Dono da maior rede de papelaria do Brasil e com o nome envolvido na política do clube há mais de duas décadas, Paulo Garcia, 62, acredita que chegou a sua vez de gerir o clube e realizar um sonho. Superando a impugnação de sua campanha e autor de polêmica frase ("talvez seja legal, mas é imoral"), ele acreditar ter boas chances.
A frase foi dita ao explicar o pagamento feito para que alguns sócios tivessem os títulos regularizados e pudessem votar na eleição, o que fez sua campanha ser contestada no clube. Garcia defende-se e diz que nem sequer era candidato na época. E, agora, entre outros argumentos de defesa, diz que os sócios beneficiados não poderão votar.
Concorrendo graças a uma liminar da Justiça, Garcia acredita que o episódio não deve influenciar seu eleitorado no próximo sábado, dia 3 de fevereiro. Coloca suas convicções na fama que fez como dono da Kalunga e promete replicar os conceitos de gestão aprendidos no dia a dia do Corinthians, inclusive profissionalizando os departamentos do clube.
Também prometeu que o clube não fará mais negócios com Fernando Garcia, seu irmão e empresário de alguns jogadores do elenco (como o recém-contratado Renê Junior, Maycon, Lucca, Walter, Carlinhos...), com a ressalva de que esperará encerrar os contratos vigentes antes de romper.
Conheça abaixo quem é Paulo Garcia e o que ele propõe na quinta e última entrevista do especial dos canais ESPN com os candidatos à presidência do Corinthians, iniciado na última segunda-feira.
ESPN – Por que decidiu ser presidente do Corinthians?
Garcia - Porque tenho uma ligação muito antiga com o Corinthians. Desde a época do meu avô, do meu pai, eu. Toda a minha família sempre teve uma ligação muito forte com o clube. E agora com esta situação que o clube se encontra, a gente pode contribuir com o clube. Eu, Flávio (Adauto, ex-diretor de futebol) e Emerson Piovezan (ex-diretor financeiro) temos nossas vidas resolvidas e temos tempo para doar ao clube.
ESPN – Os dois nomes que você cita participaram da atual gestão do clube. Garcia - Nós nos conhecemos há mais de 30 anos, 40 anos. Eles sempre vitalícios e sempre estivemos do mesmo lado. Tanto que o Emerson Piovezan nunca foi da chapa Renovação e Transparência. Ele foi chamado para dar uma ajuda nas finanças, nos consultou e nós aceitamos tudo que é favorável ao clube. O Flávio é a mesma coisa. Daquele impeachment que estavam tentando promover contra o Roberto, a gente entendeu que era só política e entendemos que aquilo acaba denegrindo muito mais o nome do clube, coloca o clube de uma forma negativa, e nós apoiamos o Roberto. E o Roberto necessitava de um diretor de futebol porque o cargo estava vago. Ele falou comigo, mas eu declinei porque naquele momento não podia e não ficava bem. Falei com o Flávio, e ele foi. Foi muito bem-sucedido. Ele quase não apareceu e foi um ano vitorioso.
ESPN – O que pensa da Arena Corinthians?
Garcia - Acontece o seguinte, dentro do clube, esse grande imbróglio que se fala da Arena, é muito difícil eu falar de bate pronto porque não tive acesso, como ninguém deve ter tido, aos contratos por causa das cláusulas de confidencialidade em cima disso. Mas, falando em tese de algumas coisas, eu não vejo dificuldade nenhuma em cima disso. Vou conversar com a Odebrecht, que é uma grande empresa, com a instituição financeira, que é a Caixa, e vamos chegar em um acordo, um denominador comum, para que o clube possa avançar neste aspecto.
ESPN – E em relação à gestão do estádio?
Garcia - Olha, eu vou fazer uma concorrência internacional porque tem empresas multinacionais que cuidam das arenas no mundo todo. Acho que esse foi um erro grande erro que o clube cometeu. Deveria ter feito isso desde o início das obras, já procurando isso e não tentando inventar a roda, fazendo alguma coisa sozinho. São empresas que têm expertise nesse aspecto, tem todas as maiores arenas do mundo administrada por eles. Temos de conversar com essas empresas, fazer uma concorrência e ver o que é interessante para o clube.
ESPN – O que pensa do contrato com a Omni (empresa gestora do Fiel Torcedor)?
Garcia - De novo, não conheço os contratos. Não sei se o contrato é bom ou se é ruim. Não sei se ele tem expertise realmente para fazer o que está fazendo. De muito comentário de forma negativa. Não posso fazer uma acusação daquilo que não sei, mas vou buscar aquilo que for melhor para o clube. Essa é a atitude que vai ser tomada: tudo que beneficia o Corinthians. Claro que tem duas partes. Não posso dizer quem é ou não é sem ter acesso a esses documentos, os contratos todos. Sobre o ingresso, o clube vive de renda. Acho que podemos aumentar para os maiores favorecidos. É um entretenimento como outro qualquer. Pode ser também que a gente tenha um preço mais acessível para camadas de menor renda para fazer um equilíbrio total.
ESPN – Piovezan e Flávio Adauto fizeram parte da atual gestão. Eles não tem informações sobre a real situação do clube?
Garcia - Nem tanto. Porque o Emerson, na grande realidade, ele não participou de contratos do clube. Ele não participou disso. Ele administrou fluxo de caixa e a redução das despesas. Fez muito bem isso. É o Flávio não contratou ninguém. Teve uma ou outra contratação pontual, tanto que o Corinthians era tido como quarta força e provou o contrário. Tem um time muito bom. Pode não ter estrelas, mas teve sucesso.
ESPN – Como avalia a gestão Roberto de Andrade?
Garcia - Pelo que a gente sabe, acho que foi boa. Mário Gobbi deixou uma herança muito forte em dívidas. Quando ele (Roberto) assumiu, ele tinha R$ 90 milhões em dívidas vencidas. É o que consta. Eu nunca chequei esse número. Eu acho que foi comedida durante a gestão dele. O Emerson esteve lá com ele para controlar a dívida, para o fluxo de caixa, para acertar isso. E diminuiu-se bastante as despesas.
ESPN – E no futebol?
Garcia - Dentro de campo, os resultados foram muito bons. O que acabou não acontecendo foi investimento. O clube está 100% abandonado. Não teve investimento em outras categorias. E o clube precisa disso. Precisa de um basquete, um vôlei mais ativo, sem parcerias. Até chegar a um ponto de não ter parceria com prefeituras para ser Corinthians e valorizar ainda mais a marca.
ESPN – Por que o Corinthians não tem hoje, por exemplo, um patrocínio master?
Garcia - Tenho várias ideias para poder regimentar um potencial maior. Mas o grande problema é em um primeiro instante tem que ter credibilidade. Tem de saber a situação atual do clube. Porque ninguém quer associar a marca em alguém que está endividado. Tem saído essas notícias negativas até em um jornal de grande circulação que o Corinthians tem títulos contestados, etc. Temos de tomar ciência disso para ver isso foi baixado. Eu realmente não sei se seria interessante neste momento qualquer patrocinador se aventurar numa campanha dessa.
ESPN – E como equacionar as finanças do clube?
Garcia - Não tenho acesso. Mas tenho uma ideia pelo que falam. Até o Mário Gobbi, na questão do estádio, eu o procurei para saber e ele deu uma resposta que eu até comentei na imprensa. Ele teve três aulas no escritório de advocacia Matos Filho e não entendeu nada em termos de estádio. Roque (Citadini) participou de uma comissão e não chegaram a lugar nenhum. Então, se tem uma dívida com o estádio, acho que é em torno de R$ 200 milhões e R$ 300 milhões. Que é muito alta. O clube, segundo o próprio presidente da Odebrecht disse na delação premiada ao Sérgio Moro, disse que era em torno de R$ 400 milhões. Acho meio grande isso. E o restante da dívida do Corinthians são dívidas do dia a dia, mas a gente não tem acesso a isso porque não teve essa transparência. Algo que eu pretendo implementar. Ter um portal de transparência, que o associado e o torcedor tenha acesso para saber a situação do clube.
ESPN – Como será a relação do Corinthians com o torcedor organizado?
Garcia - O clube não é meu. Não posso ajudar nem com ingresso nem com nada. Submeto ao conselho e dentro do conselho submeto esse tema. Divido a decisão. Agora tem de ser uma relação amistosa. O torcedor é um cliente do clube e você tem tratar bem seus clientes.
ESPN – O que pensa de torcida única nos clássico no estado de São Paulo?
Garcia - Eu acho bom. Parou um pouco essa questão da agressividade que vinha ocorrendo. O ideal seria ter duas torcidas. O Ministério Público tomou uma atitude e não está tendo mais conflitos ultimamente. Se não está tendo, a gente espera que eles deleguem para que seja tudo na paz.
ESPN – O que pensa para o Parque São Jorge?
Garcia - Não adianta nada ficar fazendo obra aqui, obra lá, aqueles puxadinhos. Vamos fazer o planejamento para fazer um clube moderno, novo, levar ao sócio e aos conselheiros para se implantar para dez, quinze anos, um plano piloto que todo presidente que assumir tenha de destinar uma verba para fazer um clube novo. Porque não adianta você hoje em dia ficar gastando e não resolver o problema. É dinheiro jogado fora. Tem de voltar a ser o clube da família. Hoje, o Corinthians é um envelhecido e só tem homens. Ter monitor para a criança. Ter atividade esportiva para a esposa, restaurantes, SPA. É isso que é um clube social. Abrir para a terceira idade para as crianças, que possam ser independentes e pegar gosto pelo clube, que os pais não tem muito tempo durante a semana. Fazer no clube aulas de dança, pinturas, hidroginástica. É uma forma de resgatar um pessoal com uma atividade dentro do clube.
ESPN – Como o Corinthians vai se posicionar em relação à CBF?
Garcia - O Corinthians não tem tido problema nem com CBF, nem com a Federação. Tem tido um comportamento bem amistoso. Não tenho visto nada. Nem dos outros clubes. Hoje ninguém tem tido um enfrentamento. Eu acho que tem de ser participativo em tudo que faz e procurar o melhor para os clubes.
ESPN – Quais serão as marcas da sua gestão?
Garcia - Eu divido o Corinthians em quatro pilares. É o clube de futebol profissional, a base, a Arena e o Parque São Jorge, com o associado. São quatro pilares totalmente diferentes. Digamos que são quatro segmentos de mercado. E eu quero administrar todos eles de forma profissional. Estatutariamente você tem de ter um diretor. O diretor vai ser como um conselheiro consultivo, porque eu pretendo profissionalizar. Porque só profissionalizando, com pessoas competentes, com metas, com expertise naquilo que se propõe, é que vão administrar o clube. Não quero um clube amador, nem gerido por pessoas que estão me apoiando. É o que acaba acontecendo nos clubes em geral, e você coloca pessoas que não tem capacidade nenhuma para a função. Então, tem de ser forma profissional.
ESPN – Qual sua ideia para o departamento de futebol? Vai trocar alguém?
Garcia - Eu não mexo em nada disso. Acho excelente o Flávio. Porque geralmente o vice não tem muita função no clube. Na minha, vai ter. Vou dar o futebol para o Flávio administrar. A parte financeira ficará com o Emerson. E vamos contratar os profissionais para cada área e vamos tocar o clube de forma transparente e tranquila.
ESPN – Como vai lidar com o fato de seu irmão ser empresário?
Garcia - Isso é muito simples. O Fernando também não quer negócios com o Corinthians eu estando lá porque é nepotismo e isso não pega muito bem. Fernando é um cara sério, conhece ele desde que ele nasceu. É lícita a profissão de empresário. Não tem nada de errado. Esses contratos que tem hoje nós vamos cumprir porque senão vai desvalorizar [o jogador] tanto para o Corinthians como para o Fernando. E não é justo perder dinheiro por uma picuinha. Agora fazer negócio com o Fernando não vai acontecer tanto da minha parte quando da parte dele porque a gente não quer justamente para que não paire nenhuma dúvida sobre a gente.
ESPN – Você foi doador da campanha a deputado de Andrés Sanchez. Como é sua relação com os outros candidatos à presidência?
Garcia - Esse negócio entre eu e o Andrés...Eu o apoiei na política partidária, quando ele foi candidato a deputado federal. Como a gente sempre fez isso com o Wadih Helu e tantos outros dentro do clube, porque as pessoas precisam entender que não existe uma rivalidade. Eu nunca me coloquei na oposição, nem na situação. Sempre pelo princípio de que aquilo que for bom para o clube, a gente aplaude. E aquilo que for negativo, a gente conversa com o presidente, sem estardalhaço, nada, para que se conserte algumas coisas. Em relação ao Roberto, nunca tive muita amizade, com o Andrés sim, mas o que estavam fazendo não estava correto. O impeachment era errado e denigre a imagem do clube. Se acontece fica pior ainda a situação do clube.
ESPN – E com o Citadini?
Garcia - Eu tenho muita amizade, tanto é que alguns falam que entrei para favorecer o Citadini e outros falam que entrei para favorecer o Andrés. E outros falam que o Andrés seria uma chapa única. Qualquer um deles quis fazer uma composição comigo, mas eu não quis porque eu tenho o meu eleitorado. O Roque tem o dele, e o Andrés o dele. Vamos ver agora na eleição o que acontece. Tudo isso é democrático. O que não pode é ter rivalidade entre as pessoas.
ESPN – Vê risco de sua campanha ser impugnada? (N.R: a entrevista foi feita antes da decisão do clube e de Garcia conseguir liminar na Justiça)
Garcia - O risco é zero. Eu nem sei porque eu fui intimado. O que aconteceu foi que no dia 3 de dezembro acabava o prazo para os eleitores estarem em dia. E no dia 1º, uma sexta-feira à noite, baixaram um decreto dentro do clube de que o título familiar, com R$ 600 você quitava e ficaria em dia. E o individual, com R$ 400. Não fui eu quem fez isso, porque longe de mim... E tem as chapinhas hoje que concorrem ao conselho que são chapas de 25. E, coincidentemente, a situação já tinha quitado 800 carteirinhas que tinha na mão com um depósito de R$ 500 mil reais na conta do clube para ir abatendo os valores delas. O (secretário-geral Antônio) Rachid me ligou e disse que tinha falado com o pessoal das outras chapas para fazer o mesmo. E eles conseguiram algumas pessoas, mas tinha um problema de recurso. Eu me propus a pagar. Ele fez um novo comunicado, por áudio, dizendo que eu pagaria. Eu não era nem candidato naquele momento, mas poderia ser. E conseguimos muito poucas pessoas. Isso foi [feito] para as chapinhas. Se eles fizeram isso, você tem de jogar o jogo deles. Senão você vai embora. Porque você vai para um pleito e sai com mil na frente você tem de ir embora para casa. Porque eles [grupos mais fortes] vão ganhar a eleição e o Conselho todo porque eles têm as chapinhas. Então foi o que eu fiz. Eu paguei e declarei. Todos pagaram. Isso é um problema deles. Eu fui bem transparente. Acho que pode ser legal, mas é imoral. Isso não se faz. A não ser que você queria ficar fora. Eu fiz isso e não era nem candidato. Mas mesmo que fosse não tinha nada que impedisse isso. Outra situação: eu fui o primeiro na campanha eleitoral para que fossem impugnados todos aqueles que foram quitados. E foi aceito. E nenhum desses vão votar. Estão tentando fazer recorrerem para que eles possam votar, mas é imoral. Se votar, é um absurdo. O que acaba acontecendo, esse pessoal que não vai votar, então não tem crime. Não tem nada. Agora compra de vota que eles falam, então, nenhum pode concorrer porque tem churrasco, camiseta, festas, então acaba a eleição. Nenhum candidato pode concorrer.
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