel são muito queridos. São humildes. Não são pessoas que deixaram o dinheiro subir para a cabeça. Rezo todos os dias, especialmente quando eles jogam. Vou fazer isso durante a Copa. Já até comprei uma vela e uma imagem da Nossa Senhora", disse dona Antonia.
